Nelson Rodrigues, paixão e morte de nosso tempo

Na pauta desse recém-nascido 2018, dois assuntos rodriguianos: as emancipações femininas (pasmem, na década de 40 isso já era discutido) e a Copa do Mundo de Futebol. As crônicas, os romances, ou as peças de Nelson eram pequenas extensões e retratos morais do brasileiro, redigiam o cotidiano em 15 minutos, antes dos nossos famigerados 15 minutos de fama. Sua posição ‘machista’ dá um certo descrédito (em tempos de politicamente correto, os pecados estão todos tecnicamente antecipados), reacionário por vocação, como dizia. Crítico dos movimentos sociais e profundamente enraizado em seu tempo, ele — mais do que ninguém e acertadamente — já criticava esse ativismo que acha que a História nasce junto com os ativistas, como se tudo isso fosse realmente inédito. Nunca antes na história deste país, dizem.
Numa crônica para O Globo, em 1968, o cronista escreve que ‘estamos no tempo das passeatas estudantis’. Tudo é um pretexto para desfile, segundo ele. O que encontramos hoje não são ecos, mas sim um transportador temporal deste fato. Atualize as temáticas das marchas, e pronto. A indignação está espalhada, e não se dá um passo sem tropeçar nela, complementa. A socialização do idiota, a condenação do cinismo, o espalhafato da cretinice, a criminalização da canalhice ascendeu ao posto de agente subjetivo. Quem diria?
O novelo histórico engoliu o erotismo, culpabilizou a irresponsabilidade e desembestou a humanidade. A pior forma de solidão, segundo ele, era encontrada em quem vivia o sexo sem amor — nossos sagrados tempos líquidos, Bauman. Essa postura reacionária e enfática mobilizava as neuroses e avançava sobre o próprio patriarcado, atestando o grande crime visto por ele: o ser humano se escondeu sob o fato político. Mercantilizaram a vida: a política é a salvação, resolve tudo e tudo se resume a ela. era o fato primordial dessa desumanização nomeada por ele. Assim, os rótulos e movimentos — sejam eles feministas, machistas, entre outros — servem apenas para traficar a existência.
Sua miopia não impedia de enxergar o que estava aí na frente, bem debaixo do seu nariz. A pátria de chuteiras, como chamava, tinha seu aspecto social e democrático no futebol. Os detalhes da partida, tão importantes pra ele quanto a bola, traziam a compaixão, o drama, a tragédia. Os lances compunham o mosaico da vida das pessoas de calção e chuteiras. As luvas que defendiam a bola também aparavam os jornais.
Nelson viu na seleção brasileira e no sentimento irradiado por ela o grande complexo de vira-latas (jargão que se estendeu a outros domínios, posteriormente). Essa inferioridade voluntária que o brasileiro se coloca, como modo de atravancar a desilusão. A humildade humilhada cotidianamente faz parte do dia-a-dia nacional. O triunfo é um abismo vigoroso para o futebol nacional. Em ano de eleição, épocas de movimentos sociais e rolezinhos, o futebol (ópio do povo? Não para Nelson, que detestava Marx) atua como um comprimido milagroso, provoca um enobrecimento súbito de união nacionalista. Será?

O monstro moral chamado Nelson Rodrigues não deixa escapar nada. A paixão e morte deste tempo deve tudo à ele.