Não Cabemos em formas

Me olhei no espelho, percebi que havia alguma coisa estranha ali. Não eram as olheiras, nem os roxos que apareceram na minha perna essa semana. Meu cabelo estava, como de costume, rebelde. Só que dessa vez ele secava com o vento quente que faz por esses lados do hemisfério. Eu estava encharcada, de volta da chuva. Eu vestia uma legging e uma camisa cinza. Definitivamente a última coisa que vestiria se não fosse um dia de manifestações pela cidade.

Difícil acreditar, mas cheguei em casa e, nessa olhada despretensiosa no espelho que fica em frente a minha cama, me achei linda. Pela primeira vez em muito tempo. Me achei maravilhosa. Não era porque eu estava mais magra, meu cabelo mais brilhante, minha pele mais macia. Não era porque eu havia me enquadrado naquele padrão que eu me impus o tempo inteiro. Na verdade eu não me enquadrava em padrão nenhum. Eu só estava feliz, realizada. Encharcada até a alma e linda.

Ilustração: Ana Maia

Sabe, tenho uma dificuldade enorme com essa coisa de auto aceitação, e demorei bastante pra admitir isso pra mim mesma. Na verdade a maioria das pessoas sofre do mesmo mal e não falam disso abertamente. Tem sempre alguém se queixando dos quilos a mais, das olheiras a mais, da bunda de menos, das pelancas em excesso. Mas não é como se isso fosse tratado como um problema sério, como um distúrbio da nossa sociedade. É como se esquecessem que meninas são julgadas, excluídas, ridicularizadas, deformadas, por serem “bonitas demais” ou “feias demais”.

Durante a minha vida eu nunca figurei em nenhum desses opostos. Sempre estive na faixa do socialmente aceitável dentro dos padrões de beleza. Mas é inegável que eles ditem comportamentos sociais. Fui sempre infeliz por causa deles. Escancarados na adolescência, extremamente durante a vida adulta. Cabelo liso e saia lápis , manequim 38, seriam sinal de cuidado, zelo. Nada teriam a ver com biótipo, genes e gosto pela peça x ou y. Grande engano.

É triste dizer, mas 70% das pessoas num ambiente profissional vai te julgar sim, porque você não foi trabalhar com calça social ou porque o seu cabelo é naturalmente crespo. Ao mesmo tempo em que elas próprias estarão apertando seus dedos e calcanhares em sapatos de salto, fazendo escova progressiva e se maquiando obrigatoriamente quase todos os dias. Exatamente como você fazia nos tempos de escola, em que juntou o dinheiro que mal tinha de mesada pra comprar os tênis da moda, ou fazendo a sua mãe pagar por um vestido novo que você não precisava por causa daquela festa de quinze anos em que você mal conhecia a aniversariante.

A gente se molda o tempo todo. E acaba feito uma criança na maternidade quando tenta encaixar um círculo no buraco do quadrado. Freud diria que a origem dos nossos problemas vem da infância, e na formação dela, da coinciência do eu, onde todos esses questionamentos se iniciam e vão se desenvolvendo até se naturalizarem. Se modificar pra atingir um padrão é apenas a ponta do iceberg. Se entupir de plásticas corporais é só a consequência de uma angústia reprimida e leva a retroalimentação dessa angústia, uma vez que o círculo perfeito é impossível de ser atingido por mãos humanas.

Assim, só seremos capazes de nos libertar dessa infantilização da imagem ao passo que compreendermos que a nossa forma não se encaixa nesse molde pré programado em uma fábrica onde só se produzem arestas perfeitas.

Me olhando agora no espelho eu vejo que ainda sobram algumas pontas. Talvez elas fiquem ali pra sempre. Mas pelo menos eu sei agora que a circunferência de 360 graus não existe.

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