O Canto da Cigarra em sinfonia, relembrou aqueles dias que não voltarão jamais…
Quem diria, que na mesma semana em que eu fui ver quando ia visitá-lo, depois de anos sem conseguir ir nele, ele me aprontaria uma dessas?
O Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, o Paço de São Cristóvão, sede de governo do Brasil durante o Império, e casa da Família Real Portuguesa e Brasileira, sofreu de um devastador incêndio na última noite, dia dois de setembro, data em que uma de suas moradoras mais ilustres, Dona Leopoldina, assinou a declaração de Independência do Brasil, após a reunião ocorrida num dos aposentos desse magnífico lugar, do conselho de ministros da época.
Após servir de moradia e sede do Governo Imperial, a República levou alguns de seus bens aos colecionadores particulares, e levando as diversas coleções pessoais do Império, muitas localizadas no então Museu Real, para o Palácio da Quinta, o transformou em Museu Nacional.
Ali, em 1946, se juntou com a UFRJ, possibilitando a estudantes da instituição a estudar também naquele local que continha um dos maiores acervos históricos, etnográficos, mineralógicos, zoológicos, paleontológicos, da América Latina e do Mundo.
Ali foi o lar de Luiza, da cantora do Templo de Amon — a múmia mais famosa da mistura do Brasil com o Egito, de dinossauros de sangue verde-e-amarelo, de animais da megafauna brasileira, de imagens gregas belíssimas, agora, a grande maioria pedaços de escombro e cinzas.
Com o descaso de governos, a situação do Museu que guardava histórias da História do Brasil e do Mundo é agora de cinzas. O fogo lambeu traços de arquitetura, páginas da história universal, ossos de nossos ancestrais, materiais vindos do céu. O fogo conseguiu destruir o que a lava se esforçara para apagar em Pompéia e Herculano, num dos maiores desastres da história da humanidade; e a queda de tetos e paredes, quebrou meteoritos, ossos de esqueletos completos de animais viventes e outros que só temos ideia na nossa imaginação. São todos objetos de pesquisa que nunca mais serão levadas adiante.
Ah, somos um povo que sente, mas que também se ressente, de não ter dado mais chances a história ali guardada. Que tantos se esforçaram para manter, mas que muitos insistiram em cagar, até o descaso total. O fogo que queimou mais de duzentos anos de edifício e milhares de história é o inferno da realidade brasileira em relação a tudo, em especial a sua cultura, sua história, sua educação, seu patrimônio.
Quantos não vão poder aproveitar um dia de lazer, vendo o pterossauro ou a preguiça-gigante? Os meteoritos e meteoros? As coleções pré-colombinas? Grande parte da história de um país jogada ao vento do esquecimento de vez, é isso que assistimos. É a dor de ver que a ciência não é o apreciada por muitos, e que vários nem ligam para a dor que eu, e vários estamos sentindo, muitas vezes causada por não ter visitá-lo mais vezes, ou o divulgado mais.
Pra mim, esse dia me marca com o seguinte legado: falar mais sobre os museus, suas atividades, seus objetivos. O museu é público, e deve ser sempre, sim, pois ali está o retrato de um povo, o acesso deve ser o mais facilitado possível.
No quintal que a Quinta é, sempre foi, e espero que continue sendo, que possamos ver que a nossa história é frágil, e que devemos defender os que querem protegê-la para o futuro, pois sem olhar pra trás é impossível construir o pra frente.
Hoje porém, somos uma nação sem boa parte da nossa história, de novo, relegada ao vento do esquecimento, que levou as cinzas da matéria que construiu esse país.
Para encerrar, uma foto de Dona Leopoldina com Dom Pedro II, e Dona Maria II de Portugal, que eu tirei ano passado, numa vista a Quinta e ao Museu, sendo que a segunda infelizmente não ocorreu na época, além de um link para o desfile desse ano da Imperatriz Leopoldinense sobre o Museu.

