Debate Bola, mensagens misteriosas, uma estátua e uma viagem quase sem volta

Qualquer ser humano que conheça o mínimo da minha pessoa, sabe que são raríssimas as coisas que gosto no mundo. E quando eu gosto, defendo até o fim. Partindo desse princípio, posso começar a narrar uma das histórias mais malucas da minha vida.

Uma das minhas maiores paixões foi o finado programa esportivo Debate Bola, que era veiculado na Rede Record de Televisão anos atrás, quando o futebol começava a dar seus últimos passos. Chegava da escola, fazia meu prato e corria pra sala assistir e dar risada de Milton Neves e seus comparsas. Acontece que esse amor virou devoção. E a devoção foi um pouco longe demais.

Além de enviar cartas para a produção, uma vez que meu sonho sempre foi participar do programa, tinha um grande número de artigos relacionados com o programa, inclusive fitas VHS com algumas edições gravadas.

O início do que poderia ser o fim

Um (não tão belo) dia, o programa simplesmente saiu do ar. Um pedaço havia sido arrancado do meu eu interior. Aquilo não poderia estar realmente acontecendo.

Comecei a dividir meu tempo entre a escola e o meu quarto. Na verdade, passava mais tempo no quarto do que na escola. Trancado. Sem falar com ninguém. Saía dali apenas para ver meus pais, comer alguma coisa e fumar um cigarro.

Eis que minha mãe achou meu comportamento um tanto quanto esquisito. E um dia resolveu entrar no meu quarto. Agora que a história começa a ficar boa (pra vocês, é claro).

Logo que entrou no quarto, minha amada progenitora deu de cara com uma frase escrita em letras garrafais na parede. A frase em si era assustadora e enigmática: “O GALO MAIS LINDO DO MUNDO ”, ocupando quase toda a parede.

Como desgraça pouca é bobagem, ao olhar atrás da porta, outro jogo de palavras que confundiu demais a cabeça de Dona Diva. Com tinta vermelha, o que se parecia com sangue, estava escrito “CALMA DOUTOR OSMAR, DAQUI A POUCO O SENHOR FALA”. Mas nada, absolutamente nada chocou mais minha família (naquela altura, minha mãe já havia chamado até o Padre da Vila para decifrar o enigma) do que a estátua que encontrava se estrategicamente em cima de um caixão com o escudo do Corinthians. A estátua de uma Morsa.

Alguns minutos depois do choque causado pela Morsa, os presentes se deram conta de duas coisas : o quarto todo estava tomado por mensagens estranhas, tais como “apito amigo”, “EEEEEU?”, “Você não tem Sky ainda?”, “Barcelona das Américas” e muitas outras coisas que deixariam até o Toninho do Diabo com a pulga atrás da orelha. O outro fato assustador é que eu tinha sumido.

Saí pelo mundo. Não deixei aviso algum. E isso preocupou minha família, que apesar de sempre ter me tratado como bola reserva em jogo de futebol (só se lembra quando precisa), começou uma busca desenfreada pelo meu paradeiro.

O que eles mal sabiam é que através de telegramas criptografados, me comunicava com um amigo do Acre. O amigo chamava Vicente Matheus, e nutria a mesma paixão que eu tinha pelo já acabado programa. Alguns até diziam que eu parecia com ele.

Através de uma viagem de trem, ônibus, barco, jangada, bicicleta e cipó (para cruzar o pouco que resta da floresta Amazônica), cheguei até o ponto de encontro.

Neste ponto, minha viagem astral começou.

Ao mesmo tempo que minha família desejava me encontrar e eu já era notícia nacional, fomos parar em 2022. Mais precisamente em uma partida de futebol. E o que eu vi me cortou o coração.

Jogadores com sapatênis ao invés de chuteira. Camisa pólo com a estampa de um cavalo nas costas era o uniforme. A cada jogada, o DJ (não existia mais narrador) gritava para a plateia (não existia mais torcida nem arquibancada, o público se chamava plateia e ficava na pista) gritava “JOGADINHA TOP, GALERAAAA”. Para piorar, os jogadores atuavam com três nomes na camisa, todos parecidos com nomes de Deputado. Meu coração já não aguentava tamanha tortura.

Até que chegou o ponto que eu voltei ao normal e me toquei que isso foi resultado de um ácido muito ruim que eu tomei.

Fim.