Por que nós doutorandos nos suicidamos?

O suicídio recente de um doutorando da USP reacende a atenção pública para uma questão latente na pós-graduação brasileira. Mas até que ponto trata-se de uma questão de mera “saúde mental”?

Cena do filme The Wall (1982)

A Folha de São Paulo publicou hoje uma reportagem discutindo o recente suicídio de um doutorando em seu laboratório de trabalho na USP pelo prisma da saúde mental. Mas o que está por trás da “saúde mental” de estudantes de pós-graduação, sobretudo doutorandos, no Brasil?

Um dos primeiros pontos que muitos docentes e discentes têm levantado sistematicamente é o chamado “produtivismo acadêmico” — ou seja, uma demanda de produção, publicações, prazos e afins muito acima do humanamente possível, garantindo boas avaliações e posicionamento em rankings. No entanto, há um esvaziamento desse termo quando nos esquecemos de observá-lo da maneira o mais concreta possível. Quer dizer, exigir que uma pessoa paga com dinheiro público coloque conhecimento pra circular (publicação) parece razoável, mas é preciso que haja condições para que esse trabalho seja realizado de maneira minimamente saudável.

Por isso me parece que o problema será resolvido apenas quando entendermos a pesquisa de doutorado como o que ela é: TRABALHO.

E os doutorandos como o que são: TRABALHADORES.

A ideia de que os doutorandos (*e mestrandos em programas de pós-graduação strictu-sensu) são materialmente a mesma categoria (“estudantes”) do que estudantes de graduação é equivocada, se pensarmos no que fazem concretamente e no valor do que produzem. A começar por este fato: doutorandos* produzem. E isso não quer dizer “publicam”, mas quer dizer que há conhecimento, tecnologia, técnica, ciência sendo produzidos com o trabalho de doutorandos. Sem que sejamos jamais vistos como trabalhadores, seja em laboratórios ou em bibliotecas.

Doutorandos* seguem produzindo conhecimento, produzindo ciência, em condições extremamente precárias. Não têm direito NENHUM, nem garantia NENHUMA (inclusive atrasos em bolsas são comuns, sem falar em atrasos e suspensões arbitrárias de bolsas e financiamentos, sem aviso prévio, sem negociação).

Além disso, o “salário” (que se chama bolsa para que não haja piso nem nenhum direito trabalhista associado) é praticamete miserável — sobretudo se comparamos com profissões que exigem não apenas graduação mas também mestrado (ou seja, na melhor das hipóteses 6 anos de estudos superiores) para você poder exercer... Se dividirmos os R$2.200 de bolsa Capes pelo número de horas realmente trabalhadas (uma jornada de 60h/semana não é incomum), temos um valor/hora de R$9 mais ou menos — isso mesmo, NOVE reais por hora depois de seis anos de ensino superior. Se incluirmos a conta dos mestrandos em programas de pós-strictu sensu, que trabalham as mesmas horas em geral por uma bolsa de R$1.300/mês, o valor por hora cai para R$5,41 (a mesma remuneração de um atendente de cadeia de fast-food nos novos regimes de trabalho quase-informal pós-fim-da-CLT).

Junte-se a isso a pressão bizarra e o ambiente pouco acolhedor: afinal, a lógica de uma suposta meritocracia ainda reina. Ou seja, se você não entrega, não consegue atender aos prazos, é tudo colocado nas tuas costas. A pressão — que os doutorandos já internalizaram — é reforçada desde um simples comentário aparentemente brincalhão redes sociais, de professores ou colegas dizendo “o que vc está fazendo aqui? cadê a tese? vai escrever a tese”, etc. até a cara de torção-de-nariz permanente quando a vida atropela e você não dá conta.

Mas não é só isso. Tem mais.

Tem o fato de já no período “de ouro” das contratações por concurso em federais, na década de 2000, com a expansão das federais no governo Lula, doutorandos trabalharem sem ter nenhuma garantia de que ia existir trabalho (já que isso dependeria sempre do repasse de verbas pra abrir concursos, ou seja, da vontade política, que poderia mudar de repente — como estamos vendo bem nos últimos anos, desde ainda o próprio governo do PT).

