E-conto publicado pela Draco. Compre djá.

Três problemas de A lua de Hayek

A lua de Hayek é um e-conto publicado pela Draco em 2013.
É um cyberpunk com interface analógica, baseada na descrição que Conan Doyle fez do irmão mais velho e mais esperto de Sherlock Holmes, Mycroft, e a consequência de governos criarem gerações de Ms.
Não sei como o editor aceitou publicar, mas gosto muito do resultado e é outra reelaboração retrô do futuro, da sociedade de controle.
O conto tem problemas. Em vez de me defender ou de tentar justificar, prefiro apresentar o que pensei e as escolhas que fiz.
O texto é um apanhado de três respostas do meu antigo Ask.

1. O problema do título

Tivesse chamado de A lua do Hayek, necessariamente estaria obrigado a tratar do economista e de forma direta, nem que fosse para salientar que não citarei nada dele no conto. E o fracasso em fazer uma dessas duas coisas faz o leitor se sentir enganado.

Mas o conto é A lua de Hayek. Trato de algo baseado na obra de Hayek, que no caso é um movimento do jogo de xadrez, uma variação da defesa Caro-Kann. Eu era fascinado pela Caro-Kann, achava estimulante travar o tabuleiro e colocar o oponente à prova: vamos ver seu autocontrole, vamos vez se você é bom de nervos.

A Caro-Kann obriga os jogadores a calcularem muito bem e ao mesmo tempo o valor da peça, da posição e da finalização (onde e como começam os movimentos derradeiros). E Hayek é conhecido pela tese central da impossibilidade de um cálculo econômico atual para a planificação da economia.

A Lua de Hayek, portanto, é o círculo de peões posicionados de tal forma que seu adversário é obrigado a arriscar ou a calcular com precisão.

Então, o conto inteiro é a própria Lua de Hayek. Tudo o que acontece é uma ilustração do movimento.

Dito tudo isso, o título é arriscado, o leitor não tem motivo algum para caçar essas informações nem o autor pode cobrar requisitos: só pode ler meu livro quem entender de história etrusca, boo-hoo, ai creuza.

O leitor ideal, se quem escreveu pode falar de leitor ideal (novamente, ai creuza), seria aquele que tem interesse no gênero cyberpunk ou em distopia, dois gêneros definidos pelo comentário político. Se já é leitor de cyberpunk, conhece todos os truques e chavões do gênero, então pode ser surpreendido com o meu tratamento do gênero. Se tem apenas entusiasmo, ele não perde nada, já que ele não conhece os truques que tentei contornar.

2. “O problema maior com A Lua de Hayek é que o autor, como sempre, não consegue manter o interesse do leitor, que não dá a mínima para o que acontece com os personagens, que são muitos, mais do que cabe num conto. Não há aquele elemento tão cobrado na estrutura do conto: a condensação.”

É a opinião de um leitor. (Mas esse “elemento tão cobrado na estrutura do conto” lembra um conhecido em comum. E o “não dá a mínima para o que acontece com os personagens” lembra outros dois.)

Mas tendo a concordar com as observações.

Não queria chatear o leitor com um “preste atenção neste personagem que vai conduzir o leitor” nem um “será que o personagem vai conseguir o que deseja?” quando o objetivo é outro.

Não queria investimento emocional do leitor, nem mesmo pelo mistério da trama mais aparente, meu interesse era o mistério maior: esse mundo futuro é possível e é possível porque metade dele já existe.

Há mesmo mais personagens do que caberia num conto. O excesso de personagens e o tratamento dado a eles espelha a condensação que escolhi: o que está condensado é a história desse futuro próximo. É um conto ambicioso e talvez falho. E deve ser o material menos acessível ao leitor e menos querido.

O desafio era conter uma novela dentro de um conto, o resultado é um trailer de uma história maior.

