Um pedaço de pano, uma cabeça e Sete Lagoas.

Sete reais e vinte e cinco centavos, me custou uma tira de pano, que o valor para um metro é avaliado em quinze reais. Uma tira de meio metro de pano xadrez enrolado na cabeça. Apenas. Ontem foi a primeira vez que usei um turbante na vida_ fato esse que não deveria, talvez não seja, um dia memorável, afinal simplesmente coloquei algo que me fez sentir bem. Assim que de frente a câmera do computador, usando-a de espelho, conseguiu organizar o tecido da forma mais ‘’harmônica’’ que consegui, decidi então adotar o turbante como parte do meu estilo (estilo de raiz cultural, não de moda). Me senti bem. Gostei. Combinava com a anatomia do meu rosto. Estava meio desajeitado_ bom demais por ser o primeiro, então era perfeito! Mas o que mais me incomodou durante TODO esse dia, que deveria ser um dia como qualquer outro, foi a reação das pessoas ao verem um ser de outro mundo que estaria quebrando imensas barreiras ao usar um pedaço de pano. Foi isso que pareceu. Um pedaço de pano xadrez_ inofensivo e que não morde_ foi capaz de deslocar olhares de motoristas em plena manobra em trânsito intenso, foi capaz de mover o corpo de senhoras, antes inertes que, da porta de casa, ficam sempre a observar o movimento na rua e foi capaz até de fazer com que as pessoas conversassem comigo não olhando nos meus olhos e sim para a minha cabeça. “Mas hoje em dia tem homem usando até coisa de mulher” sim, o pedaço de pano de 50cm X 94cm ganhou gênero, só podia, a partir daquela fala, ser usado por mulheres. Em muitos momentos senti como se estivesse em uma imensa passarela. Como se incomodasse os olhos, como se fizesse arder às pupilas. ‘’será que fiz muito de mau gosto por esse turbante?’’ ‘’será que está mal amarrado?’’ ‘’será que tá caindo e estão rindo do meu cabelo amaçado por baixo?’’. Não. Por fim descobri que o problema não era comigo. Não era com o pano. Não era com meu turbante e com a forma que escolhi prender. O problema era com o que eu estava representando e como que a minha imagem, naquele momento, ia contra o que muitos tem como ‘padrão’. Depois dessa reflexão, não mais me incomodei. Decidi continuar andando normalmente e incomodando olhares. Sou negro, com espinha na cara, barba por fazer e um pano barato na cabeça, se isso te causa algum estranhamento, meu querido, você precisa seriamente olhar para dentro de você e encontrar o que está te fazendo tão mal. O problema é contigo.

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