Reforço que essa situação é ainda mais drástica nas ciências sociais e humanidades, pois nessa área a carreira acadêmica é em geral a opção de melhor remuneração possível (exceção sendo os economistas, mas apenas os que seguem a chamada “economia ortodoxa” de hoje, com econometria e em geral nenhuma ou pouca relação com a realidade social). É muito mais competitivo fazer carreira acadêmica nas humanas do que nas exatas e biológicas, por esse motivo. Ainda assim, a fazemos com ainda menos grana, com menos bolsas, com menos recursos. Vejam o relatório de gastos da FAPESP abaixo.

fonte: Revista Pesquisa Fapesp

Vejam também o João Moreira Salles dando entrevista, ao inaugurar um instituto de financiamento privado à pesquisa (quaisquer relações aparentemente suspeitas com o atual sucateamento da universidade pública e com a tentativa do governo do Estado de privatizar a USP não são meras coincidências — estamos num período de implantação agressiva de um novo modelo, mais precarizado e com menos autonomia em relação à produção científica), dando sua explicação de por que não financiar ciências humanas:

fonte: Folha de São Paulo

Mas sendo de humanas, de exatas ou de biológicas, a situação de trabalho dos doutorandos é ainda mais dramática de 2015 para cá. Sendo 2017 um ano campeão em notícias desesperadoras e deprimentes: me refiro ao recente desmonte quase completo dessa carreira, começado pela Dilma, aprofundado pelo Temer.

Esse desmonte é duro e vem em dois sentidos: primeiro, na falta de estrutura e grana pra trabalharmos, que afeta a todas e todos em todas as áreas e deixa as condições de trabalho já mencionadas ainda mais dramáticas e precárias (mais pressão, menos esperança, menos perspectiva). No caso das humanas, enfrentamos ainda uma forte perseguição ao conteúdo em si de nossos trabalhos (este caso foi bem chocante, mesmo que o MP-MG ainda tenha mantido algum bom senso — afinal, ainda está na lei a autonomia universitária, embora ela sem dúvida esteja cada vez mais em risco).

A perseguição ainda se apresenta em formas menos diretas: que fim levam as tantas pesquisadoras e pesquisadores que fazem doutorado em gênero e sexualidade, por exemplo, já provavelmente sem emprego em universidades públicas e num futuro (presente?) próximo em que esse assunto é simplesmente proibido em qualquer lugar? Como encontraríamos emprego em universidades privadas? Como escreveremos livros se eles forem proibidos ou tiverem “classificação indicativa”? Como oferecer cursos? Organizar eventos? Isso sem considerar que o assunto corre o risco de ser perseguido e proibido nas próprias universidades em um cenário mais dramático (mas, infelizmente, não mais impossível)…

Somem ainda essas perseguições que já estão acontecendo à provável aprovação do fim da estabilidade de carreira de funcionários públicos. Vêem o tamanho da coisa?

Meu próximo texto (em preparação, aqui no Medium) vai se chamar “Fuga de cérebros ou Exílio?” e vai discutir de maneira um pouco mais detida o panorama de imigração para trabalho entre doutorandos e pesquisadores hoje, na já dramática situação dessa carreira.

Mais dramática, aliás, do que a maioria das pessoas está disposta a admitir.

Por que não admitimos a real gravidade da situação? Por que continuamos recorrendo à ilusão de que se trata de uma questão de “saúde mental” e de “apoio psicológico”, como se o problema fosse individual?

É simples:

Porque se olharmos para frente com realismo e admitindo a gravidade do que está acontecendo e os prováveis desdobramentos do projeto em curso para a educação superior e a pesquisa científica, a vontade é mesmo de abandonar a carreira na melhor das hipóteses. Na pior, a própria vida (pois nem sempre é possível existir em outra carreira…).

A imobilidade é parte deste momento de luto.

A universidade está morrendo.

Ao matá-la nos matam. Nos matando, eles a matam também e torna-se fácil, bem mais fácil, implantar um projeto outro de universidade. Que é parte de um reposicionamento do Brasil no sistema global de produção de conhecimento, sendo reorganizado após a crise de 2008, arrisco dizer (é essa minha área de pesquisa, ainda por cima — imaginem como anda meu estômago esses tempos? pois é).

O exílio, ou a fuga de cérebros, não deixa de ser uma forma de resistência: estar vivo. Pra dizer que a luta só acaba quando acabarmos todas e todos.

Estando aqui, estando geograficamente longe, como estratégia de sobrevivência:

ousar lutar,

ousar vencer.