O pacto dos gêmeos


A tampa do caixão acabara de ser fechada. Gritos de desespero dos familiares mais próximos ecoavam no velório. Duas crianças olhavam toda aquela situação sem ter ainda digerido tudo o que estava acontecendo. O pai delas estava prestes a ser sepultado. Gêmeos, Catarina e Laércio tinham os olhos marejados. Era como se algo contivesse as lágrimas, talvez a esperança de que o pai delas surgisse a qualquer momento e as pegasse nos braços, como costumava fazer. Esperança de que tudo aquilo fosse uma ilusão, um pesadelo.

A atitude da mãe delas não ajudava a manter essa esperança, pois gritava em desespero pela perda do homem que amava. Maria Cláudia não teria mais o cuidado e carinho do marido. Criar seus filhos seria agora sua missão, levar duas crianças de sete anos de idade à maturidade, uma missão solitária. O abraço ardoroso do namorado-esposo não mais a acolheria. Uma ataque cardíaco o levara. “Ataque não, uma traição cardíaca”, pensava ela. Um coração que resolve te deixar na mão, e de uma vez por todas.

O corre-corre de Daniel nunca fora motivo pra preocupação, afinal todo mundo vive nessa agitação louca, desvairada. Todos correm atrás da vida, parecendo nunca chegar a ela. As ânsias de ter, de poder, ocupam mente e coração da maioria das pessoas. O trabalho ia sempre se esticando em seus horários, sem contar as vezes em que o trabalho vinha ocupá-lo em casa mesmo. “Mas é tudo por uma vida melhor, para nós e nossos filhos”, dizia ele.

O passar de Daniel tornou-se para muitos apenas mais um número na estatística dos jovens que têm um enfarto fulminante. Para Maria Cláudia e seus filhos, uma história de amor interrompida. Para o falecido, uma série de alertas que não foram considerados.

Catarina tornou-se veterinária e abriu uma clínica. Seu irmão, Laércio, resolver seguir carreira como pintor. O sucesso de seus quadros não é grande, mas consegue manter um bom nível de vida com eles. Ambos têm um pacto, firmado alguns anos após o falecimento do pai deles, ao contemplar a mãe adormecida pelo cansaço no sofá. Eles jamais gastariam muito tempo de suas vidas tentando ter mais coisas. A vida é muito curta, e pode ser abreviada, quando decidimos correr à frente do que ela nos proporciona.

Originally published at organizandoletras.blogspot.com.br.

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