Um Patinho

Mirava o pão.

Silencioso, estático, hesitando em se aproximar. Olhou em volta: todos os outros patos tinham pães em seus bicos. Alguns, já empanturrados, voltavam cambaleando para o lago. Ele permanecia onde estava, com as patas fincadas no gramado.

Por muito tempo continuou mirando o pão.

Não pensava tanto no pão em si, mas na forma de chegar a ele. De início, se perguntou se realmente queria o pão. Estava com fome ou seria sua ânsia um mero capricho? Queria qualquer pão ou aquele pão? Desejava-o como alimento ou só para se adequar? O ronco debaixo de suas penas concluiu pela fome. Mas só o bucho vazio não era estímulo suficiente, precisava de uma estratégia. Qual era a melhor forma de chegar até o pão? Nadar até o final do lago e caminhar, da forma desajeitada de sempre, até um naco seco, fresco, na grama, ou se contentar com um pedaço úmido mas desprovido da sensação de ridículo? Apesar de tudo estava em um dia bom, poderia sustentar alguns passinhos. Restava decidir se comeria o pão lá mesmo ou o traria de volta ao lago. Mastigar com uma platéia lhe era insuportável, podia imaginar seu bico se deslocando na direção de todo tipo de absurdo. Trazer também não era uma tarefa fácil. Debaixo da asa seria muito arriscado, poderia derrubá-lo e confirmar a sua inaptidão. No bico tampouco era confortável, não conseguiria acomodar bem os pedaços e poderia ser catalogado como guloso. Decidiu comer o pão lá mesmo; olharia para baixo para poupar os outros da visão desengonçada.

Por algum tempo ainda mirou o pão.

Afinal sacudiu-se, atravessou a água, caminhou a passos lentos e contidos, se aproximou do pão e, na luta da fome contra a racionalidade, o abocanhou de uma vez só. Mascou. Engoliu. Engasgou.

Quack.

Entalou.

Quack.

Ninguém o ajudava.

Quack, quack, quack.

Sufocou.

Quack.

Morreu com o pão a meio caminho do esôfago. Esqueceu de deglutir. Coitado. Era incompreendido até por si mesmo.

*desabafo inspirado no conto Um Menininho de Amos Oz e em uma noite particularmente ruim*

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