168 até Belgrano

Encontrei um lugar perto da janela aberta. O Sol castigava em um verão que a cidade enfrentava sem o refresco da praia por perto. Como eles conseguiam, acreditava que ia descobrir, enquanto isso suava menos que as pessoas ao redor. Ser criado no Rio traz benefícios como esse. Tudo bem, sua cidade vai ser reconhecida assim que pedaços de seu nome saem de sua boca — se pronunciados corretamente — seguido de suspiro e um elogio a um lugar que, mesmo sem conhecer, encanta as pessoas. Temos mais que Iemanjá abençoando a cidade. Em pouco tempo o ônibus lota e a proximidade é inevitável. Tudo bem, quem nunca pegou um 485, um 474 ou até mesmo um 125 (que descanse em paz) lotado, sem ar condicionado no trânsito que não é cartão postal e por isso não vira realidade para o mundo? Poderia estar lá agora, mas estou aqui. As pessoas dividem o encosto, se esbarram as mãos e os quadris se tocam. Podia ser um tango, mas essa dança da rotina não vira cartão postal também.

Levo dois livros de autores argentinos na mão. Gostaria de viver disso e parar de ter que me preocupar com o dinheiro e o próximo prato de macarrão. Comeria contos, mastigaria romances e me embebedaria em poesias. Um pode sonhar. Penso em que legume enlatado comprarei para dar sabor ao molho de tomate. A barriga pede comida e já passaram das duas da tarde.

Ao meu lado, uma argentina que daria uma boa carioca. Sem tirar os olhos do celular durante a viagem. Digita, para, volta, apaga, digita de novo. Sem o espaço para abrir um dos livros, com os braços fechados em frente ao peito, equilibrando-me a cada freada me resta olhar ao redor. Os mesmos olhares, testas suadas e mãos firmes segurando o mastro. Poderiam ser brasileiros indo e voltando do trabalho. Não compartilhamos só a ditadura com os vizinhos, mas as cicatrizes e penas que marcam o dia a dia dos cidadãos até hoje. Um menino de chuteira laranja, short branco e camisa roxa. O futebol respira por aqui.

Por fim, meus olhos são atraídos pela tela do celular. Vejo por cima dos ombros e antes da orelha de brinco simples vermelho da argentina carioca. Trava nas palavras e faz solavancos. Seu texto começa a tomar forma e fico ali, lendo minha primeira escritora argentina. Foco. No começo me sinto mal por estar tão vidrado na vida alheia, mas é arte. Vai, você consegue, vibro a cada vírgula e ponto colocados. As palavras fazem a torcida levantar.

Mais pessoas entram e o motorista tem observadores do seu lado em frente ao vidro. A ausência de catraca contribui para mais pessoas estarem dentro da máquina. Pego meu celular e ele não encontra onde estou no mundo. Olho pela janela e para variar, todos os nomes estão em espanhol, posso ter me perdido no texto, mas creio que ainda estou em Buenos Aires.

É um encontro cheio de sentimentos. Tenta descrever o abraço apertado, o brilho do momento, as coisas ao redor. Há sentido, sem buscar um destino, um ponto final. As palavras a enganam e são deletadas depois de segundos as encarando naquela ordem. Sofrem o mesmo destino. Deletadas uma por uma. Algo que tomava forma, faria sentido, mesmo que só para ela. Nessa hora, o celular a ferramenta tão inteligente que o ser humano já não consegue viver sem, toma a mais burra decisão de funcionar corretamente e apagar o texto.

Dá vontade de cutuca-la e falar para continuar. Sacudir até que as palavras que haviam tomado forma saiam de sua boca e que seja compartilhado com todos naquele ônibus. Tornaria a viagem mais agradável. Ela prefere guardar para ela, onde provavelmente ficarão até serem esquecidas. As cores de uma manhã de segunda-feira que foram diferentes, o calor vindo de outra pessoa tão aconchegante e não do Sol opressor, o sentimento que começa na barriga e traz ânimo subindo pelo corpo até formar-se um sorriso difícil de quebrar. Minha primeira autora argentina mal tinha começado e já havia desistido, não teria que correr atrás de uma editora que a apoiasse com os textos debaixo do braço e nem subiria no palco para receber seu prêmio Nobel. Pegaria na terça um ônibus cheio como aquele, torcendo para ter dias como uma segunda inesperada no final de janeiro. 
 
 Uma mensagem chega no celular. Ainda olho a tela na expectativa de um botão saltar dando a possibilidade de desfazer o momento que o texto foi apagado. A pessoa a pergunta “como fue?”. “Fue lindo”. E assim, algo que deve ter sido verdadeiramente lindo, pronto para ser compartilhado, se resume a duas palavras. Duas míseras palavras de oito letras. A autora argentina tornou-se pragmática.

Ela sai do ônibus e depois de duas paradas há espaço para se sentar. Fico mais à vontade e agora tenho espaço para abrir os livros. Os deixo fechados e só torço para que suas páginas carreguem sentimento não apagado.