Mary-Steenburgen fazendo arte para a TV.

E perguntam o que é arte sem a menor vergonha de não perguntar o que é artista

Marcelo Ferlin
Jul 24, 2017 · 5 min read

Difícil para mim não rir de adulto a fazer pergunta de criança.

Ainda mais quando a pergunta leva alguma afirmação, como “Blog é literatura?”, seguida de vários especialistas que o jornal mandou recolher na esquina.

Mas a pergunta iluminada de hoje passa pela ubíqua “O que é arte?”.

Para quem precisa pensar com pedigree, ou seja, só consegue pensar com uma bibliografia (name-dropping) à mão, recomendo Voegelin: ele demonstra que já em Platão os conceitos são sempre pares, se tem filosofo tem filodoxo. Temos 25 séculos de filósofos sem filodoxos, podemos calcular quanta empulhação, enganação e equívocos temos.

A pergunta “O que é arte?” só faz sentido se você perguntar também “O que é artista?”.

O fato de “O que é artista?” praticamente não ocorrer ou só aparecer quando os adultos eram de fato crianças, lá com a professorinha na sala de aula, indica o grau de manipulação e emburrecimento a que estamos submetidos.

Perguntar o que é arte serve para se criar uma reserva de mercado da empulhação: especialistas debaterão, na esperança de que o público pegue a deixa e entre nesse debate.

E logo surgirão os cercadinhos, cada um vendendo uma noção de o que arte é, e com isso teremos público para todo tipo de produto, todo tipo de empulhação. E com a vantagem de que a própria população vai buscar uma forma de validar sua posição a respeito do que é arte, como se precisasse, como se fizesse sentido.

Não perguntar o que é artista serve para manter a tal baguncinha gostosa, o vale-tudo da discussão sem foco nem fim.

A noção de que artista é uma palavra pretensiosa faz parte parte do pacote.

Como uma palavra, ainda mais sem qualificador nem quantificador em volta dela, pode soar pretensiosa?

“Ah, então você é artista? Ui, ui, ui. Temos um artista aqui, pessoal. Abram alas para o artista.”

Sim, embora substantivo, artista tem virado adjetivo ou advérbio, e por isso soa pretensioso e por isso pode circular sem qualificador nem quantificador.

“Eu sou Chevy Chase e você não é” surge na cabeça da pessoa diante de alguém apresentado ou que se apresentou como artista. Ou, no Brasil, como “artista”.

O fundamental do analfabetismo: mesmo gente que em tese lê e escreve carrega o mau uso das aspas e dos pontos de exclamação, não raro duplicados ou triplicados.

Já a forçação do idioma, como escrever com x com a pretensão de indeterminar o sexo da palavra, indica mais que analfabetismo, a completa não confiança nos próprios poderes de comunicação.

Voltando ao que importa, o que é artista?

Felizmente, ninguém está me pagando para responder essa, então posso mentir à vontade e torcer pelo melhor.

Tivesse de recorrer à lembrança do que meus professores disseram, o artista seria alguém que procura uma solução estética para uma questão expressiva.

Tivesse de levar a sério meus amigos que criam e produzem inclusive arte, teria um arremedo de respostas na direção de que o artista faz o que só ele consegue fazer, ele não tem pares nem pessoas com quem conversar, porque está sozinho, porque para o artista todo mundo nunca passa de público, mesmo que atravesse a vida sem encontrar seu público.

E tem mais, porque tenho vários amigos artistas: alguém que quando muito tem parceiros ou competidores, o resto não passa de público, e público não conversa, e o artista só conversa por meio da arte que produz.

Ou seja, o artista é uma viadagem existencial do caralho.

Mas em vez de vestir preto e ficar bebendo no cantinho, o artista produz cooousas, cooousas que ele até pode vender. E muitos vendem ou dão de graça, talvez porque, e aqui entra a visão dos meus professores, o artista não encontrou ainda a solução, então sabe que o público não entenderia mesmo se fosse capaz de falar a linguagem do artista.

Toda essa lenga-lenga ajuda a explicar o outro ponto da pergunta, a falta de respostas. Se não temos gente se perguntando o que é artista, por que não aparecem artistas para explicar o que são?

Nas regras da boa escrita, eu deveria fazer referência ao set-up da piada e dizer que eles não aparecem porque podem estar ali no canto bebendo. Mas suspeito que não sabem, o que faz parte da personagem: o artista está num caminho solitário, como se fiz que os escritores são solitários.

Eu escrevo e posso dizer que isso aí é meio mentira. Na verdade, as pessoas são chatas e imbecis, cuidado, melhor ficar sozinho, até no bar. O artista seria alguém que sabe como as pessoas deveriam ser evitadas e não esconde isso, mas tenta até ganhar a vida com essa sabedoria prática.

Mas minha opinião não conta.

Peter Hujar’s Fran Lebowitz [at home in Morristown], 1974. (Fonte: https://brockelpress.com/2014/08/29/fran-lebowitz-young-stunning/.)

Importa a ideia de solidão, outra palavra cheia de fumos de pretensão. Estar num caminho que só você trilha quando tem algo a dizer, algo que só você dirá por você, se descobrir como.

Tanto set-up, nenhum punchline.

Mas alguém consegue ler as respostas acima sem “Ah, então você é artista? Ui, ui, ui. Temos um artista aqui, pessoal. Abram alas para o artista”?

Eu não consigo.

Aquele adendo: há uma aparente profilaxia no sumiço da imagem do artista. Aparente porque o fato de artistas serem imbecis completos, como demonstra a opinião emitida pelos artistas até mesmo a respeito dos estritos limites de seus meios e obras, existe a impressão de que quanto menos se ouvir do artista, mais limpo será o ar que respiramos. Vai na mesma leva a condenação de intelectuais, advogados jornalistas, donos de circo com animais e vloggers. O argumento faz sentido, os exemplos são irrefutáveis e, no entanto, prefiro ouvir a opinião de um Cellini nem que seja a respeito do próprio umbigo. Ainda assim, artistas a falar de política, grande e tenebroso teste de paciência.

Marcelo Ferlin

Written by

A parte KitKat deste latifúndio.

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