Pensava inicialmente na ideia de steampunk, em tecnologia retrô. E pensei em tecnologias sem máquinas. Daí lembrei dos mentats de Duna, do Frank Herbert, humanos treinados para pensar com exatidão, como computadores. Lembrei da mnemotécnica e do palácio da memória, da turma do Giordano Bruno, explorada por Thomas Pynchon e por Thomas Harris. E cheguei a Mycroft Holmes, que atende o gabinete vitoriano como um computador humano.

(O conto é 1995. Mas não sei se na edição e nas revisões, acrescentei a ideia que aparece na Liga dos cavalheiros extraordinários, do Alan Moore e do Kevin O’Neal, da relação entre M e Mycroft. A Liga é de 1999, mas prefiro deixar o crédito dessa ideia com Moore e O’Neal.)

Se com uma planilha de excel você pode administrar um município pequeno, uma pessoa com um tipo específico de mente poderá logo mais administrar um país inteiro. A parte mais retrô é tentar uma abordagem analógica para lidar com big data (“big minds for big numbers”). A tese implícita é que a parte mais fraca da estrutura de controle é a estabilidade psicológica dos administradores: não se replica um M em sala de aula. (Essa é a loucura do casal de lésbicas, Sartre e Platão.)

Eu queria a experiência de alguém que computa ações e cenários humanos e não narrador e personagens que falam de personagens que fazem isso. Não queria um narrador criando metáforas para explicar como M e Liv pensam, queria apresentar o padrão de pensamentos deles para o leitor. Daí a opção por minimizar o interesse, o drama, a emoção. E a opção por encher a história de mais informações que um conto pode conter.

E também queria colocar clones, transmorfos, androides. Lots of fun. O resultado talvez seja capenga, uma soma menor que as partes tão interessantes. Mas curto muito. É um dos contos mais pessoais, talvez seja o que mais chega perto de dizer coisas em que acredito. Do que foi publicado e do que há para ser publicado, talvez seja a única vez em que me aproximo de política.

3. O problema da estrutura (e o tema do Estado)

A estrutura do conto segue a necessidade de mostrar o jogo. Um jogo precisa de peças e seria preguiçoso dizer como o Estado controla milhares ou milhões de pessoas ou descrever como as pessoas eram obrigadas a fazer isso ou aquilo.

Era preciso mostrar que as pessoas eram peças e serem posicionadas no tabuleiro. Num conto isso é feito pela escolha de personagens tipos, o policial, o político, a estudante. Queria algo diferente, queria personagens que fossem reduzidos a tipos. Usei a necessidade de condensação e concisão do conto para tratar dessa tipificação, pelo recorte, por ter muitas vozes e pouco tempo dedicado a cada voz.

Os críticos gostam de dizer que um romance tem suas próprias regras, que o romance ensina o leitor como deve ser lido. Será que essa ideia vale para o conto?

Em vez de tipos adequados à ação do conto, personagens que não são adequados como tipos, e diante dessa escolha e do efeito causado, o leitor pode se perguntar sobre o que está acontecendo. O que está acontecendo é que o personagem principal, e o personagem que interessa ao conto, quase não aparece e quase não faz nada.

A narrativa espelha tanto o mundo apresentado no conto como o jogo realizado entre o personagem principal, M, e o sistema político contra o qual ele investe.

E também há esta diversão para o leitor: a ideia de que o conto precisa ter poucos personagens e pouca peripécia é um tanto cristalização do século XX sobre o “tale” e a “short story” do século XIX. Essa ideia faz muito sentido, ao ponto de tornar muitas narrativas previsíveis. Porque em algum momento todas as possibilidades de assassinato envolvendo uma casa e dois personagens se tornam uma matriz, não importa a capacidade do autor, e o autor menos capaz se vê obrigado a recorrer a gimmicks, a sacadinhas e truques, e corre o risco de criar uma história que só tem graça na primeira leitura. E acredito que o leitor deveria poder ler pelo menos duas vezes a mesma história, porque está pagando por ela e decidiu dedicar tempo à leitura.