O túmulo da família, em Aliança, distrito de Mirdandópolis, noroeste do estado de SP.

Uma Páscoa muito louca

Prolegômenos a toda…

Mistério e perda há na Páscoa desde muito.

Para ficar no recente, crianças ainda experimentam o distanciamento semelhante ao do Natal enquanto crescem e vivem os dias de Páscoa nas famílias que comemoram o dia.

Há a alegria e o ganho, que também se esvai com a criança que jogamos fora ou que nos jogam fora com a proverbial água da bacia, nem sempre apenas batismal.

A esperança humana é frágil e logo mais tem a musiquinha do Fantástico e no dia seguinte volta a escola.

Vai o ser humano na corrida para voltar a ser criança. E sem saber. E a tentar sentir de novo as sensações da criança, e sem saber.

A Páscoa de 2017 foi diferente, mais diferente, das anteriores. Como nasci em primeiro de Abril, a Páscoa sempre foi companheira, às vezes próxima demais.

A deste ano foi muito louca porque enquanto meio mundo, ou nem mais isso, celebrava a ressurreição do Cristo, minha família velava e enterrava o irmão do meu pai.

Mais infância

Eram 3 homens e 3 mulheres, no tempo de antes da TV, e meu pai é o último homem vivo e o mais novo dos meninos. As irmãs mais velhas e a caçula, que passou dos 70, vivem.

Meu e seus irmãos nasceram em Aliança, uma colônia de imigrantes japoneses nos arredores de Mirandópolis, na Noroeste do estado de SP, ali depois de Araçatuba. A comunidade Yuba, conhecida pelo balé Yuba, nasceu ali perto. Meu avô foi amigo do senhor Yuba, o fundador da comunidade.

Aliança é dividida em três grupos, Primeira, Segunda e Terceira Aliança. Foi uma das primeiras colônias de imigrantes japoneses que vieram para cá como proprietários de terra.

Meus avós decidiram que a família se esforçaria para mandar os caçulas para a faculdade, para terem melhor condições de viver fora da colônia. E os outros irmãos viveriam da terra, protegidos e integrados como era possível, naqueles anos 30 que conhecemos dos livros de História e da memória que nos foi confiada de quem viveu naquele tempo.

Todas as tias deixaram Aliança.

A mais velha, viúva, vive em Osasco.

A segunda vive no Japão e foi discípula de primeiro momento da macrobiótica e nessa onda continua. Eu me lembro de que ela reclamava de doces, roubava balas dos meus primos para esconder ou jogar fora e dava cambalhotas no tapete da sala da casa de meus pais. Acho que queria demonstrar a vitalidade dos adeptos da macrobiótica e conseguiu me mostrar o medo da loucura. Meu pai seguiu a macrobiótica quando jovem, ao longo da faculdade, mas a trocou por picanha, como tantos jovens dos anos 60.

A última, caçula em relação a todos, formou-se em medicina. E vive em Atibaia.

No sítio de Mirandópolis vivam meus dois tios. Um morreu aos atrás. Morreu também a esposa. E anteontem morreu o outro. Deixou a esposa, dois filhos e uma filha, todos mais velhos que eu.

Diagnóstico e morte

Meus pais viajavam quando minha tia da Atibaia avisou minha irmã de que meu tio estava doente. Esteve internado. E parecia mal.

Não sabemos desde quando surgiram os sintomas, mas no último mês eles se agravaram e meu tio foi para o hospital e recebeu o diagnóstico.

Semana seguinte, soube pela minha tia qual era o diagnóstico. E que os médicos não tinham esperança nem tratamento.

Por fim, quando meus pais voltaram de viagem, ficamos sabendo que meu tio seria liberado do hospital para ir para casa.

Ele acabou voltando para o hospital porque não se alimentava. Dormia muito. E já não falava. Mesmo antes no hospital já não comia nem as frutas de que mais gostava.

Minha tia de Atibaia tinha conseguido visitar meu tio no hospital. Meus pais voltaram de viagem e também conseguiram visitar meu tio, que já estava no sítio em Aliança.

Fui passar a Páscoa na minha cidade natal e no sábado de aleluia recebemos a notícia. Em vez de ressurreição, teríamos um domingo de Páscoa de velório e enterro.

Não via meu tio havia quase duas décadas, talvez mais.

Meu pai ficou amuado, emocionado. Mas já era esperado. Meu tio estava sofrendo. O resultado parecia um alívio.

Domingo de Páscoa no Kaikan de Aliança

Acordamos cedo e depois do café corremos os cento e poucos quilômetros que separam minha cidade da colônia de Aliança.

Ficamos sabendo que minha tia viria para o enterro. E tentaria chegar para o velório. Desceria em Araçatuba e seguiria de carona.

O velório seria no Kaikan de Aliança, onde haviam sido velados meu avô, minha avó e meu outro tio.

Kaikan são os centros culturais que os imigrantes montaram no Brasil. Costumam ter cozinha imensa, para trabalhos comunitários, salão de reunião e, quase sempre no mesmo salão, um palco para eventos. Quando o palco não está sendo usado, as cortinas do palco costumam estar cerradas. E a área em volta do prédio abriga de jardins japoneses a campos de gateball e descampados que servem de estacionamento e diversão para crianças improvisarem campos de futebol. Vários kaikans alugam suas sedes para eventos de fora da colônia, mesmo para quem não é associado.

Graças à duplicação da Marechal Rondon, duplicação que levou mais de década, temos grandes retões desde o acesso da Castelo Branco até a divisa do estado. E o Sem Parar garante mais sossego nos pedágios. As pistas acompanham o relevo de morros, e cada depressão tem um rio, córrego ou área parcialmente alagada. E pontes pequenas, discretas.

E antes do esperado estávamos no Kaikan de Aliança. Minha mãe ao volante, meu pai e eu. Minha tia e dois primos estavam lá, sentados na primeira fileira de cadeiras de metal, a metros do pedestal com o caixão do meu tio. E logo apareceu um vizinho do sítio e um amigo da família. E muito tempo depois foram aparecendo outras pessoas.

Só lembramos de nos dar Boa Páscoa no carro, quase no meio da viagem.

Almoço, espera, cerimônia e espera

Parei aqui. E não tive ânimo para avançar ainda.

O luto segue cada vez mais ameno.

E logo publico outra parte.

(Continua. Etc.)