FINITUDE

Quem vive olhando para baixo vê que o chão do ônibus tem brilhos. Vi. Que mundo fodido, com o perdão da palavra. Quem foi que teve a ideia de fazer chão brilhoso? Tão imundo ele é, e vai continuar sendo, mesmo com todo o brilho falso do estoque. Como se Quasímodo passasse maquiagem. Sinto-me assim. Mas Quasímodo tinha personalidade, eu nem isso tenho como algo bom, para me salvar por ter tão fodido (de novo a palavra) o rosto. Alguém pisou no pé de alguém e uma moça deu um grito. E merecia muitos outros gritos.

Há dias em que é impossível escrever. Parece-me, como hoje, que (D)escrever nesse inferno interior a si próprio é então um parto de cinquenta filhos gordos e disformes, que saem como demônios, com uma faca na mão e pseudônimos prontos. Imagine parir cinquenta filhos-demônios. Não preciso gastar minha lábia para descrever.

Volto. A moça viu uma saída de incêndio, viu um homem que pensou brigar, outro que pensou que só servia para lhe foder — e não no bom sentido — , foder-lhe a vida; viu uma mulher que lhe deu medo, com sua cara idosa; viu um viaduto com promessa de fim, um carro buzinando para a morte, o chão brilhante do ônibus; viu tudo borrado, distante, molhado.

Viu tudo sem ver nada, sem querer estar vendo nada, sem sentir mais nada além do corpo quebrando. Um pedaço de pano de chão teria mais energia, um caco de vidro mais auto-defesa, um cachorro de rua mais amor. Deus, desça aqui e meta-nos um raio na cabeça - merecemos algo positivo para um choque. Esse ser humano anda quebrado, falta saber dar corda - uma que não seja para amarrar o pescoço até asfixiar e morrer. Isso se ainda sou ser humano, e não um conjunto de espasmos mentais e pedaços de gangrena...

Nojento... Perdão.

E agora? Já apareceu a palavra "foder" — e derivado — algumas boas três vezes nesse texto. Apareceu mesmo. E há de aparecer mais, que formalidade não cabe onde há impaciência e tanta exaustão da vida. Todo mundo fode eventualmente. Aceitem. Menos, dizem, a virgem Maria. E Jesus... E Jesus? Enfim... Sequer deveria ser usada como palavra ruim. Grande besteira ter medo de palavras chulas, ninguém anda de terno e gravata todo o tempo. A vida é suja assim mesmo... Nem todo narrador serve para ser Machado de Assis. E este seu, em comum com o ilustre citado, tem só o desgosto e niilismo.

Até porque, cristo!, esfaquearam a moça de novo... Não se preocupem porém, que não é preciso chamar ambulância — de toda forma ela os odiaria se o fizessem, como odeia o socorro de sirenes. Agora o corpo está são, mas ela vai acabar por morrer. Quer seja pelas próprias mãos, como seus olhos gritam, quer seja... Não importa, também você vai morrer. E, céus, que vida mais sem caminhos. Há apenas fogo e inferno, inferno e vazio, vazio e vácuo, respiração meramente existente de caminhada arrastada. Ou sequer caminhada existe mais, em verdade, porque as pernas não funcionam. Deficiente. Há o arrastar, e só. Só e solitário. Se fosse seguir a sinceridade pura, o caminho acabou, faz anos, num abismo gigante e escuro; o chão de onde se está é cortante, incandescente, e assassino (amém); o corpo está lentamente se desintegrando em torturas enquanto se arrasta para a queda. A queda salva, especialmente quando não há quem lhe puxe uma perna para ficar dependurado. No fim tudo é vão e inútil. Toda a vida, todo ato - teatral ou não. Desnecessário acordar de manhã.

A vida é invenção que cobre a nossa morte diária. Pouco importa dizer, mas alguém mal se aguentava de pé dentro daquele ônibus. Segundo a segundo, cada segundo é um passo para o abraço da morte enquanto tudo padece e tudo carece de atuação e invenção de sentidos. Passo a passo na rua, vazia como a alma. Passa-se a vez para a foice, que às vezes vem sob encomenda desejada.
 
Do que dizia? Vão. Piso no vão do ônibus. A jovem desceu, tomou chuva, sangrou e lhe chamaram negligente. Todos irrisórios em suas opiniões. Ela só quer a inconsciência. Contínua, de preferência - que já basta de tudo dessa vida na qual ninguém entende da destruída que não sabe viver, nem o quer, e nem para isso serve. Basta da sobrevivida.

