Transbordar, verbo necessário

Retirado do pintrest, design por: Karina Abicalli

Transbordar: Sair das bordas, extravasar, derramar-se, espalhar-se em torno.

Ultimamente eu ando muito apegada a esse verbo, que eu quase não escuto por aí, mas ainda assim, não sai da minha cabeça. Essa explicação do dicionário ajudou em alguma coisa, pudera, depois de tanto tempo reprimindo medos e sentimentos, é esperado que eles saiam pelas bordas, e causem um tsunami, tão forte quanto a onda de sensações que me afoga.

Parecia tudo lindo e resolvido no papel, mas saindo dessa visão literal, fui tentar procurar naqueles que me rondavam alguma pista da minha nova obsessão, e foi assim que percebi que na prática ela ganhava outro sentido. Na verdade, nós transbordamos aos poucos. Pequenas gotas de verdade que vão saindo dos nossos poros, tão discretas quanto as máscaras que usamos no dia a dia, mas com tal força, que quando percebemos, já inundamos todo o espaço com partes de nós.

São emoções que brilham pelos olhos, que aparecem nos livros que lemos, dentro daqueles trechos que casam tão perfeitamente com a nossa vida, que é como se tivéssemos sussurrado tudo no ouvido do autor, para que ele organizasse de forma poética e depois ainda ganhasse dinheiro em cima das nossas experiências. Maldito.

Transbordamos quando estamos tão cheios, que esquecemos todos os nossos medos de sermos vistos por inteiro e apenas deixamos rolar, liberamos as gargalhadas sinceras, deixamos as lágrimas pularem, falamos sem pensar em como vai acabar a frase, enxergamos o mar de vida dentro dos outros. Quando vivemos nossa existência mais natural.

Falar sobre aquilo que transborda na gente é falar sobre o que nos dá sentido para ficar aqui.

Eu ainda não sei porque eu fiz esse texto, ou aonde eu pretendo chegar com ele. Não tenho um grande embasamento filosófico para aprofundar com explicações grandiosas, e muito menos alguma certeza sobre a vida, para revelar no final, acho que esse texto é um pouco de tudo o que vem transbordando em mim, do que eu tenho percebido nos outros e vem me despertando interesse e da minha irritação por estar tão fissurada em um verbo — isso nunca aconteceu antes. Venho aqui, numa tentativa de organizar alguns pensamentos confusos sobre pequenas coisas que mexem comigo, e tudo aquilo que eu não consigo ver, mas está aqui, presente e pulsante, me tirando o sono e forçando a escrever um texto que eu não sei como vai terminar.

Uma hora todos os pensamentos confusos têm que ser deixados para trás, todos os sentimentos guardados saem, nem que seja por conta própria, e talvez por isso eu esteja tão fissurada nesse assunto, e na possibilidade de não conseguir mais segurar tudo aquilo que reverbera em mim. Porque uma hora vai transbordar, e abrir espaço para novos sentimentos e assim por diante, até não sentir mais nada.

Termino aqui um pouco mais leve de ter deixado livre essa inquietação, mesmo sentindo que ela ainda há de me acompanhar por um bom tempo. Transbordar não é fácil e nem sempre bonito, acredito ainda que com o tempo o processo não melhore. No mais, já que sinto que não terei controle sobre isso, caberá aos que me cercam decidir se vão naufragar ou navegar comigo.