Oi, Sumido!

Mariana Agati
Aug 27, 2017 · 5 min read

O meu vizinho da praia foi o primeiro a desaparecer. Era uma época em que se batia palma na frente do portão pra chamar e brincar, rapidinho as coisas combinavam: tudo que precisávamos fazer era voltar antes de escurecer ou esperar um dos adultos irem buscar, já que a gente era muito novo pra ter celular e o celular também era muito novo pra ter a gente. E todas as vezes que eu ia lá pra casa da minha avó na praia eu perguntava pros meus pais se o meu amigo estava lá, e todas as vezes que eu chegava ele não decepcionava e aparecia batendo as palmas tão desembaraçado e tão falante que eu nem precisava esperar muito: no máximo, a gente não escutava as palmas e ele resolvia tocando a campainha.

Fato consumado é que a gente brincava de montes até que ele sumiu e não voltou mais. Ele sumiu porque os pais dele venderam a casa e foram morar longe e ninguém se deu ao trabalho de me perguntar se era uma boa ideia! Foi num dia meio torto que a casa dele deixou de ser casa dele e virou só a casa do cachorro, agora só um cachorro bravo latia pra mim e eu era uma criança que não se dava com bichos domésticos (meus peixes morreram todos), eu me dava com pessoas, principalmente as que tinham a minha idade e que não eram da minha escola.

Foi nessa lembrança de data indefinida e concreta que a expectativa alegre de brincar virou uma solidão meio esquisita e imatura, um incômodo amargo que trouxe um pouco de medo e até orgulho machucado, mas que também floresceu de um jeito bonito e controverso e então fez nascer o tal do amor-próprio alguns anos mais tarde.

O meu vizinho da praia foi o primeiro a desaparecer, e dali pra cá foi sumiço atrás de sumiço. Não quero colocar a culpa em ninguém, mas alguns doeram tanto. A gente sabe ou sente desde o princípio, quando tem data de validade igual a sardinha da despensa; ou até menos, tipo o iogurte da geladeira. Porque tem hora que é preciso ir embora e ninguém pode impedir, e aí não há Skype que compense as lágrimas derrubadas no avião, pois enquanto não há teletransporte há saudade e enquanto há saudade há coisas impossíveis, também há morte declarada dos sentimentos por desuso, descaso, desacato ou falta de manutenção. E tudo isso gera: sumiço. É penoso e ninguém sabe muito bem como lidar, mas todo mundo finge que sabe e finge que é forte (menos aquele cara da música que disse “é impossível ser feliz sozinho”).

Mas também tem uns sumiços que tá bem e tanto faz, é engraçadinho de contar na roda e fica nisso: sumiu. Nunca mais falei com ele, nunca mais vi ele, nossa! Porque não eram pessoas tão importantes assim, a gente só não se deu conta na época porque é sempre bom colecionar pessoas e sempre bom contar histórias da juventude, somos tão vívidos e tão vividos. É uma cena quando você encontra eles sem querer na fila do supermercado ou mesmo na balada de sexta, e aí fica sem saber se corre pra dar um abraço, se espera o reconhecimento ou se brinca de esconde-esconde na multidão (ou no corredor dos produtos de limpeza), porque quer evitar aquelas conversas tão sonolentamente triviais e tão amaçarocadas de zumbido.

Tenho a impressão que acontecem também uns tipos de sumiço não-planejados de pessoas que somem por “a vida”. É a vida e é a vida simplesmente, é. Nem todos os planos combinam e nem todos caminhos se cruzam, mas nem toda descombinação é desprezo. Esse é o sumiço que permite achados e boas histórias: alguns amores moram nele. Hoje é sumiço, amanhã é reencontro, um poeta me contou que depois de amanhã ninguém sabe o que será.

Quero escrever sobre reencontros um dia, são mais felizes. Chegam às vezes em forma de mensagem direta no Instagram, às vezes em diálogos pretensiosos na academia ou na faculdade, às vezes disfarçados de dúvida sobre assuntos que você conhece muito bem e postou no Facebook. E aquele negócio que era autopromoção vira bonito e vira deixa: para os amigos de infância se reconectarem, para os conhecidos da escola se redescobrirem, para os ex-namorados se ressignificarem. Todos vieram do sumiço afinal, arrisco dizer que talvez em algum lugar o des-sumiço tenha até começado com a frase infame que virou chavão, aquela do “oi sumido, rs”, com o “rs” descarado assim mesmo! O importante é que deu certo.

Mas agora que o celular e nós não somos mais novos e estamos unidos é tudo tão diferente, não tenho mais vizinho desaparecido e os sumidos são incertos, é difícil falar em absolutas ausências quando todo mundo tem Facebook e ninguém tem campainha pra tocar. A gente às vezes até desativa a pessoa pra ela não aparecer mais na timeline, mas a curiosidade ferrenha obriga a gente a olhar o perfil de vez em quando, que confissão terrível. Somos traças um pouco descompassadas atrás de qualquer informação mundana, tão raro que é o bloqueio completo, acho que só vi num episódio de Black Mirror. Apagou mesmo?

O meu vizinho desaparecido só conseguiu desaparecer porque naquela época não existia SMS no nosso mundinho e nem Facebook no mundão, então ninguém tinha perfil e éramos apenas silhuetas. Se eu perguntar para a minha mãe acho que ela consegue recuperar outros detalhes da minha infância na praia com meu amigo, ou até mesmo desmentir minha versão (tenho certeza que exagerei), mas não sei se quero saber, não sei se isso importa e não sei onde ele está. No fundo acho que eu também desapareci tanto quanto ele: os sumidos somos nós. Desaparecemos, os dois um ao outro, ele não tem mais nome e eu não tenho mais tanta memória assim.

Não sei se fiquei triste com isso tudo ou se inventei a tristeza hoje, mas cultivo a teimosia de menina e o desaconchego nas desaparições, tudo tem dois lados e dizem que o importante é seguir o jogo. Não quero ser dramática, mas já sendo? A única coisa que restou dele foi uma foto nossa brincando com baldinhos no quintal que eu nem sei mais onde está. O que eu sei é que ele desapareceu tão bem que se um dia eu encontrar ele na rua eu vou olhar como quem olha um desconhecido e isso é engraçado, há mais jeitos de olhar para um desconhecido do que para um rosto familiar.

Acho que a campainha nunca mais tocou e até onde eu sei nós nunca mais nos vimos mesmo, offline e pra sempre preso na caixa de saída. Se nos vimos, desencontrados, foi por mero acaso e só os Céus conhecem a hora exata: seria uma piada interna entre os anjos e que ninguém na Terra deu risada. Porque ninguém na Terra desconfiou, porque eu e meu vizinho da praia nunca nos conectamos.

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