Amor em espasmos
Discutimos mercado de trabalho e festa open-bar, mas eventualmente travamos conversa sobre sentir: amar é amor ou parceria?
Quem namora acha que sabe, quem já namorou, então, se diz vivido e experiente. Quem nunca, desacredita e diz, naquele misto de amor-próprio e autocompaixão: aprendi a ser feliz sozinho…
Uns não sabem brincar de ficar sem carinho, é melhor um xodó do que a vida bandida, ainda que o chamego seja cheio de defeitos e ainda que os amigos digam o tempo todo alguma coisa como “mas esses dois não tem nada a ver um com o outro”. Ainda há os amantes de um causo de uma-noite-só, de divertir-se contando os beijos e amassos com açúcar, mas sem afeto. E quem já sofreu muito, só afirma, sozinho: prefiro meu doce predileto.
Mas no fundo todo mundo é um pouquinho de tudo, e como a gente fala o tempo todo, maior sabedoria jovem que já existiu: tudo nessa vida são fases, como a lua (no mínimo, rende uma boa tatuagem).
Criadores de nostalgia, escolhemos um primeiro amor, é aquele que a gente escrevia cartinha e achava que, por volta dos 15 anos ou até longe disso, achava mesmo e de verdade que um dia ia virar casamento. E ai de quem pensar o contrário, vocês não entendem nada! Profundo, sincero, puro, eterno…. Palavras que não combinam com a rotina, não mesmo, nem com o rolê do fim de semana. E por isso achamos que elas são tão sisudas e tão sensatas, principalmente essa daqui: eterno.
Eterno enquanto etéreo. Era amor, mas não respondeu minha mensagem. Era amor, mas pegou eu, pegou meu número, pegou minha dignidade e depois desapareceu. Era amor, mas nunca mais vou ver de novo…. Ficou em outro país ou em outro estado de Espírito, Santo, talvez. Pelo menos o beijo entrou pra coleção, olha só: narração de mesa de bar, maior relíquia não há. Outra sabedoria, mais uma tatuagem: na vida, o que vale é ter história pra contar…
Amiga, a gente tem tanto assunto. Conexão psíquica, tesão intelectual. Coisa difícil, ou fácil, ainda mais quando os assuntos são: mercado de trabalho e festa open-bar. Achei que era transcendental, mas era cilada, vou ter que curar meu coração com um porre e também rebolando com uma letra de funk, que não me deixa esquecer como é que é bom ficar sozinha.
Crise dos dois anos, já que não temos mais idade pra tempestade maior. Agora e por aqui, morreu o fogo e a paixão. Aquele rapaz que passou do meu lado e piscou, não achei que ia mexer com o meu coração, nem que ia colocar borboletas no meu estômago. Será que pensamento é traição? Um amigo sábio diz: não se culpe, monogamia é anti-natural, ficar junto é questão de escolha.
Amor-livre? Ciúmes não deixa, mas qual amor que não é livre eu já não sei, imagino que tenha algo de errado no termo, talvez seja mera suposição. O poli é tão petulante, mesmo pra geração onde tudo flui e desconstrói. Abri o relacionamento: jeito doce de terminar ou medo escondido de se prender? Ou de se perder.
Amor de amigo e amor de amor, separamos toda hora pra não dar confusão. Beijo a gente mistura, mesmo, junto com bebida. Mas: foi só um beijo. Beijo dá nada, beijo não é amor, beijo a gente faz em amigo e amiga, sem mal e sem distinção. E na calada da noite, ele pensa: foi só um beijo. Orgulhosamente, relativizamos tudo até diluir em diversão. Virou verdade e não há quem diga o contrário, segurança emocional em primeiro lugar.
E aí, com os amigos e amores, a gente discute se amor existe mesmo ou se tudo não passa de carinho, de convivência, de mentes que se unem ou de almas gêmeas desencontradas. Se amor é um só ou se são vários, mas não poli: um de cada vez. Se é questão de gosto, destino, desatino ou suposição. E assim, enquanto isso, o tempo passa nas baladas, nos quartos, nas viagens, nos bares e nos cafés, no infinito do Whatsapp e também nos parques e praças, às vezes com cara de primeiro encontro, às vezes com cara de fim de festa. Um dia é ternura, outro dia é fascínio, de vez em quando o fogo vira só um brusco desinteresse. De vez em quando a indiferença vira paixão feroz.
E na constante peleja entre idas e vindas, ficar e ir embora, júbilos e frustrações… Acabamos meio assim, sem saber, se encerramos o desencontro com um selinho ou com um beijo na bochecha.
