Que os nossos corpos sejam só nossos #primeiroAssédio

Me lembro como se fosse hoje do primeiro dia que eu ouvi um homem me chamando de gostosa na rua. Eu tinha 11 anos e estava andando sozinha na rua do lado de casa.

Eu era uma criança.

Cheguei em casa sem reação, chorei. Me senti absolutamente culpada aquele dia, eu ainda não usava sutiã, eu deveria me dar valor, eu já era uma mulher. Na verdade eu só tinha peitos que cresciam como dois corpos estranhos em mim. Só peitos, eu continuava a brincar de lego, vestir bonecas e passar o dia desenhando.

Desse dia em diante eu descobri que por mais que o corpo fosse meu outras pessoas também se sentiam donas dele, os homens que me assediavam na rua, os conservadores machistas, a mídia e até o meu próprio pai quando me impediu de sair de casa com um vestido “que mostrava muita perna”. Desse dia em diante eu nunca mais me senti segura de andar sozinha na rua. Desse dia em diante eu passei a ouvir outras cantadas, constantes, outras muitos piores. Já chorei algumas vezes depois disso. Já fui desrespeitada na porta de casa, no ônibus, no metrô, na praia, nos restaurantes, nas ruas, na escola, na faculdade. Fui desrespeitada pelo simples fato de portar um corpo feminino. De ser mulher. Fui desrespeitada como todas as mulheres que conheço já foram.

Já me calei muitas vezes, por medo. Mas aprendi que precisava revidar. Não sou obrigada a escutar que eu sou gostosa, vadia, delicia, tchutchuca, não sou obrigada a ver um babaca me tratar como carne de açougue, como objeto pra vender cerveja, como escrava sexual e doméstica. Grito sim, xingo machista no meio da rua pra todo mundo ouvir. Já fui xingada de piranha por causa disso? Um monte de vezes. Mas vou continuar lutando de todas as maneiras que forem possíveis O feminismo existe pra que o meu corpo possa ser só meu, para que eu não me preocupe com o fato de ter nascido mulher, para que as próximas gerações não tenham que reivindicar uma série de direitos oprimidos por essa sociedade machista.

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