Quem fez essa roupa foi a máquina?

Nos últimos dias eu estive no encontro de moda de um grande Bureau de tendências, e o tema dessa vez, foi o “feito no Brasil”. E o tempo todo batemos na tecla do handmade, da cultural nacional, do artesanal e alternativo. A palestrante falou inúmeras vezes sobre o papel das costureiras, mulheres maravilhosas, de mãos gentis, essenciais pra que o ciclo da moda acontece. É a elas, e ao seu trabalho, uma especialização tão digna quanto a de um estilista, a quem devemos o brilhantismo da nossa moda nacional. Pilotar uma máquina ou manejar uma agulha não é algo trivial, não é como se fosse algo fácil, exige técnica, preparo, e, principalmente, muita experiência. Principalmente, quando se é também bordadeira.

É obvio que sem as costureiras não haveriam coleções e mesmo marcas. Mas por que elas ainda ficam escondidas atrás de todo o glamour? Falamos muito das condições de trabalho na china, mas muitas vezes esquecemos de olhar pra dentro. As condições de trabalho das costureiras, modelistas, dos estoquistas no Brasil, são realmente dignas?

Na maioria das vezes quem confeccionou aquela peça não tem a mínima noção de que fim a roupa vai ter, não entende como funciona o mecanismo da moda depois que a roupa fica pronta, e, dependendo da confecção, nem para que marca aquela peça irá. A indústria não pensa nessas profissionais, mulheres fortes, quase sempre, mães de família, mulheres da classe C que encontraram na moda o seus sustento. Elas sim, são a moda de verdade. Que tal dar um carinho para essas pessoas? Pessoas que exercem um papel crucial na vida das empresas, e do cliente. Que tal trazei-las pra dentro do escritório? Mostrar pra elas como acontece uma sessão de fotos? Presentea-las com algum vestido ou camisa que será vendido na loja?

Pra mim, o papel da costureira sempre foi claro. Mas infelizmente a profissão ainda é muito desvalorizada, assim como n outras profissões igualmente dignas. Exemplo dessa desvalorização foi a reação das pessoas durante esse encontro de moda que eu fui. Por mais que lá houvessem pessoas que lutassem pelas mais diversas causas ambientais e políticas, ainda parecia que pra elas tudo ali era novidade. Como se ser socialmente responsável, delicado e humano fosse alguma espécie de tendência.

Na verdade é só educação, é respeito pelo outro. É moda de verdade.

Publicado em novembro de 2014 em Moda de verdade

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.