“Será o quinto procurador da Judeia?” (Imagem original: ASCOM/VPR)

Um sinal de ‘você sabe quem’ em Até você saber quem é

Vários são os sinais diabólicos usados por Diogo Rosas G. em Até você saber quem é, como o livro, a estrada, a caminhada solitária, a dedicatória, o círculo dos sábios, a fotografia e todo o rol que o apreciador de filmes de terror e o estudante de religião conseguem identificar. E o mais discreto, e o mais interessante, é o círculo mágico, que aparece pelo menos em três momentos e que conhecemos pelo nome, tão abusado nos anos 90 e no início deste século, de “evento”.

Prefiro usar sinal em vez de símbolo. Símbolo é palavra carregada demais de significados e, para mim, acaba sendo desculpa para fugir do trabalho de narrar. Pode reparar, quando o escritor não sabe ou não quer contar uma parte da história, uma das soluções mais preguiçosas é botar um símbolo, e o Diogo foge disso como certos interinos fogem da cruz. O uso mais pedestre e mais pobre do símbolo são os clichês. Disso também costuma fugir o Diogo. E, por tudo isso, melhor falar de sinais.

Em volta do patriarca se assentam os pares, geralmente diante de uma fogueira. A casa é um templo construído em torno da fogueira, representada pela cozinha, pela sala de jantar ou, modernamente, a sala da TV, do videogame ou do computador.

Em volta de Odin, em volta da távola redonda, em volta de dona Benta nos serões do sítio do Pica-pau Amarelo, esse círculo positivo, e domesticado, indica, representa e traz a proteção do fogo e a reiteração dos poderes terrenos e a afirmação da harmonia cósmica, o círculo familiar.

(Os modernos podem antecipar no patriarca mulher e na família “quebrada” e cheia de agregados de dona Benta todas as renovações e revoluções de costumes. Lobato prefigura tanto a família desfeita como as mulheres chefes de família, que já existiam no tempo dele e sempre existiram blá-blá-blá. O que importa é que o novo está contido na imagem de Lobato. E esse é o poder do sinal, é quase uma representação mágica, porque é uma representação fixa, imóvel, do movimento.)

A versão negativa desse círculo pode ser chamada de diabólica.

Um “evento”, como uma vernissage ou o coquetel de lançamento de celular não costuma ter um patriarca, apenas um patrono e o mestre de cerimônia. Nesse sentido, um evento se parece com um círculo mágico, um círculo de invocação.

A ausência do patriarca indica que o evento é uma cerimônia que não tem abertura nem fechamento, porque não está vinculada a alguém vivo e presente, em volta de quem os pares podem se assentar. O evento é uma paródia que inverte certos elementos. E o evento costuma ser uma invocação ou algum outro tipo de ritual.

Para deixar mais clara a diferença, basta pensarmos no mundo antigo, da fazenda, a ideia de nossos avós e bisavós frequentarem vernissages. Não, eles frequentavam festas das famílias dos colonos da fazenda, festas dos donos das fazendas e festas da igreja. Não coquetéis de autógrafos nem vernissages, esses lugares sem o ar doméstico, e sem o ar patriarcal.

Há pelo menos três desses eventos de festinha de lançamento de livro em Até você saber quem é. O autor deixa de investir no sinal do círculo mágico, o narrador não comenta nem os personagens tratam do evento. Assim como o diabo está no mundo, os eventos do mercado editorial estão no mundo.

Entendo a necessidade comercial de lançamentos, mas reconheço ali o dedo frio do coiso. Mesmo quando a família e os amigos estão por perto, o evento continua sendo uma paródia do círculo familiar. O evento não é como o almoço de família ou o jantar com os amigos.

Era o que tinha para hoje.

Terminei o livro e quero voltar a ele mais tarde. Queria saber se a referência às estrelas na página 143 tem relação com Dante. E se o espelho entre Leminski e Tolentino pode ser visto como um exorcismo do primeiro.

E imagino que a frase da página 169, de “ser um desses merdas que lê” é paráfrase do clássico do tempo dos blogs, o “dez fiadaputa que lê livro”. Ou homenagem.

P.S.: Tudo isso me veio quando voltava para casa e pensava, mais uma vez, na insistência de autores jovens, se você tomar Pynchon como jovem em V e em Gravity’s Rainbow, com o café da manhã. O café da manhã não é a mesa do patriarca nem sua paródia demoníaca, parece o ensaio, a tentativa de compreender a sociedade.