A Fita Cassete como Objeto Simbólico no Punk

Antropologia, Ética e Gestão - Produção Fonográfica - Universidade do Vale do Rio dos Sinos — UNISINOS

São Leopoldo, RS, 2015

Matheus Osorio Goelzer

Introdução
Na segunda metade da década de setenta o Rock mundial fervilhava com sua mais nova criação: o Punk Rock. Derivado das bandas mais politizadas do final dos anos 1960 como The Stooges e MC5, o Punk estabelecia novos padrões musicais para uma época em que o Rock caía no ostracismo. Saindo diretamente de garagens e pequenos clubes encardidos de Londres e Nova York as bandas Punk traçavam inovadores rumos para a cultura popular, tendo o público jovem como seu aliado. O discurso político renovador, as guitarras distorcidas e o ritmo pulsante da bateria eram a marca registrada deste novo estilo musical. Mas isso não era tudo, desde seus primórdios o Punk Rock parecia ter algo mais, ir mais fundo no estilo de vida do indivíduo do que outros gêneros (assim como o Heavy Metal). O visual chocante era algo que fazia parte da cartilha Punk: jaqueta de couro, jeans rasgado, piercings, moicanos coloridos. Bem como a filosofia do “do it yourself” ou faça você mesmo, que comandava as ações de contracultura promovidas por Punk Rockers. 
Ramones, The Clash e Sex Pistols foram a tríade que consolidou o Punk na cultura pop ainda nos anos 1970, difundindo ideais compartilhados com o público através de música. Artistas que ainda hoje são cultuados e reverenciados por um número de seguidores que só faz aumentar. A velocidade sonora, panfletagem política inflamada e a irreverência sarcástica conquistaram o underground — em muitos casos o mainstream também — que logo se multiplicou em novas bandas, bares, fanzines (revistas confeccionadas de forma artesanal a partir de colagens e fotocopiadas, geralmente em baixa tiragem, muito populares no meio underground), artistas, promotores de eventos e o que mais fosse necessário.
Ao final da década o movimento já havia se tornado extremamente popular cruzando fronteiras culturais, étnicas e sociais. Jovens no mundo todo formavam bandas em garagens, gravavam fitas demo e lançavam discos independentes se autofinanciando. O que veio a se intensificar nos anos 1980 por meio de um subgênero: o Punk Rock gerava o Hardcore. À medida que a popularidade do estilo crescia com seus principais nomes (a partir de aparições na televisão, músicas veiculadas no rádio, gravando discos para gravadoras maiores e fazendo turnês internacionais), parte do público sentia que isto não mais os representava. Os ideais políticos e antissistema ficavam para trás, o contato direto com seu público fiel parecia não ser mais viável.
Ainda por volta de 1977/1978 na Inglaterra, bandas uniam a filosofia inicial do Punk com ideologias políticas mais fortes, colocando o anarquismo libertário junto ao cenário de coletivos culturais, selos independentes, comunidades auto sustentáveis, ocupações de espaços públicos abandonados — onde, muitas vezes, os membros das bandas viviam e organizavam eventos. Deste contexto surgiu o Hardcore Punk (Hardcore — do inglês, hard=duro / core=núcleo) representado por artistas que protagonizaram um enrijecimento do sistema nervoso do Punk Rock.
A principal forma, ao menos inicialmente, de registro e divulgação destas músicas e ideias era através de fitas cassete. Com gravadores simples, um microfone captava uma banda inteira na sala de ensaio. Essa gravação era multiplicada uma a uma e as fitas eram espalhadas pela banda em shows e enviadas por correio para outras cidades, estados e até mesmo outros países; criando um costume dentro da cultura Punk/Hardcore da troca de fitas entre artistas e fãs.
O fato curioso é que com o passar dos anos, o advento de novas mídias e formatos que suportam música fisicamente não fez com que a produção caseira de fitas cassete diminuísse. Novas bandas que surgem nos dias de hoje ainda utilizam o K7 para gravar ensaios e apresentações ao vivo que são mercadoria de troca na cena underground mundial. Não é estranho visitar a página da internet de uma banda de Hardcore Punk dos anos 2000 e na sessão de discografia, encontrar apenas títulos em vinil e cassete. Ao velho estilo anos 80, bandas novas continuam fieis ao costume do material físico analógico de LP’s e K7’s.
Em um universo de lançamentos virtuais, streaming e mp3, um grupo que constitui uma importante fatia na produção de cultura popular e tem por opção utilizar formatos de mídia que a própria indústria fonográfica tomou por ultrapassados, merece ser alvo de um estudo e observação com maior afinco. O que há por trás de manter vivo um tipo de veiculação musical que grande parte das pessoas acredita estar extinto e foi a muito abandonado por artistas de grande porte? Quais as intenções das bandas do underground em lançar material em fitas K7? Existe uma razão especial que justifique este fim? O que isso representa no contexto do homem como animal simbólico? Com auxilio dos estudos de Carl G. Jung e Ernst Cassirer sobre a criação de símbolos pelo homem e a representatividade destes em sua cultura, este escrito busca identificar estas questões e definir seu papel no contexto social deste movimento de contracultura.