... Que fracasso... Ninguém entende de nada, muito menos do Nada.

- Aonde você estava?

Aonde estava, meu Deus? Como é que iria saber? Talvez nos cantos remotos da sua infância, talvez caída na calçada depois da primeira Perda-Total, talvez no abraço apertado que deu quando queria na verdade dar um beijo.

- Por aí.

Quem disse que falar é fácil, não sabia da dor de não ser ninguém.

Sentiu as mãos suadas, a cabeça girando como se ali houvesse um abcesso de confusão líquida. A sensação de uma bola de neve crescendo dentro de si, até matar tudo no caminho. Quebrando ossos no meio do gelo e da urina... A neve queima... Tinha pesadelos com isso desde criança. Acordava um dia após o outro sentindo um peso sem sentido, um aperto de pulmões diminuídos. Chegaram a mandar chamar um pastor algumas vezes. O eterno medo do tinhoso apertando a garganta de uma garota.

Haja paciência. Largou de lado as outras perguntas, que vinham — furiosas! — daquela boca já tão acostumada a lhe agredir, e andou, doente, até a cozinha. Abriu a geladeira, mas não sentia fome. Não daquilo... A maldita sensação de fome sem saber o que comer! Escolheu a água gelada e o jejum... Melhor, que sua silhueta já não prestava mesmo. Os olhos ardiam, não pôde ficar face-a-face com o demônio no espelho, nem com os demônios da casa. A porta do quarto estava aberta, mas estacou e olhou para trás. Para os olhos acima da boca que a agredia. Os olhos da fera.

- Como é?

- Quero saber se você ainda quer ir lá.

Não queria ir a lugar algum, respondeu, estou cansada. Cansada, cansada... O cansaço parecia uma justificativa muito fraca e insuficiente para descrever a real situação. Para uma pessoa pessoa muito fraca e insuficiente, também. Sempre seria "fraquinha demais para meu (o teu, o dela, o tal) gosto", não é? Tudo bem. Tudo combinava, no final: tudo seguia rumo a uma linha tênue entre a morte e algo mais, um corredor cinza e claustrofóbico. Fechou a porta. Deitou-se, ou melhor, seu corpo se deitou. Caiu. Porque a alma seguia na labuta extrema e incessante da tortura. Um "eu caçador de mim", que não ficaria tão suave quando cantado sob uma voz como aquela. Maria, maria...

A Maria assentou-se, aos soluços. Imagine só, chorar ouvindo Milton, encolhida no berço de ouro que era sua vida. Talvez só quisesse sair do berço, e dá-lo para todas as pessoas que desejavam uma vida como a sua. Aquela parte da vida estava assegurada por enquanto, mas e o resto? Nada mais existia, além de um latejar insistente, que aspirina nenhuma resolve. Corre Maria, corre! Antes que a certeza te agarre...

Sentia febre. Viver e amar como outra qualquer no planeta... Quem diabos ainda amava naqueles tempos? De repente o amor era só uma marca de carro ultrapassado e não lhe haviam avisado... De repente ela estava esperando por ser ou sentir algo que não existe. Mamãe, quero ser um unicórnio... Unicórnio não é muito bom, filha, chifre é coisa do demônio...

O corno do unicórnio era coisa do demônio, as cores do arco íris eram coisa do demônio também, porque tudo lembrava uma sigla que se admitida também admitia ir para o inferno. A marcha das mulheres ainda ia, mas o dia do orgulho homo?

O cheiro de carne entrou no quarto. Devia ser o churrasco do vizinho, pensou. Talvez quisesse carne. Há quanto tempo não ia num churrasco, no cinema, num parque, num motel? Engraçado pensar que todo apaixonado é prostituta que recebe não em dinheiro, mas em amor. É injusto e abusivo não pagar. Não que já houvesse ido atrás de prostituta alguma. Devia ser uma vida complicada.

E por falar nisso, por que é que agora tudo era complicado? Arfava, batia na cabeça, arrancava os cabelos, esperneava, saía por aí com a mão roxa e cara de assassinato. Alguém dizia que estava tudo bem, mas nunca estaria. Venha para cá, aqui é mais feliz, diriam. Mas eu não estou feliz, a resposta. Para o diabo com isso... Não merecia. Nada, na verdade.

