O Direito de Ser Anormal

O que você acha disso ou daquilo? Pouco me importa! O interessante em tudo é que as coisas nem sempre são exatamente do jeito que parecem. Aliás, isso quase nunca acontece, o que não deixa de ser normal. Ou melhor, comum. Porque a acepção que damos à palavra normal não deveria nem existir, já que, na prática, não existem pessoas normais.

O que existe na verdade são padrões de comportamentos para a boa convivência em nível social que costumam ser seguidos para se conquistar a desejada aceitação. Esse é senso comum — que geralmente é bem diferente de bom senso — mas nada disso significa que, no âmago dos seus seres, as pessoas mantenham esse mesmo padrão aceito socialmente nos seus próprios pensamentos ou nos seus anseios mais íntimos.
 
 Afinal de contas, o que é ser normal? Fazer tudo como diz uma certa regra que não sei quem disse que é correto sem precisar nem questionar a real motivação ou intenção de tudo isso?
 
 Não. Isso não é ser normal. É simplesmente ser escravo de um tirano que nem se sabe direito quem é. E o pior: ele vive dentro de você.
 
 O senso comum — olha ele aí de novo — diz que normal é o oposto de louco. Nesse caso, normal seria o mesmo que são. Só que ser normal, dentro dos parâmetros da nossa sociedade superficial e hipócrita, é negar os mais profundos instintos da natureza humana, que levam as pessoas a essa infindável sensação de incompletude, de desnorteio, de indecisão e, o que tem ficado cada vez mais corriqueiro nos dias atuais, odiar tudo o que é diverso ou diferente, tornando quem não partilha da mesma opinião um inimigo mortal.

Mas e aí? Ser normal é ser são? Prefiro pensar que se permitir certas loucuras é o passe livre para a verdadeira sanidade. Porém, essa palavra acaba virando uma grande limitação. É só analisar a complexidade da realidade. Se hoje em dia é cada vez mais impossível separar o que é certo do que é errado, imagine então assinalar o que é normal.
 
 Por isso, todos os dias depois que acordar, olhe-se no espelho e, com um sorriso de orelha a orelha, brade bem forte: “Eu sou anormal!” Por mais que sua vizinha de 84 anos faça o sinal da cruz e diga “deus me livre e guarde” ao ouvir seu grito às 7 da matina, você vai começar a se livrar desses pré-conceitos que aprisionaram a mente dessa sua mesma vizinha, fazendo-a achar tudo que é novo, diferente e fora dos padrões é simplesmente “horrrrrrível” (a acentuação do ‘r’ é uma necessidade no linguajar geriátrico).
 
 Está na hora de quebrar os velhos paradigmas. Está na hora de reconhecer o ponto de mutação e ser verdadeiramente livre. 
 
 Mas que diabos ser livre realmente quer dizer?
 
 Livre não é aquele que se enquadra a todas as normas impostas pela sociedade. Livre é aquele que sabe conviver com tudo isso, caminhando harmoniosamente entre os dois extremos sem vê-los como opostos, mas como partes complementares da mesma coisa, e ainda ter plena consciência da sua individualidade. 
 
 Ainda estamos andando aos trupicões em busca desse objetivo, mas como diria o velho lobo Zagallo em todas as entrevistas das Copas de 94, “nós vamos chegar lá”.

(texto de 2007 devidamente repaginado para os dias atuais)

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