Desenvolvendo simbolismos na cultura Punk
No início da década de 1980 o movimento Punk crescia no Brasil com o surgimento de bandas locais e lojas de disco que importavam mercadoria da Europa e Estados Unidos. Devido ao custo alto das importações, muitas vezes, os estabelecimentos recebiam apenas uma ou duas cópias de cada disco, o que gerou uma resposta por parte do público que não tinha acesso ao título específico que procurava: as cópias caseiras em fita K7. O mesmo acontecia no resto do mundo, quando nessa situação — aquele disco raro ou desconhecido acabava se transformando em dezenas de fitas que se espalhavam pela cena. Muitas bandas estrangeiras se popularizavam dessa forma, através de uma pirataria inocente, pode se dizer.
Também neste mesmo cenário musical, porém ainda na década anterior, as fitas demo (demonstração) eram utilizadas pelas bandas para divulgar seu material. O baixo custo do processo (um pequeno gravador, algumas fitas e capas fotocopiadas) facilitava a produção independente — do it yourself — de material fonográfico, que poderia ser gravado nas próprias salas de ensaio das bandas, copiado no toca fitas de um amigo e vendido nos shows em que os grupos se apresentavam. A pessoa que comprasse uma fita dessas em um show poderia muito bem copiá-la em sua casa e passar a cópia adiante; na verdade, esta prática era até mesmo encorajada pelas próprias bandas. Este se tornava o principal canal para registro de artistas em início de carreira que almejavam oportunidades na cena local ou ainda um contrato com alguma gravadora mediana para o lançamento de um LP.
O Punk Rock sempre carregou em seu contexto político-musical um enorme senso libertário que se manifesta simbolicamente em todos os aspectos deste estilo de vida, desde a maneira de vestir até a alimentação. A linguagem simbólica manifesta no interior da subcultura traz consigo um repertório vasto que vai dos logotipos de bandas estampados em camisetas e capas de álbuns, até políticas de organização e hierarquia social — política anarquista, igualdade de gênero, pacifismo, direitos dos animais, etc. Não poderia ser diferente no que diz respeito à produção musical, afinal este deve ser o elemento mais importante de um grupo cuja finalidade é produzir música. Os anos passam e a fita cassete se mantém viva dentro deste cenário, obtendo lançamentos luxuosos de selos independentes e sendo, muitas vezes, a primeira opção de formato de lançamento físico por parte das bandas.

O que chamamos de símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida cotidiana, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós. (JUNG, 2008, p.18)

