<NOME DA EMPRESA> GRI S06

Olá. Meu nome é Marco Antonio e vou contar a você um pouco sobre o meu trabalho.

Mas antes, queria que você prestasse atenção a dois grupos de três caracteres:

GRI S06.

Prestaram? OK. Mais sobre eles adiante.

Sou jornalista profissional desde 1996. Passei os primeiros 14 anos de minha carreira em redações de jornais diários, revistas e websites. Desde 2010, trabalho com comunicação corporativa, em agências especializadas ou de forma freelance. A partir de 2012, eu comecei a me debruçar sobre um tipo muito, muito específico de conteúdo corporativo: relatórios produzidos sob as diretrizes da Global Reporting Initiative (GRI), uma organização não-governamental que instituiu — meio arbitrariamente, mas vá lá — um padrão universalmente aceito para relato de desempenho corporativo, abrangendo aspectos financeiros, sociais e ambientais. As diretrizes GRI permitem que empresas dos mais diversos portes e segmentos possam quantificar e comparar seus respectivos desempenhos em tópicos como gestão ambiental, indicadores financeiros, responsabilidade social, igualdade de gênero e etnia, boas práticas de governança, relacionamento com o(s) público(s) e uma grande variedade de outros pontos.

Você já tinha ouvido falar de GRI antes?

Se sim, parabéns! Se não, não precisa ter vergonha. O Brasil hoje é o terceiro país em número de relatórios GRI publicados e praticamente todas as grandes empresas nacionais publicam documentos anualmente segundo o formato. Mas pouca gente os lê. São, na maioria das vezes, volumosos calhamaços, entupidos de informações excessivamente detalhadas, tabelas herméticas e gráficos complexos. Parte do meu trabalho é tentar acabar com esses obstáculos, fazendo relatórios atraentes e concisos. Só que ainda trata-se de um conhecimento que (embora público) mantém-se restrito a poucos interessados: especialistas em sustentabilidade, analistas de investimento, o público interno de cada empresa e… jornalistas que se debruçam sobre as diretrizes GRI.

Depois de anos de experiência em jornalismo TRVE, com entrevistas e reportagens feitas para suscitar o interesse geral, é um tanto frustrante lidar com relatórios GRI, pois trata-se de material árido e que, invariavelmente, será lido por muito pouca gente. Não raro, questionei a validade do meu trabalho e busquei meios de fazer com que as pessoas valorizassem-no mais. Até que, afinal, em meio ao fuzuê político-ideológico que experimentamos, tive uma luz.

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Em observância ao Código de Conduta, não efetuamos contribuições financeiras a partidos políticos, instituições vinculadas ou candidatos a cargos públicos em nenhum país.

Eu sempre acreditei que um dos maiores, se não o maior, problema institucional do Brasil é a relação nebulosa entre o poder econômico privado e o estado (e seus representantes). A Operação Lava Jato chacoalhou a nação de forma irreversível ao expor uma nesga dessa relação marcada por corrupção ativa e passiva, tráfico de influência e sucessivas violações das boas práticas de governança e gestão. Acontece que tudo o que foi revelado é apenas isso, uma nesga — uma fração do que rola por debaixo dos panos desde que o Brasil é Brasil e desde que os empresários aprenderam que é possível botar o estado para funcionar a seu favor, molhando as mãos certas. Do outro lado do balcão, as mãos certas estendem-se, ávidas, entra partido e sai partido.

No epicentro do escândalo, encontram-se as doações de grandes empresas para partidos políticos. Só na eleição de 2014, essas mesmas companhias investigadas pela Lava Jato doaram R$ 277 milhões a 28 partidos. Apenas o PT levou R$ 47,3 milhões. Se olharmos o panorama geral das doações, o montante total de ultrapassou a casa do bilhão de reais só no último pleito. Por mais que os advogados e tesoureiros partidários repitam a cantilena de que “todas-as-doações-foram-legais-e-nossas-contas-de-campanha-foram-aprovadas”, é óbvio que essa dinheirama toda pode acabar tendo fins mais do que escusos. Acertos de caixinha, lavagem de recursos ilegais, mesadas, cala-bocas generalizados.

Tanto pensei nisso que, um dia, acendeu a lampadinha. A GRI usa uma série de indicadores padronizados para aferir como as empresas se portaram diante de tais e tais temas: desempenho social, desempenho econômico, desempenho financeiro. Entre a miríade de indicadores relativos ao segmento social, há um subgrupo (SO) que avalia o relacionamento da empresa com a sociedade. E entre os indicadores SO, existe um específico, o SO6, que é o que nos interessa agora.

Ao responder ao indicador GRI SO6, a empresa se compromete a declarar publicamente o valor que doou a partidos políticos e candidatos no ano de referência do relatório. Não há a obrigação de especificar para qual partido e/ou candidato, apenas o valor. Ainda assim, algumas companhias vão além do necessário e explicam tudo timtim por timtim.

Se a empresa não faz doações por força de alguma norma interna ou em cumprimento a alguma lei, basta explicar sucintamente. Tá valendo também.

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Aí é que a brincadeira começa a ficar divertida

Então, amigue, depois desse preâmbulo interminável, proponho uma dinâmica para encerrar a atividade (olha o papo corporativo!). Às vezes pode ser difícil quantificar o problema institucional que apresentei acima — a ingerência do poderio econômico sobre a gestão pública — mas a GRI serve justamente para quantificar e comparar parâmetros aparentemente intangíveis. Eis a proposta:

  1. Tire alguns momentos de seu dia.
  2. Vá ao site de buscas Google e digite na caixa de texto (sem aspas): “empresa GRI S06”, substituindo, naturalmente, a palavra “empresa” pela empresa que você deseja pesquisar. E não precisa se restringir a companhias brasileiras.

3. Se a empresa publica relatórios GRI, e como eu disse, boa parte das maiores companhias brasileiras o faz, vai surgir o link para a resposta ao indicador, ou seja, se a empresa fez doações a políticos e, em caso positivo, qual foi o valor.

Ao repetir essa busca algumas vezes, você vai começar a ter alguma noção de como o buraco é mais embaixo. Vai acumular argumentos para o debate sobre o financiamento público/privado de campanhas eleitorais, que ainda não foi encerrado. Terá uma ideia mais nítida das dimensões dos valores envolvidos, dos segmentos empresariais que doam mais sistematicamente e que empresas mantém normas internas que as proíbem de fazer doações. Entenderá por que algumas empresas são tratadas com tanta leniência pelo poder público, e outras são tratadas com leniência maior ainda. Enfim, vai ter mais informação, o que nunca é demais.

Espero ter contribuído. Obrigado.

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