Uma observação cruel em Shakespeare

Dias atrás, na cobertura da Folha da montagem nova de Tróilo e Cressida, o jornal deu o comentário do diretor, Jô Soares, de que as verdades mais cruas são ditas pelas classes baixas nas peças de Shakespeare.

“[…] percebemos que as verdades mais cruas, mais duras e mais irreverentes são colocadas na boca dos criados ou dos escravos […]”

Não importa muito que antes da citação o jornal tenha dado uma pista falsa, comentando o trabalho de tradução, com o “A língua, segundo Jô, também revela um olhar do autor sobre as diferenças de classes”. O leitor atento sabe que há mais nessa percepção repetida por outros apreciadores de Shakespeare.

E esse mais não se esgota na ideia de máscara, de que Shakespeare ou qualquer dramaturgo emprega máscaras para poder dizer ao público o que é mais duro.

Penso que seja espelho e não máscara.

O dramaturgo emprega as classes baixas para dizer as verdades mais cruas como as pessoas de poder, força ou prestígio empregam as vidas em volta.

É só uma lição de realpolitik, mas que parece cínica porque meu tempo não aceita que uma avó ou um bebê sejam instrumentos ou que o pobre vai continuar comendo merda enquanto não detiver poder. (Direitos e deveres são ficção, ainda que legal. A falta de poder é real.)

Poder, força e prestígio são meios para usar os outros como ferramentas. Nada de novo nisso. Também não é novidade indicar que a plateia participa do jogo. O cruel é a sugestão de que isso se estende ao poder do artista.

A ideia de redenção mundana possível, por mais que Caetano Veloso ou Yeats digam que “a arte não salva ninguém”, é um motor de esperanças sociais. E social aqui não quer dizer falta de banho e de inteligência, mas um conhecimento de como lidar com o poder.

Esse motor alimenta o ideal de que, mesmo que toda arte com algum engajamento tenha até hoje se mostrado falsa, pequena ou torpe, no sentido de servir mais à classe do artista que à classe que ele imagina proteger dos poderes que nos governam, talvez seja possível produzir a arte que funcione, que liberte.

Shakespeare diz que não.

O poder da arte não vem de nenhuma libertação. O efeito estético que é a arte espelha a instrumentalização de vidas e é subproduto dessa instrumentalização.

A consciência que a arte traz não é libertadora, a não ser como fruição, a consciência que a arte traz é dos limites e da prisão.

Vou tirar os dois pontos de exclamação do Longfellow, já que ele está em domínio público:

“Life is real. Life is earnest.”