A arte de ousar os desequilíbrios

No último dia 25 de setembro de 2015, um enorme trapézio montado na Praça da Paz (na Unicamp) somava-se ao teatro e a musica para desviar nosso olhar ou desestabilizar a mesmice. A peça sobre Iansã, apontava que há espaços a serem reocupados e algumas iniciativas (como essa) que precisam proliferar-se urgentamente. Forças femininas intempestivas, artisticas e cheias de ventania invadiram a praça, sob o olhar atento de algumas pessoas que nao voltaram para casa iguais ao que eram antes. Quero crer que algumas se lembraram o que se tornou o espaço da universidade (como já foi diferente), e quem sabe pararam para pensar o quanto o estado atual se conecta com processos tão mais amplos. Há alguns anos colocaram cercas em volta da universidade, guaritas e mais recentemente câmeras. Em algum desses momentos, escrevi um texto (para a Revista Ciencia e Cultura) dizendo que a universidade, espaço que por excelência deveria ser de reflexão e proposições, estava incorporando irrefetidamente as já velhas soluções privadas dos condomínios. Tento imaginar que não nos demos conta do que significava essa opção: espaços mais vazios, que nao prezam pela convivência, criação de espaços de segregação, cercamento de um espaço de circulação pública e o estabelecimento de uma certa relação com a sociedade ou com parte dela… Estávamos muito submersos nos afazeres cotidianos para nos opormos a essa opção. Hoje fala-se cada vez mais na presença da polícia nos campi para enfrentar casos de roubo e violência, mas acima de tudo para enfrentar a insegurança que criamos (no seu mais amplo sentido, participamos todos da criação dessas inseguranças, mas não nos damos conta, ou estamos um pouco ocupados, isso vale para o que acontece nas periferias, para o nosso exercício consensual da violência, vale para o nosso espanto apenas quando o conservadorismo e as violências nos esmurram a porta). E também estamos ocupados para pensar um pouco mais detidamente sobre a polícia no campus como solução. As cantinas da universidade foram praticamente todas fechadas, e não existem mais esses espaços para outras formas de reflexao (tão importantes quanto as das salas de aula e laboratórios, são os espaços aonde poderiam estar juntos professores, estudantes, pesquisadores, funcionários, e quem mais desejar). Mas não nos damos conta, continuamos muito ocupados, acima de tudo tentando cumprir as metas exigidas de produtividade, nos esforçando para fazer as ciências (humanas) que sejam dignas de receber financiamento, nos empenhando para o jogo de cumprir os itens do Lattes, e seguimos nos aproximando da mais perfeita lógica bucrocrática de Eichmann (tão bem analisada por Arendt), o dever cumprido e a ascensão na carreira. E então chocados nos perguntamos de onde vem essa onda conservadora, mas rapidamente seguimos fora dessa conversa, de olho no relógio, seguimos dizendo: -Estou atrasado! Estou atrasado! Pixações pregando ‘morte aos comunistas’, o caso da Escola Aggeo em Sorocaba (SP), são alguns dos casos locais que vêm até nossa porta nos lembrar que a onda conservadora está muito mais amplificada, somam-se as chacinas, ao modelo correto de familia, a universidades no Japão fechando os cursos de ciencias humanas…Infindável lista invisível a nossa sobrecarga cotidiana, que pode começar a ficar visível atraves das linhas de um trapézio instalado num lugar inesperado. As linhas daquele trapézio montado na Praça da Paz precisam escapar e seguir Iansãnamente traçando a recriação de espaços comuns de diálogo, para o trabalho na academia do equilibrista que faz acrobacias para criar caminhos invisíveis pelo ar, passando por cima das cercas, mais além das câmeras. A arte do trapézio nao é a de manter o equilibrio, mas de saber brincar e ousar os desequilibrios!