Eu não quero votar em alguém que me represente

seu voto pra vereador amanhã tem tudo a ver com como você pensa a política: você quer alguém que te represente? eu não.

A ideia da política institucional como uma delegação de poder me incomoda. por isso tenho problemas com coisas como a frase “me representa”.

A crença de que o jogo político é uma questão de “representação” e “representatividade” acaba minando o engajamento político orgânico, na política institucional ou fora dela. Claro que essa ideia sozinha não é responsável por todo o não-engajamento orgânico mas sim, ela contribui um tantão.

Além disso, essa perspectiva tem um viés muito individualista que só prejudica a luta contra-hegemônica (classista, comunista, socialista, de esquerda, anticapitalista) na política. Quer dizer: eu indivíduo voto em outro indivíduo, e esse outro indivíduo supostamente tem que “me representar” ou seja, agir a favor daquilo que eu como indivíduo defendo que seja melhor.

No fim das contas acaba faltando — e muito — uma conexão firme com os laços sociais que determinam nossas possibilidades de vida.

Então elegemos indivíduos com propostas que nos representam como indivíduos. No afã, esquecemos de nos construirmos politicamente da mesma maneira como nos construimos na realidade social: como categoria (como classe, por exemplo). Ou seja, estamos dando as costas para uma construção classista da política.

Só que, no fim das contas, o que é a política — sobretudo o Estado — senão o espaço de disputa entre classes sociais pelo poder (ou, diriam alguns, ainda, o espaço de hegemonia da dominação de uma classe sobre a outra)?¹

Agimos guiados por uma crença — sim, reparem na palavra: crença — de que a democracia (que infelizmente no senso-comum se usa quase como sinônimo de política) funciona a partir de certos princípios enquanto ela está lá, toda pimpona, fanfarrona, funcionando de outro.

E seguimos nos perguntando por que é tão difícil causar mudanças estruturais pela política institucional. Não é só isso, mas essa é uma parte bastante significativa do processo.

Eu não quero que ninguém “me represente” na política.

Eu não quero votar em um indivíduo mas em um projeto construído organicamente por uma classe social organizada politicamente.

Porque é isso:

se queremos revolucionar as estruturas sociais, em sua essência a política desde uma posição contra-hegemônica (classista, anticapitalista, comunista, socialista, de esquerda) não pode ser um “lutar por mim” ou um “lutar pelo outro”.

É preciso lutar por NÓS.


¹ e nem sou eu que está dizendo; autores como Gramsci, Althusser, Bourdieu e tantos outros já identificaram esses mecanismos de diversas maneiras.

*em tempo, as candidaturas que vejo que partem desse princípio são as candidaturas do Partido Comunista Brasileiro.

**mais em tempo ainda: não estou dizendo isso porque sou do PCB; muito ao contrário — eu me juntei ao PCB ano passado por perceber que era o partido que mais tinha essa visão da construção da política.

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