E tinha certeza disso. (Maria, cuidado! As certezas!). Entendia bem desse troço de não poder ter nada. Quem mais saberia sobre o nada, do que alguém que é o próprio nada?

- E o que pode ser mais importante que a felicidade?

Mas... O que pode ser mais importante que Deus e… e… E se para ele algumas felicidades eram erradas? Ora, cacete, Maria. Onde é então que andava a santíssima Cabeça Dele quando deu origem ao zigoto do ser humano? Não quis provocar, perdão. É que vivendo meio torta, confusa, doída, sabe... Bichos mordem quando sentem dor, seres humanos falam merda. E é isso. Sempre num barco indo a lugar nenhum, como uma busca que quando acaba, não acabou. Porque não se está satisfeito: não era isso que eu queria; não era isso que esperava; mas isso não está certo assim... não isso, não aquilo.

Acordou, escovou os dentes, foi estudar. Sem comer, mesmo, que não há tempo para isso na vida de quem não dorme, mas não sai da cama; se não chega-se atrasado. E atraso não se tolera... O trabalho é o seu futuro e o desemprego é a sua culpa. Mesmo que esta última esteja sempre empregada, na verdade. Diziam que estudar é trabalho. Profissão estudante. Um dia apareceu um professor dizendo que se fosse mesmo trabalho, seria trabalho infantil. E a moça não achou graça. "Vocês estão mesmo aqui é para quebrar os corações e virarem gente", ele disse. Quebrar corações? Eu vou é quebrar seus dentes, pensou.

Não disse, nem fez. (Como sempre?)

O ódio não era para ele. Foi como troca de raio X num hospital, alguém recebe a placa errada e acaba diagnosticado com o pior... O fato é que o coração, se é que ainda existia, já estava quebrado; e se saía de casa, era tentando se consertar, tentando achar seu lugar nessa porcaria toda que só Deus sabe quando começou. Quando foi que tudo desabou? Não ia fingir de idiota, sabia que fora ela mesma quem causara. Que era ela. Mas não tinha como consertar sem acabar num caixão, o que tanto queria.

- É só pedir...

Levantou o olhar. Alguém queria que ligassem o ar condicionado da sala. Não é possível, pensou. Pois agora não basta estarmos mortos por dentro, querem nos matar por fora?

Escreveu uma redação, rabiscou o caderno, odiou química orgânica pela milésima vez, não prestou atenção, fantasiou cenas sexuais com alguém que nunca teria. Coisa de jovem carente. Se dissesse que fazia isso, certamente haveria os que diriam que isso não é coisa que mulher diga, que tinha que se respeitar, se cuidar, ser menos oferecida — para não dizer puta — , ser moça direita. Bem, onde estava pouca gente diria isso, na verdade. Mas o que vinha à cabeça eram os pais e a igreja, e esses diriam. Ah, mas diriam... Mas honestamente? Todo mundo dentro da igreja, e todo pai e mãe, já fizeram — e é de quase certeza que fazem ainda — a mesmíssima coisa de fantasiar.

Lembrou e imaginou uma cena de oito anos antes.

-Mãe, pra eu nascer...Como é que é? Como é que funciona? É igual cachorro mesmo? Me disseram isso.

Piada. Como pode menina pequena falar isso? Como pode mãe responder e assumir que fode? Na verdade a menina já sabia mais ou menos — essas crianças "pra frente" de hoje! diziam os adultos — como era que funcionava. Queria mesmo era uma reação da mãe.

Toda criança é curiosa, mas a curiosidade da sua infância era inofensiva. Agora, não. Agora, as dúvidas eram assassinas. Pesadas. Ainda mais que... A vida toda, queria poder dizer saber de algo. Ter certeza de algo. Entender algo. Mas em dezoito anos de vida — Deus não a livrara da adultescência — lhe parecia que não aprendera nada e só conseguia falhar e falhar e falhar e falhar, e sofrer e sofrer e sofrer. Vivia a dúvida. Na verdade, ela mesma era a própria dúvida e a indecisão, ela era a dor, era o vazio, ela não era ninguém.

E que agonia, sentir-se a própria encarnação de nada. Saiu da escola, na certeza de que não servia para nada. Andava feito zumbi, mesmo depois de forçar o riso para aqueles que lhe forçavam a intimidade. Acendeu mais um cigarro. Que fossem se lixar os que avisavam de morte e saúde. Era suicídio? Ótimo. Saúde? "E eu lá tenho cabeça para ter saúde?" Viu o fogo do isqueiro. Precisava de ajuda. Sentia-se fraca e patética dizendo-o. A bolsa pesava e o coração ainda estourava quando bateu na porta.

