Céu. Nuvens. Ação!


Há crianças com personalidades e comportamentos variados, tanto quanto os adultos. Boa parte delas gosta de correr, brincar, pular, ralar o joelho, criar galo na cabeça, e sair correndo novamente. Mas há as que gostam disso com menos intensidade e são mais contemplativas. Nilton é desse último tipo.

Quando há uma bela tarde de sol, com algumas nuvens brancas brincando no céu, o pequeno Nilton pratica uma das coisas de que mais gosta. Ele vai até o quintal de sua casa, em um ponto em que a casa faz sombra (assim o sol não incomoda seus olhos). Ali, ele se deita de barriga pra cima. Um dos braços é usado como apoio para a cabeça. O outro fica livre para que sua mão possa sentir os grãozinhos de areia que o piso de cimento solta com o tempo, criando a sensação de uma praia imaginária.

Com os olhos fixos no céu, e em suas nuvens, Nilton começa a se divertir, sentindo uma suave brisa de meio da tarde. Que crianças e adultos gostam de ver figuras nas nuvens do céu não é novidade. Mas o menino, filho de dona Dida, fazia mais, ele criava histórias com as nuvens.

Aqueles iniciais grandes chumaços de algodão estavam à espera de que lhe dessem forma e vida. Como um escultor-escritor, Nilton trabalhava com eles. Lá estava a nuvem-tartaruga, a nuvem-avião e a nuvem… Ah, sim, a nuvem-nuvem (que era maior do que as outras). Mas que relação poderia haver entre essas nuvens-figuras-personagens? Nas caraminholas de Nilton, a coisas funcionava mais ou menos assim:

Uma lágrima escorre dos olhos do Sr. Tartaruga. Ele está triste, olhando para o avião. Seria por saudades de dona Tartaruga, que teria viajado na máquina voadora? Ai que saudades sentia o Sr. Tartaruga. Mas ele resolveu pedir à nuvem que o carregasse. Assim ele poderia ir para junto de sua amada. A nuvem se aproximou do Sr. Tartaruga e o envolveu. Agora eram uma coisa só, uma nuvem só, uma vontade só — juntar o Sr. e a Sra. Tartaruga. E lá se foram, em busca dela, da vida, do amor.

O vento que soprava levou as primeiras nuvens para mais distante, junto com a imaginação de Nilton. O vento soprava, as nuvens se iam, e Nilton sorria. Mas lá estavam outros grandes chumaços de algodão querendo ganhar forma e virar história, antes que o vento as levasse para mais longe. E o filho de dona Dida, que estava passando roupas no quarto, voltava a criar, a historiar, a germinar histórias que podem parecer sem sentido, mas qual lógica pode superar a de uma criança? O que importa é sonhar.

Ah mente, contempla as coisas simples à tua volta. Voa com elas. Cria com elas um mundo criança, um mundo de Nilton, um mundo de sonho real.

Originally published at organizandoletras.blogspot.com.br.

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