Quanto custa acreditar no amanhã?

Marcelo Martins
Sep 4, 2018 · 3 min read

São choros e mazelas, invernos e favelas.

O meu tempo é cruel e a esperança caminha a passos lentos. Entre todas as dores que convivem no meu existir, o jardim demora ainda mais a revelar as flores.

E eu que não tenho tempo ou experiência, espero só o amor chegar. E ele chega, mas logo precisa sair. Afinal, tempo é dinheiro e não dá pra desperdiçá-lo com besteiras.

Decido então por qual caminho seguir. A decisão não é óbvia e a estrada está cada vez mais comprida. Estudo um novo atalho e refaço o meu antigo mapa.

Desisto da velha ideia de mudar o mundo, pois o amanhã chega logo e a minha força já está quase no final.

Esperar custa caro e as quedas me fazem querer parar. Em definitivo.

Quantos fracassados tiveram que morrer para que um único sobrevivente chegasse ao seu sucesso? Quantas esperanças eu tive que entregar pra ter o que tenho hoje?

Olho então para a sacola e percebo que a troca não foi justa. O capital que me compra não consegue entender qual é a minha identidade. Não há conexão. Não há equivalência.

Não é justo comigo, com o tempo e com o mundo que carrego no peito.

Como já disse, o tempo é curto e nós não podemos perdê-lo com utopias vencidas. Pague-me o meu preço e siga o seu roteiro. O amanhã vai chegar mesmo que você não o deseje.

Entro no cômodo que desagrada o meu existir, desfaço as malas e livro-me do peso das minhas lembranças. Elas já não merecem permanecer comigo.

O brilho nos olhos das pessoas que encontro pelo meu caminho é ofuscado pela necessidade do duro caminhar. Os dias são longos, mas o tempo é mesmo pouco. Insuficiente para traduzir em apenas palavras tudo o que sinto.

Insisto na esperança. Ela me está sempre a cabeça quando os afetos deixam a desejar. Preciso então de uma nova estrada. Uma nova estrada que consiga compreender as minhas desilusões e avançar pelas fronteiras do meu existir. Falta pouco, mas eu ainda estou por aqui.

Prometo que o dia de hoje não durará para sempre. E mesmo se o pra sempre durar apenas uma ou duas horas, esse lapso de esperança continuará a palpitar as suas melodias de lutar em meu peito.

Mas até quando resistiremos? Quanto custa acreditar no amanhã?

Prefiro deixar a resposta para outro dia e partilhar alguns dos meus desajustados sonhos com alguém que queira ouvir as minhas loucuras. Afinal de contas, nutrir as esperanças que carregamos sempre valerá mais a pena do que lutar contra as invencíveis forças do sucesso almejado.

Portanto, por você que perde o seu tempo para desfrutar dessas estranhas palavras soltas ao vento e por mim que decido falar daquilo que me faz querer continuar, eu peço perdão. Perdão por insistir em histórias que já deveriam estar superadas e vendidas no leilão da realização. Perdão por ainda buscar sentido nas desesperadas voltas do destino.

Mas é que manter acesa a luz da esperança nos tempos atuais já é algo intensamente revolucionário. O dia a dia nos pede apatia, remorsos e subjugação. E quando o negamos a intromissão, nos fazemos fortes, resistentes e necessários.

As resistentes flores do amanhã.

Marcelo Martins

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