Amava aquela porta. Era branca. Sem mais. Sem menos. A parede era um pouco menos branca, um encardido bege claro, talvez, com texturas. Machucara a mão socando aquelas texturas uma (duas? cinco?) vez(es)... Ali, sentada antes da porta, fora de horário, na sala de espera, surtando em uma das duas cadeiras. Alguns livros, o MPB no rádio — que inclusive a lembraria do antigo aparelho de rádio de sua irmã mais velha, e com isso lembraria também as saudades.

Sala de espera, não de esperança. "Em atendimento, favor aguardar". A placa ficava assim, mesmo se o dito cujo não estivesse lá dentro atendendo. Fazia sentido, de fato, porque ele estaria em outro atendimento: atendendo sua própria vida. Ela, contudo… Se a placa visse naquela frase, estaria sempre ali... parada. Pensando como sua vida era uma eterna sala de espera.

Daquela vez pensou em ir embora. Fraca. Patética. Sozinha. Precisava pagar para que alguém quisesse escutar. Era tão tragicômica a sua solidão, quanto detestável via a sua pessoa. A porta abriu. Um homem sorriu, como se sorri de leve num cumprimento. Ela não sorriu de volta, porque não se sentia capaz. Mas entrou. Até gostava daquele homem - mais do que amava a porta. E na verdade não fora sempre assim, que antes muito quis socar aquela face bonita. A primeira vez que entrara ali, trêmula, foi um tanto a contra-gosto. Lembrava ter se sentado, não lembrava mais se tinha dito algo decentemente quando ele já começara a explicar algo e a rabiscar numa caderneta. Fez-lhe algo como um esquema, para deixar explícito algum ponto da sua cabeça.

Que era aquilo tudo?

Ela encarou a página. Seria tão burra, pensou, que precisa desenhar para mim? Com o tempo foi descobrindo que sim, podia ser muito burra. Ali estava só uma palavra, com muitos riscos, que seriam suas origens. Depois outra palavra. Anulação. E tudo começa e recomeça. No início foi difícil: a repulsa, o medo de abrir a boca, o ódio ao sentir as lágrimas no rosto, sempre achando que ele a rejeitaria por qualquer que fosse a situação falada. Mas depois... é, continuou difícil. E difícil assim mesmo de ódio passou a vício, necessidade, até afeto por aquele que a escutava, acolhia, ajudava. A sala do divã era o lugar para onde corria quando no desespero. Só que, voilà, o desespero viria todos os dias. Mascarado de muitas formas diferentes - as que matavam e as que já a encontravam morta. É que aquela ali, aquela trouxinha de cacos de gente, não entendia como viver. Pelo que viver. Que verdades descobriria, quais abandonaria? Tudo é uma negação constante, uma queda livre para o buraco da cova que se cava para si próprio. Bem, mas disseram-lhe para segurar. Alguém disse… Ela disse. E por quê? Por que você disse, por que fingir? Apenas para outrora se olhar no espelho e não parecer estar vestida de solidão...?

Mas e ela mesma — segurando como pediram — caso se despisse, o que restava? Uma pele pálida perdida e um corpo quebrado sozinho, que não sabe fazer nada além de bater... e valeria a pena? A incapacidade de manter alguém era dementadora. Valeria não ter a culpa. Não carregar outro mundo inteiro nas suas costas, em formato de faca dançando dentro de uma ferida que não era só sua. Valeria olhar e dizer que não foi um demônio...

Mas isso não era possível. Não. Talvez na verdade não quisesse ninguém. Ou não pudesse ter alguém.

Acalme, respire, diria alguém. Um dia passa. Um dia, outro dia, todo dia era um repetição... E aquele também era. O dia passava mesmo, o que não passava era o inferno. Entrou, falou, chorou, saiu. Entrou, falou? Chorou. Saiu. Depois, o ônibus. A exaustão, a vida sem sentido, a morte aspirada, a dor, o niilismo, o grito, o desejo por finitude. De um corpo que mal se aguentava em pé os olhos marejados encaravam o chão. Só queria um fim, e...

Quem é que foi o idiota que colocou brilho no chão do ônibus?

Like what you read? Give Foda-se, débora. a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.