as estruturas sociais do suicídio

(ou como o caso do homem que suicidou-se e matou esposa e filhos coloca em xeque nosso modelo de sociedade)

Vejo dois tipos de post bombando na minha timeline sobre o caso do homem que suicidou-se e matou a família. O primeiro diz que toda relativização é bobagem e que se trata apenas da boa e velha violência misógina. O segundo diz que se trata de suicídio, de doença mental, que a questão é legitimamente uma questão de saúde.

Pois daí que meu raio problematizador carrega uns anos de ser socióloga e isso me coloca a obrigação de polemizar um pouco mais, adicionando umas camadas significativas de interpretação no rolê. Vamos lá.

Quando um homem faz isso, é o gênero. Não necessariamente misoginia. Se uma mulher faz isso seria o gênero também. Se um homem deixa de fazer isso, também poderíamos observar como desdobramento do gênero. Se uma mulher deixa de fazer isso, idem. QUER DIZER. O gênero importa e muito pra compreendermos as ações das pessoas, enquanto estrutura que as orienta. MAS o gênero sozinho não é capaz de explicar a situação por completo. Porque na realidade está imbricado com outras estruturas sociais.

Vejamos.

Poderíamos pensar esse caso a partir da CLASSE: a reprodução do lugar social da classe a quem pertencem é tão pesada que a pessoa acha que fará mais bem a seus dependentes matando-os do que vivendo em outra situação de classe (e sabe-se lá se a esposa também não concordaria com isso). Quem faz isso é porque precisa vender a própria força de trabalho, mesmo que seja super-assalariado (um herdeiro jamais estaria nessa situação, por exemplo).

Ou ainda: a racialidade. A associação da pobreza com a negritude no Brasil pode ser bastante pesada na construção dessa rejeição absoluta da vida em outra situação de classe/consumo, no caso de ser uma família branca. No caso de ser uma família negra, soma-se ao desespero uma tonelada de dificuldades e barreiras impostas pelo racismo que a família (ou o cara) sabia que enfrentaria.

Sobre a questão da “doença mental” e do suicídio esse debate é antigo na teoria social (olar, Marx que traduziu um texto francês sobre suicídio já no século 19, e olar Durkheim que dissertou longamente sobre o tema). Só faz sentido falar em “doença mental” se também entendermos a “doença mental” como fato social e não como condição individual. Para isso seria preciso olhar estatisticamente pra detalhes aos quais nem sempre temos acesso devido ao grande tabu do suicídio.

Este tabu se produz intimamente ligado a uma valorização suprema da vida pela vida (olar, cristianismo, “a vida importa mais que tudo”, etc), por um lado, e ao fundante controle social extremo sobre o corpo que é característico de nossa sociedade (antes que entendam mal: toda sociedade tem dispositivos de controle sobre o corpo, como forma de controle da reprodução da própria sociedade; o que estou dizendo é que no nosso caso esse controle é bastante extremo e basilar quando comparamos com outras sociedades).

Não se noticia suicídios, por exemplo, porque esses dois dispositivos são tão fortes que a possibilidade de que as pessoas considerem o suicídio como saída nos parece assustadora. A certa altura da minha graduação, descobri que a universidade onde estudava era uma das universidades com mais alto índice de suicídio de alunos no país e, mais, descobri que os índices em geral entre estudantes de graduação eram bastante significativos. Mas claro, nada se fala. Porque né, “deusmelivre” as pessoas percebam que elas têm esse controle sobre elas mesmas e queiram fazer isso. Aí: valorização da vida pela vida como valor supremo, por um lado, de controle social sobre o corpo de maneira extrema e basilar, do outro.

Por isso muita calma nessa hora. A parada é difícil. Se fosse fácil entender esses fenômenos a gente taxava tudo de misoginia no facebook e eu não precisava estar aqui há 10 anos estudando ciências sociais, uma outra galera psicanálise, uns outros filosofia… Se fosse só classificar como doença mental, dar um remédio e um tratamento psiquiátrico, também. Qualquer uma dessas formas de ver a coisa não contribuem com o aprofundamento de questões fundamentais trazidas pelo caso:

como é que nos organizamos em sociedade? o que é que torna a vida tão pesada e indesejável? que situações de gênero, de classe, de raça? que estruturas simbólicas? que partes da nossa cultura?

E a pergunta que não quer calar: poderíamos reestruturar nossa sociedade de forma que viver fosse um pouco mais desejável — em vez de ser uma obrigação moral?

Like what you read? Give Marília Moschkovich a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.