O comportamento simbólico dentro das subculturas urbanas se manifesta das mais diferentes formas: vestuário, gírias, alimentação, orientação política e religiosa, etc. E pode muitas vezes estar atrelado a um objeto representativo: um objeto que carrega uma série de significados ocultos que não são, ou não necessitam, ser explicados, devido à suas características de linguagem metafórica — linguagem, que nas palavras de Ernst Cassirer, é metafórica por sua “natureza e essência”. No Punk acontece exatamente assim. Uma destas formas é a fita cassete que traz uma carga simbólica histórica de décadas, em que artistas independentes abriram caminho e construíram um cenário forte que se espalhou pelo mundo tendo a K7 como uma de suas principais armas — as já mencionadas cópias caseiras. O que não retira sua qualidade prática; a natureza de seu propósito como mídia física que carrega áudio.
Cassirer apresenta também um conceito que ajuda a entender porque nós seres humanos, criamos símbolos e o que é que tentamos dizer através dos mesmos. Esta ideia de homem como animal simbólico explica que o universo de símbolos do homem (linguagem, artes, mitos, religiões, etc.) o diferencia dos demais animais e facilita a sua comunicação com seu semelhante e com o meio. Por meio da forma simbólica de comunicar-se “o homem descobriu, por assim dizer, um novo método para adaptar-se ao seu ambiente”. (CASSIRER, 2005, p. 47). Por meio de sua inteligência prática e teórica, este homem simbólico é capaz de atribuir significados a estes símbolos e interpretá-los individual e coletivamente, dentro de um contexto. Tomemos como exemplo uma cadeira, objeto criado pelo homem para um determinado fim. Quando um homem do ocidente se depara com o mesmo objeto no Japão, este homem continua sabendo o que é uma cadeira, para que ela serve e onde se aplica o seu uso. Ao observar uma sala de espera repleta de cadeiras, sabe qual a finalidade de tal ambiente. Isso só é possível devido ao fato de a cadeira ou algum objeto semelhante que tenha o mesmo propósito, sentar, estar inserida no contexto de vida cotidiana do homem em todas as partes do globo. Dentro do cenário Punk/Hardcore o comportamento simbólico em relação às fitas K7 acontece de maneira semelhante ao exemplo da cadeira. Não há necessidade de explicação dentre as pessoas do meio, cada vez que uma banda lança material em fita, o significado está inserido no inconsciente coletivo, o que Carl G. Jung definiu como “arquétipos que carregam imagem e emoção, como parte da experiência pessoal”. As fitas cassete fazem parte deste nicho desde seu surgimento, desempenham sua função de acordo, portanto, não há necessidade para maiores questionamentos.
A questão da relação do indivíduo com seus símbolos e sua interpretação deles está diretamente ligada à bagagem cultural deste indivíduo; suas experiências, relacionamentos, sentimentos desde a infância, que constroem caráter e personalidade afetam a forma como o homem interpreta o mundo, logo, como vê os símbolos criados ou quais símbolos vai criar ou adotar ele próprio. Numa forma de organização social como se tem hoje, o curso natural é que os indivíduos que possuem características em comum concentrem-se próximos, em tribos, associações, comunidades, etc.. Dentro destes coletivos sociais encontra-se uma quantidade indeterminada de símbolos com suas respectivas representações que auxiliam no entendimento de como funcionam e, também no andamento sua mecânica interna. No simples ato de observar um símbolo isolado — neste caso a fita cassete — espera-se que ele traga algo de explicativo e conceitual sobre o grupo a que faz parte, propiciando para o observador de fora um olhar mais aproximado. “Tal como todas as outras formas simbólicas, a arte não é uma simples reprodução de uma realidade dada pronta. É um dos meios que levam a uma visão objetiva das coisas e da vida humana. Não é uma imitação, mas uma descoberta da realidade”. (CASSIRER, 2005, p. 234)
O Punk é um gênero que, necessariamente, não depende das tendências do mercado fonográfico, de patrocínios de grandes empresas, suporte de gravadoras multinacionais, circuito de shows mainstream e outras conveniências das quais se valem tantas outras vertentes da Música Pop. A comercialização de material físico em fita é apenas uma escolha e não a única opção. Não se restringe a ser a uma alternativa isolada para uma banda iniciante — prova disso é que hoje em dia gravar um demo em CD-R é muito mais viável do que produzi-lo em fita — porém, a K7 carrega muito mais significado para o cenário Punk Rock/Hardcore do que o formato CD. O aspecto histórico, já discutido, de quem foi pioneiro em uma época onde não havia as facilidades da internet (acesso rápido à informação, atalhos para a comunicação entre pessoas em continentes diferentes, com interesses afins; etc.) está totalmente ligado a este objeto. A qualidade de áudio, por exemplo, quando comparada ao CD, é claramente inferior, porém, nem isso não é determinante, já que o veículo que transporta a ideia é tão importante quanto a ideia em si.
O olhar de mundo à luz do que Cassirer descreve, é um em que os animais percebem o meio através de seus instintos, enquanto o homem o faz desenvolvendo um universo particular através dos simbolismos correlacionados com esta percepção da realidade, daí vem a passagem do animal racional para o animal simbólico. Os animais, em sua maioria, possuem um círculo funcional em que um “sistema receptor” capta os estímulos do meio e um “sistema efetuador” que reage a estes estímulos. O homem, em contrapartida, além de receber estímulos e reagir a eles, também os considera, reconhece a existência destes símbolos. À medida que entra em contato com um destes estímulos — durante o processo de reação e após — passa a considerar este estímulo, atribuindo-o um significado. A partir destas experiências cognitivas é que surgem os símbolos. A fita cassete não foi utilizada pela primeira vez dentro do Punk, entretanto, quando foi, repetidas vezes com o mesmo intuito passou a representar algo; passou a carregar um significado simbólico identificado inicialmente com aquela cultura. Algo semelhante com o que Carl G. Jung chamou de “símbolo de transcendência” que caracteriza um aspecto catalizador do potencial do homem em relação a algo que o limita, através de um símbolo.

