
Crônica de um hambúrguer orgânico
No dia em que viraria vegano, Chico acordou cedo. Passou os dedos pelos fios do cavanhaque branco e suspirou: “Que calor da porra!” Se sonhou, esqueceu-se e, enquanto passava o café na pia ao lado da cama, encarou o mofo que avançava sob o pé direito do cômodo. Ao sair, ajeitou a gravata, separou o baseado, palitou os dentes e sorriu, pensando que nunca mais voltaria para aquele buraco.
No balanço da condução, foi matutando o plano inteiro com a cabeça recostada no vidro. “É hoje que explodo essa porra”. Junto com toda Zona Leste, foi remoendo decepções quando parou no terminal. Ali, comprou um salgado e ficou encarando a mulata do caixa. Alisando os pelos do rosto, reparou no esquema dos motoristas, que trocavam de turno a cada novo veículo. “Certeza que esse puto não bota o cinto quando tá comendo”.
Ao chegar no hotel em Pinheiros, afivelou as calças, abotoou o paletó e respirou fundo. Na medida que recebia as ordens do dia, percorreu o bolso da camisa atrás de um cigarro. “Claro, Seu Luciano”, emendou guardando o maço. “Isso, isso mesmo. Claro, combinado, dirijo com calma, sim”. Sossegou quando acendeu o fumo e o filho da puta já tinha calado a boca.
Quando ia entrando no carro, o telefone do chefe tocou e, do outro lado, Sérgio queria saber do memorando que enviara ao gabinete. Com veemência, Luciano disparou que não tinha visto o papel, que Arlene limpou o local cedo e que deve ter pego tudo, como combinado. Ainda com a cabeça pra fora, berrou: “Vamo Edu, anda logo aê, ô!”. Ainda se adaptando a nova rotina, após a terceira separação, indicou qual caminho era o ideal para fugir do trânsito no caminho à escola, já que estavam mais do que atrasados. Passando a primeira esquina, Chico indagou:
— Quer que compre algo pro Eduardo comer, Doutor?
— Puta merda, verdade. Passa na padaria aí, fazendo favor.
Quando saia do carro, Luciano recebeu outra ligação. Chico ficou matutando, caçando o baseado e, na hora de dar um tapa no isqueiro, o chefe surgiu puxando a criança e uma sacola de hambúrgueres. Pensou que talvez fosse ideal apagar o cigarro e guardar para mais tarde. Pensou melhor. Deu uma tragada forte e ligou o carro. Apressado, Luciano berrou antes de chegar ao veículo: “Acelera essa porra aê que tô com pressa, vamo.” “Claro”, disse engatando a primeira.
“Eu já cansei de falar que esse negócio é uma grande mentira. Agora, vai chegar o momento em que teremos que escolher entre direitos e desemprego ou menos direitos e empregos.” Aos protestos do outro lado da linha, Luciano deu de ombros, enfiou a mão esquerda na sacola e revirou-a atrás de um sanduíche. Ao alcançar um pedaço, ele estapeou as migalhas no colo e, com um leve sopro, despachou os restos no banco. Chico não parava de encarar o chefe que, naquele instante, estava inquieto com os gestos do motorista. “Bota um sonzinho ai pra gente, meu camarada.”
O filho caçula, que não tirava os olhos do celular, abocanhava o lanche. O pai, mesmo pendurado ao telefone, incomodou-se com o copo de suco de laranja que estava preso ao lado da mochila de rodinhas. O bocal de mamadeira tinha lhe tirado do sério na manhã anterior, quando a ex-mulher apresentou uma solução para o filho desmamar. Decidido a forjar um herdeiro viril, indagou o pequeno, no instante em que tentava alcançar o beiral da bolsa, retirando a mamadeira: “Eduardo, meu filho, esse hambúrguer é orgânico?”.
Ao atravessar a rua, Chico avistou a propaganda do novo sanduíche, 100% orgânico, colado na traseira do circular. Botou logo pra quarta, acelerou com pressa, pra pegar o restinho do sinal verde. Meteu logo a quinta e pensou que estava na hora. Naquele instante, respirou fundo, subiu o vidro que isolava o banco dos passageiros. Aos protestos do patrão, respondeu travando as portas.
— Tava pensando, Seu Luciano, hoje até que é bom dia pra começar minha dieta. — replicou, passando a língua sob os dentes. Ao soltar o cinto, procurou no bolso um último cigarro e acelerou para se encontrar com o 19–770, que liga a Zona Leste com o bairro de Pinheiros.
Na calçada, com a rua tomada pelos pedestres, ouviu ao fundo Oswaldo Montenegro, em um sussurro que vinha do toca disco capotado: “E que o teu silêncio me fale cada vez mais. / Porque metade de mim é abrigo. / Mas a outra metade é cansaço.”
***
*Texto ficcional originalmente enviado ao Concurso Literário Mensal da Revista piauí (Outubro/2019). Era obrigatório a inclusão da frase “Eduardo, meu filho, esse hambúrguer é orgânico?” e do ingrediente surpresa “Oswaldo Montenegro”.
