Batidão das 7hrs!

“Já são 7hr, corre, levanta!”
[Giacomo Bagnara]

Mais um atraso para começar bem a semana, a primeira peça de roupa disponível na pilha ao lado da cama é a que será vista pelas ruas da cidade hoje cedo. Dá tempo pro café? Dá, mas só o café, quem se atrasa não tem direito ao pãozinho quente com manteiga, um gole fervendo rasga a garganta dando bom dia pro resto do corpo.

O cadarço ainda tá desamarrado, mas tenho que correr, o ônibus já tá chegando, se perder esse o próximo só dali 20min, vai dar tempo? Melhor não arriscar, sigo na corrida. Ainda consegui pegar uma bolacha meio mole por ter sido esquecida aberta no armario, 7:20 saio de casa , faltando 20 passos pro ponto, para minha infelicidade passam dois ônibus.

Os dois serviam para mim, uma ironia logo pela manhã, e agora? Vai dar tempo? Acredito que sim, algumas manhãs só são mais difíceis de aguentar, mas eles dizem que fortalece o caráter, só queria saber quem são eles por que aposto que nunca pegaram o busão lotado e também não perderam a hora do médico ou do trabalho.

Antes de parar pra respirar no ponto e aguardar o próximo ônibus vazio e em perfeitas condições, ainda preciso atravessar a rua que às 7 horas se torna um grande jogo de futebol, tá todo mundo atrasado, então relevo. Na calçada, uma gentil senhora se junta ao meu time logo após de me cumprimentar com um caloroso Bom dia, a chance aparece, o jogo começa, os diversos árbitros já apitaram o início da partida, eu e a Sra começamos a driblar os carros que não paravam de passar, nem na faixa, descobri que somos os verdadeiros astros mas ainda assim não tínhamos torcida e tampouco salário.

Tô aqui, mil grau às 7:25h da manhã de uma terça feira. Já no ponto, eu, a Sra e mais um tanto de gente, temos um objetivo em comum que é chegar no trampo tempo, mas queremos chegar vivos. O busão chega, um alivio que acaba assim que a porta abre, ele tá lotado, a pergunta agora é se cabe todo mundo ali dentro. Consigo um espaço, a Sra vem logo em seguida, a gente se espreme e pelo olhar nos consolamos por mais um dia de luta, mais um jogo bem jogado.

Todos os passageiros voltam a cantar, de um modo silencioso, daquele jeito que todos nós aprendemos com a vida adulta, aquela musica famosa nos tempos de escola “o motorista pode correr, a quinta série não tem medo de morrer”, de um modo ou de outro ele escuta, fica a bota no acelerador e o tempo voa. Lá dentro todo mundo sabe, olhar o relógio só atrasa mais, sigo na luta para me segurar mas também seguro meus colegas e eles me seguram. Tô chegando, separo um cigarro e o isqueiro. O ponto chegou.

Desço com cuidado e saio na corrida com os que já estão por ali, companheiros das manhãs geladas pela neblina. Subo o morro, cheguei a tempo, quando vou conferir a hora e o ponteiro não bateu 8:30 ainda, 20 min de descanso.

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