Amy — Um documentário sobre nós mesmos

A grande sacada do documentário “Amy” (2015), dirigido por Asif Kapadia e recém premiado no Oscar 2016, não é puramente o uso exclusivo de imagens de arquivo para ilustrar os vários depoimentos que nos são apresentados durante o filme, mas o momento em que o diretor volta sua atenção ao público e tece uma crítica comportamental sobre como fomos cúmplices da trágica morte da cantora.
Pensei muito a respeito logo depois do filme acabar. Lembro vagamente de acompanhar os “escândalos” e piadas envolvendo Amy Winehouse porque, bem, aquilo estava em todos os lugares, não havia como escapar. É engraçado como demoramos tanto tempo para perceber a ironia de toda aquela situação: ela perdia cada vez mais o controle sobre a própria vida por conta da fama devastadora — fama esta que não desejava — e nós a julgávamos por estar naquela situação.
É claro que se soubéssemos o que a cantora estava passando na época provavelmente não estimularíamos os paparazzis, as revistas e os programas de fofoca. Mas, no fim, não sabíamos. Acompanhávamos cada respirar da cantora, mas não sabíamos absolutamente nada sobre a sua vida.
Mas gostaríamos de saber? Se os tabloides deixassem as fotos de traição, vexames em público e eventos glamurosos de lado e compartilhassem apenas a vida privada desses artistas, suas preocupações diárias, seus posicionamentos políticos, seus sonhos, memórias e valores, teríamos interesse? Ver Leonardo DiCaprio vencer o Oscar não foi mais interessante do que ouvir o que ele tinha a dizer em seu discurso? –político, em defesa do meio ambiente.
Olhamos para as figuras públicas de forma desumanizada para evitar um sentimento de culpa por explorá-los a todo custo em nome do entretenimento. São como estrelas de um filme pornô. O que nos faz crer que somos menos desumanos, se é o nosso olhar que diminui o valor do outro?
De repente a dinâmica se inverte e é a nossa vida que é vazia, dominada pelo vício e atitudes impensadas. Falta o colocar-se no lugar do outro e o olhar para dentro de si mesmo. Como Amy deixou claro, fofocas não nos fazem conhecer melhor um artista, mas provavelmente pode trazer alguma reflexão sobre quem você é.