Os movimentos de libertação das mulheres e dos homossexuais (1970)

Por Huey Percy Newton.

Durante os últimos anos se desenvolveram fortes movimentos entre as mulheres e os homossexuais buscando suas libertações. Tem havido alguma incerteza sobre como se relacionar com esses movimentos.

Quaisquer que sejam suas opiniões pessoais e suas inseguranças sobre homossexualidade e os vários movimentos de libertação entre homossexuais e mulheres (e eu falo de homossexuais e mulheres como grupos oprimidos), nós devemos tentar nos unir com eles de uma forma revolucionária. Eu digo “quaisquer que sejam suas inseguranças” porque como nós sabemos muito bem, às vezes nosso primeiro instinto é querer bater em um homossexual na boca, e querer que uma mulher fique em silêncio. Nós queremos acertar um homossexual na boca porque nós temos medo de que possamos ser homossexuais; e nós queremos agredir a mulher ou calá-la porque temos medo de que ela possa nos castrar, ou ter a coragem que talvez nós não tenhamos para começar.

Devemos adquirir segurança em nós e portanto ter respeito e sentimentos por todas as pessoas oprimidas. Nós não devemos usar a atitude racista que os brancos racistas usam contra o nosso povo porque eles são negros e pobres. Muitas vezes a pessoa branca mais pobre é a mais racista porque ela tem medo de que possa perder alguma coisa, ou descobrir algo que não tenha. Então você é algum tipo de ameaça para ele. Este tipo de psicologia está em operação quando vemos pessoas oprimidas e estamos bravas com elas por causa de seu comportamento peculiar, ou seu tipo particular de desvio da norma estabelecida.

Lembrem-se, nós não estabelecemos um sistema revolucionário de valores; estamos apenas no processo de estabelecê-lo. Eu não me lembro de que jamais tenhamos qualquer valor que dissesse que um revolucionário deve dizer coisas ofensivas em relação aos homossexuais, ou que um revolucionário deve assegurar-se de que as mulheres não falem sobre sua própria opressão. Na verdade, é justamente o contrário: nós dizemos reconhecer o direito das mulheres a serem livres. Nós não dissemos muito sobre os homossexuais, mas nós devemos nos relacionar com o movimento homossexual porque é algo real. E eu sei através da leitura, e através da minha experiência de vida e observações que aos homossexuais não é dada liberdade e autonomia por qualquer um na sociedade. Eles podem ser as pessoas mais oprimidas na sociedade.

E o que os fez homossexuais? Talvez seja um fenômeno que eu não entendo completamente. Algumas pessoas dizem que é a decadência do capitalismo. Eu não sei se esse é o caso; eu prefiro duvidar disso. Mas qualquer que seja o caso, nós sabemos que a homossexualidade é um fato, e precisamos entendê-la na sua forma mais pura: isso é, uma pessoa deveria ter a liberdade de usar seu corpo de qualquer maneira que quiser.

Isso não é apoiar coisas na homossexualidade que nós não veríamos como revolucionárias. Mas não há nada a dizer que um homossexual não pode também ser um revolucionário. E talvez eu esteja agora injetando um pouco do meu preconceito dizendo que “mesmo um homossexual pode ser um revolucionário”. Pelo contrário, talvez um homossexual poderia ser o mais revolucionário.

Quando nós temos conferências, manifestações e demonstrações revolucionárias, deveria ter plena participação do movimento de libertação homossexual e do movimento de libertação das mulheres. Alguns grupos podem ser mais revolucionários que outros. Não deveríamos usar as ações de poucos para dizer que são todos reacionários ou contrarrevolucionários, porque eles não são.

Nós deveríamos lidar com as facções da mesma forma que lidamos com qualquer outro grupo ou partido que se proclame revolucionário. Devemos tentar julgar, de alguma maneira, se eles estão operando de uma maneira sinceramente revolucionária e de uma situação realmente oprimida. (E nós garantiremos que, se são mulheres, provavelmente são oprimidas.) Se fazem coisas que são não-revolucionárias ou contrarrevolucionárias, então critique aquela ação. Se sentimos que o grupo, em espírito, deseja ser revolucionário na prática, mas cometem erros na interpretação da filosofia revolucionária, ou não entendem a dialética das forças sociais operantes, devemos criticar isso e não criticá-las, porque são mulheres tentando ser livres. E o mesmo é verdadeiro para os homossexuais. Nós nunca devemos dizer que um grupo inteiro é desonesto quando de fato estão tentando ser honestos. Só estão cometendo erros honestos. Amigos estão autorizados a cometer erros. O inimigo não está autorizado porque sua própria existência é um erro, e nós sofremos com isso. Mas as frentes de libertação das mulheres e dos gays são nossas amigas, são nossas potenciais aliadas, e precisamos do máximo de aliados possível.

Nós deveríamos estar dispostos a discutir as inseguranças que muitas pessoas têm sobre a homossexualidade. Quando eu digo “inseguranças”, eu quero dizer o medo de que eles são alguma espécie de ameaça à nossa masculinidade. Eu consigo entender esse medo. Devido ao longo processo de condicionamento que constrói a insegurança no homem americano, a homossexualidade pode produzir certos bloqueios em nós. Eu mesmo tenho bloqueios sobre a homossexualidade masculina. Mas por outro lado, não os tenho quanto à homossexualidade feminina. E isso é um fenômeno em si. Eu acho que é provavelmente porque a homossexualidade masculina é uma ameaça para mim, enquanto a feminina não é.

Devemos ser cautelosos ao usar aqueles termos que podem afastar nossos amigos. Os termos “faggot” [bicha] e “punk” [puta] deveriam ser deletados de nosso vocabulário, e especialmente não devemos apregoar nomes normalmente concebidos à homossexuais para homens que são inimigos do povo, como Nixon ou Mitchell. Os homossexuais não são inimigos do povo.

Nós devemos tentar formar uma coalizão funcional com os grupos de libertação das mulheres e dos gays. Nós devemos sempre lidar com as forças sociais da maneira mais apropriada.

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