Freddy Krueger de vassoura seria a hegemonia?

WTF é hegemonia?

Hegemonia quer dizer a capacidade de dar o contexto em um debate. Sério.
(Quando você mantém a mesma opinião sobre um assunto e vê essa opinião ser vista como neutra, moderada ou radical ao longo do tempo, você está testemunhando o que a hegemonia faz: ela alterou o contexto do debate sem que você tenha alterado a sua opinião.)

A palavra hegemonia veio das ciências sociais e, nas últimas décadas, duas são as fontes principais: quem estudou Gramsci, grande teórico do conceito de hegemonia, e quem andou lendo Olavo de Carvalho, histriônico denunciador de quem no Brasil andou lendo Gramsci para pôr em prática.

A ideia de hegemonia parece natural para quem olha o debate público como se fosse a sala de aula.

Hegemonia na sala de aula

Na sala de aula há vozes naturais que são ouvidas por grupos, pela maioria e pelos professores.

Não são porta-vozes oficiais nem informais, apenas são ouvidos quando decidem se expressar. Essas vozes compõem a hegemonia, toda questão é filtrada pela participação dessas vozes e o contexto do que e de como será debatido vem desse filtro.

Quando o professor abre uma sugestão, como “Onde vocês querem estudar?”, as possibilidades são muitas. As vozes logo levantam algumas possibilidades, como o bar, em casa, na biblioteca, na sala mesmo, na casa da mãe do professor. A diferença entre as possibilidades totais e aquelas que foram levantadas pelas vozes, as que acabarão sendo votadas, é um dos resultados da hegemonia.

A hegemonia não é uma representação da maioria nem de maiorias, mas uma representação que se apresenta como voz da maioria ou vozes de maiorias.

No entanto, essas vozes podem ser alinhadas, podem ser neutralizadas e também podem tomar consciência de sua situação. E podem ser substituídas. É possível construir uma hegemonia.

Dois outros conceitos que aprendemos na escola: agitação e terror

Diante das vozes de sempre na sala de aula, algumas crianças decidem que também querem ser ouvidas ou que outras vozes devem ser ouvidas. Uma tentativa de ser ouvido é conseguir gritar mais alto ou fazer bagunça até que desperte a atenção e seja ouvido.

O agitador é aquele que pretende gritar alto ou tumultuar a sala de aula até ser ouvido por seus pares, pelas vozes hegemônicas ou pelas autoridades, como o professor e o diretor.

E o terrorismo é uma forma bem específica de agitação.

Aterrorizar é o que bandidos, pessoas malvadas e poderosos sempre fizeram, mas quase sempre com objetivos imediatos. Mas o terrorismo só surgiu depois que as monarquias absolutistas se consolidaram em Estados. O Estado é a representação de uma entidade que responde por toda uma sociedade. E o que caracteriza o terror é que ele é dirigido a essa entidade.

O terror quer ser ouvido pelos detentores do poder ou quer arrebanhar pessoas para essa causa ou quer forçar a sociedade a pressionar os detentores do poder para aparecer e ouvir os terroristas.

É isso que diferencia a reação das autoridades diante de crimes contra o cidadão e de crimes contra outras autoridades. Quando o bandido aterroriza a população, a polícia aparece e faz o teatro de sempre. Quando o bandido mata um policial, a polícia revida com um teatro especial, com truculência, porque é como se esse ato fosse um ato terrorista, uma quebra no jogo normal da sociedade.

É preciso apresentar tanto a agitação como o terrorismo porque são dois termos recentes, como hegemonia, e os três são contrapontos uns dos outros.

Para ser ouvido em sala de aula, o aluno sabe que precisa gritar mais alto que a classe, ou seja, precisa ser um agitador. E para ser ouvido em menor tempo e com mais urgência, o aluno sabe que uma explosão pode resolver, ou seja, um ato de terror. Gritar e explodir são atos que liberam muita energia, nem sempre com resultados esperados.

Já a luta pela hegemonia é uma forma de agitação que evita o desperdício de energia e evita a violência aberta da agitação dos militantes radicais e a explosão dos terroristas.

O que a hegemonia faz no debate público

Por séculos, no debate público, a opinião pública foi modulada pelos jornais. Na escola aprendemos que o jornalista tenta responder o quê, quando, onde, como e até o porquê.

De tudo o que é assunto possível, urgente, presente a todos e com causas ou desdobramentos que gostaríamos de saber, alguém seleciona o que informar, quando informar, onde informar, como informar e até por que informar.

Nos meios de comunicação, dos quais o jornal é o maior exemplo, a hegemonia é a aparência de normalidade ou de naturalidade com que alguns fatos são dados como acontecimentos e o modo como eles são contados para o público.

Todo mundo tem a sua quota de casos de notícias imprecisas, erradas, mentirosas ou pelo menos estranhas. E pode se perguntar: se essas notícias eu estranhei porque conheço o contexto delas, quantas outras eu não estranhei e que soariam tão estranhas ou imprecisas se eu conhecesse o contexto delas? E quanto do contexto nós conhecemos porque os absorvemos do próprio jornal? E o que acontece no longo prazo ao ler e aceitar essas notícias?

Podemos pensar no oposto. Quando surgem vozes de fora da hegemonia, os próprios jornais não são rápidos o suficiente para enquadrá-las, e daí temos situações como a dos protestos de 2013 e a dos protestos de 2015: movimentos populares que os políticos não conseguem compreender nem atender e os jornais demoram a captar, enquadrar e traduzir para os leitores.

Hegemonia no debate público é a capacidade de definir o centro

O exemplo principal do controle ou da criação da hegemonia no debate público é a definição do centro numa questão.

No exemplo do professor que perguntou onde os alunos querem estudar, se você define onde está o centro, as opções podem ser distribuídas e votadas conforme uma aparência de razoabilidade.

Se o professor trocar o debate para o uso da pimenta na merenda, o centro inicial da questão é entre botar ou não botar pimenta na comida.

Se as pessoas que querem que todo mundo bote pimenta na comida decidirem agir, elas apresentarão esta situação: não usar pimenta, usar uma pimenta fraquinha, usar pouca, usar uma pimenta forte, usar muito uma pimenta forte. Com isso o não usar pimenta e o usar muita pimenta forte acabam sendo os extremos, os radicais, e o centro da questão se tornar é usar pouca, mas usar.

Esse tipo de recurso acontece no debate público quando vozes se levantam para falar de diversidade. Quase sempre, essa diversidade é uma forma de incluir gradações na direção de uma questão a ser tornada hegemônica, e quase nunca essa diversidade quer dizer uma real representatividade de todas as diversidades existentes.

Parece mais eficiente, como estratégia de médio e longo prazo, que fazer arruaça ou soltar bomba e sequestrar e matar reféns.

Muita gente que manteve uma opinião firme e neutra sobre algum assunto, com o passar do tempo vai vendo sua opinião ser vista como moderada e até como radical, pendendo para este ou aquele lado da questão. Ela não mudou de opinião, mas o centro do debate foi alterado pela hegemonia.

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