O des(a)tino das seduções

Notícias de corrupção, apesar de corriqueiras, ainda parecem inacreditáveis. Além do espanto, esta reação mostra o pedestal onde nos colocamos: a corrupção é sempre do outro, ruim é sempre o vizinho (lidamos com a corrupção com uma ainda pior). “Abaixo do paraíso” (Rocco, 256 páginas), do goiano André de Leones, ficcionaliza essa corrupção — institucionalizada da alma brasileira, na superfície, e coagulada na alma humana depois da Queda, mais profundamente.

Cristiano, personagem central, é um tarefeiro que vive à margem do sistema visível — mas é aquela parte da engrenagem que a permite funcionar sem interrupção. Acontece que, em determinada tarefa, algo sai completamente do plano e ele se vê obrigado a fugir. A partir daí, o romance começa a ganhar outros pesos: Leones, até então, se utiliza de uma linguagem rápida, comedida, para narrar. Forma e conteúdo, aqui, se alinhavam perfeitamente.

Daí, e ao longo do romance, as cenas começam a se demorar mais, e Leones a escavar novos (ainda não vistos inteiramente, mas percebidos)e vertiginosos espaços na alma de Cristiano. Para além das questões familiares (mãe morreu quando era criança, pai fazendeiro que não vê há tempos, um vácuo que atravessa sua relação com a meia-irmã), dos fantasmas do passado e do suspense corporificado em que se meteu — para além de tudo isso, as passagens bíblicas e a formação cristã do personagem dão pistas mais do que suficientes para atestar o drama no qual a linguagem se funde. A culpa, esse veneno ou essa bebida forte demais — como o tempo — começa a talhar a alma. Um rastro de consciência moral, num cenário onde ela foi abolida?

O escritor goiano, então, entrega ao leitor: toda corrupção sugere um caminho eterno, sempre à frente — e sempre há a escolha do próximo passo. As alternativas são sempre de justificativa, e são elas que criam a ilusão de uma curva, de trilhar algo diferente, mesmo quando a escolha é a continuidade da corrupção. Cristiano, e aqui a ressalva, é alguém que não justifica a própria tragédia, que não escolhe render-se à qualquer bifurcação. Pelo contrário: assume seu destino (a despeito da fuga). Ele sabe que o corrompido é ele. Que o “sistema” é uma desculpa. Sua fuga era inevitável, não pelo “sistema” — mas pela própria consciência, e Leones vai costurando isso com os lampejos do passado, as feridas abertas, a culpa, a Bíblia. A pretensa autopreservação, travestida de covardia, apenas sombreia a ambiguidade humana carregada por cada um. E, em tempos de polarização política, é exatamente deste peso que “Abaixo do paraíso” nos lembra.