Paranoias Psicóticas: A Tragédia do Pão Com Manteiga

Pegue um pão. Depois, o pote de manteiga. Para cortar o pão, você vai precisar de uma faca. E para passar a manteiga no pão, será necessário um outro tipo de faca.

Com o pão com manteiga pronto, o que você faz? Com certeza come. Ou então dá para alguém comer.

E o que sobra? Duas facas.

Todavia, o resultado dessa matemática não é tão simples assim. Duas facas ali, dando sopa em cima da pia, nas mais paranóicas mentes, são dois assassinatos em potencial.

Imagine você, dona-de-casa, fazendo o lanchinho para o seu filho levar pra escola. Pense também no seu fofuchinho assistindo a um desenho tipo Comichão e Coçadinha, aquele mesmo do gato e do rato que se matam violentamente e que o Bart Simpson adora.

O palco para uma grande tragédia familiar está montado.

Minha senhora, imagina que coisa. Você, na mais pura inocência de um doce coração materno, pega o pão com manteiga e vai até o quarto do pequerrucho buscar a lancheirinha dele. Nesse momento, chega a mais perigosa armadilha da programação infantil da televisão: o intervalo comercial.

Entediado com o “quer pagar quanto?” daquele imbecil das casas bahia, quando mamãe sai da cozinha, filhotinho vai até lá. Vê as facas livres, leves e soltas em cima da pia. No mesmo momento, vem o flashback do desenho violento.

Sabe aquelas mães desesperadas dos Estados Unidos, tão escandalosas que fazem uma criança de 2 anos ser presa por assédio sexual?

Pois então. Bem em tom macabro e doentio, típico daqueles filmes B de terror em que crianças em transe matam todo mundo, a primeira coisa que viria à cabeça do meninote seria a associação: “Hummm, sangue engraçado! Dor divertido!”

Então o menininho vai até a pia e pega as duas facas.

Exatamente na mesma hora, a pobre e indefesa mãezinha vai caminhando alegremete do quarto da criança em direção à cozinha, com a lancheira equipada a tiracolo, pensando: “Será que o tchutchuco vai gostar do lanchinho que mamãezinha preparou com tanto carinho?”

Enfim, a pobre figura materna entra na cozinha. Dá até pra ouvir a trilha do Psicose, obra-prima de Hitchcock, na famosa cena da morte no chuveiro. E não é de se espantar, pois logo escuta-se um grito aterrorizante da pobre mãe, que ecoa por toda a vizinhança.

Além do grito, a vizinhança ainda consegue escutar o filho, com imensa dor na consciência, chorar copiosa e desesperadamente: “Desculpa, mãe! Eu não sabia! Eu não sabia! Foi sem querer!”

Surpreendentemente, a mãe responde esbravejando: “Geraldinho, meu filho! Eu falei que não é pra guardar na gaveta de baixo! As facas ficam na gaveta de cima!”

E dá-lhe beliscão no coitado do moleque.

(texto de 2005, devidamente reeditado agora, mas sem mexer muito)