Divagações Abstratas. Conjunto poético.

Não sou poeta. Sou um monte de merda.

CHÃO

Por vezes o que falta é chão, pedaço de terra em que posso fixar meus pés, mas para que adiantam os pés, se o chão é áspero? A superfície é desnecessária, se supera-la é possível. Superar lá, lá onde tangível se torna infímio, onde os poros respiram livres, onde o sol emudece a batida


PÓS MODERNO

Somos hippies. Hippies do amor livre, da dispersão, do arbítrio tecnológico. Hippies dos acabelos alinhados e dos amuletos esotéricos e falsamente terapêuticos. Somos hippies da terapia freudiana, dos tênis de cano alto. Somos hippies de um pseudo culto ser, de um estimado Godard. De uma tropicália sub tropical, nórdica. Escondemos nossos olhos por detrás dos óculos de marca, dos vidros fumê dos carros sem carona, carroça. Amamos a natureza e amamos o trabalho escravo que adoça nossos irreverentes chips no café da manhã.


CARÊNCIA DE PUDOR

Não sei ir dormir sem cobertor, nem travesseiro. Mas se quiser, adormeço em qualquer canto, em qualquer chão frio de cimento e lotação proletária, Deve ser essa má condução do pudor. Ou essa carência de pudor. Essa essência crua e errante que se perde em si e se encontra no imaterial externo em que não há prerrogativa de ser imutável.


BETTA

A gente quer que o mundo caiba em si, mas ele se espreme, se contorce, bate nas arestas e se arranha. Maturidade e estabilidade física são coisas diferentes, que a gente descobre sozinho, que a gente descobre de repente. Só que toda estabilidade é vã, que se esvai e desfalece em grãos de areia. Grãos de lágrimas, que escorrem sobre a pele cor de terra. É bom chorar pra regar o solo, mas se chorar demais a gente se afoga. A gente não é peixe, mas vive em aquário de vida. E A gente sabota a si mesmo porque prevê o futuro de dentro do aquário.

Escritos entre 2012 e 2013 e publicados em Divagações Abstratas

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