Conduzida por ele


Ele fez que a jovem morena, moradora da periferia, nutrisse sentimentos cada vez mais intensos, até que se tornaram paixão. Suor frio, coração palpitante, mãos trêmulas, todos os sintomas estavam lá. Estava fisgada. Ser fisgado não é algo bom; os peixes que o digam. Mas era assim que ele a queria, apaixonada.

Depois de um tempo, ela via tudo ao seu redor pelos óculos dele. Se um céu azul parecia acinzentado para ele, pois que assim o era para ela. Caso o bom filme fosse chato para ele, oh, que filme horrível para ela. Os crisântemos são mais bonitos do que as rosas, ela afirmou, pois ele assim pensava. Ela deveria aprender a sorrir menos; ele não gostava de sorriso fácil. Por que sorrir tanto, afinal?

Com o anzol cravado na pele, ela era arrastada segundo a vontade dele. Seguia caminhos que uma moça da idade dela não deveria percorrer. Era toda paixão. Tomava atitudes quase inconsequentes, agia doidamente muitas vezes. Mas a adrenalina jorrava. E parecia ser somente isso o que interessava. Palpitação, tremores, suor, paixão, apreensão. Seguindo o caminho já traçado, a verdade é que ela encantava, brilhava, seduzia, ainda que presa à vontade dele.

Ah, ele! Que cruel! Mal sabia ela. Mas elas nunca sabem. Simplesmente, de repente, acontece. Ele a conduziu com um caminhar tranquilo até a estação de trem. Antes de chegar à plataforma, pôde desfrutar de um capuccino, deitar conversa, trocar carinhos. Mas depois foi levada à plataforma, para trás da linha amarela, para segurança dela. O trem se aproximava. É uma pena que linhas amarelas pintadas no chão possam ser transpostas com tanta facilidade. Doentiamente ele providenciou que ela fosse empurrada além da linha, além da plataforma, e parou sobre os trilhos, sob as rodas do trem. A bela moça da periferia sofreu seu fim.

Ah, ele! Que cruel! Cruel autor da história! Cruel escritor, que cria paixão no leitor para depois jogá-la sob os trilhos do trem. Mas ele imita a vida. Aumenta uns tantos. Diminui outros poucos. Ele ama isso. Os que o leem também. Ele é o escritor.

Originally published at organizandoletras.blogspot.com.br.

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