Existe, no entanto, um outro tipo de simbolismo que faz parte das tradições sagradas mais antigas e que está também ligado aos períodos de transição da vida humana. Esses símbolos não buscam integrar o iniciado em qualquer doutrina religiosa ou, em uma forma temporal de consciência coletiva. Ao contrário, relacionam-se com a necessidade que o homem tem de se libertar de qualquer estado de imaturidade demasiadamente rígido ou categórico. Em outras palavras, esses símbolos dizem respeito à libertação do homem — ou à sua transcendência — de qualquer forma de vida restritiva, no curso da sua progressão para um estágio superior ou mais amadurecido da sua evolução. (JUNG, 2008, pág.195)

Assim, percebemos que o símbolo propriamente dito e “o princípio do simbolismo, com sua universalidade, validade e aplicabilidade geral, é a palavra mágica, o abre-te sésamo que dá acesso ao mundo especificamente humano, ao mundo da cultura humana.” (CASSIRER, 2005, pág. 63). A existência de material simbólico produzido pelo homem e “a história do simbolismo mostra que tudo pode assumir uma significação simbólica: objetos naturais ou fabricados pelo homem.” (JUNG, 2008, pág.312). É através da observação aproximada de um símbolo apenas (seja qual for, objeto ou não), que esteja ligado a uma cultura específica, pode-se obter uma quantidade de conhecimento suficiente para traçar uma linha do tempo desta cultura. Tal forma de organização de tempo e espaço é necessária a fim de atingir um entendimento maior sobre seu passado, facilitar a comunicação com o presente e sinalizar aspectos de relevância relativos ao futuro. Como objetos milenares descobertos por arqueólogos em escavações, os símbolos de uma cultura não servem apenas para o grupo que os cria e utiliza, pelo contrário, são de grande valia para quem os estuda sob um ponto de vista imparcial como observador à distância.

Conclusão
A fita cassete como objeto simbólico da cultura Punk traz em si o espírito de liberdade que habita o underground desde sempre. Quando, ao adotar uma estética musical que não se molda aos padrões que são estabelecidos pela indústria fonográfica, dá-se margem para a anarquia — no verdadeiro sentido do termo — na forma de lidar com esta estética, na autonomia sobre o material fonográfico. Não há razões que se justifiquem para o não uso do formato de mídia em fita. Se os principais nomes do mercado musical não mais disponibilizam seu material nesta mídia, isto pouco importa para uma banda Punk; se lojas do meio não comercializam K7’s hoje em dia (com exceções às lojas especializadas e de artigos de segunda mão), não faz diferença para quem busca total controle sobre seu produto e seu processo de venda.
Há muito mais intrínseco numa fita K7 do que sua mera utilidade funcional: revela-se o seu caráter transcendente, que liberta o usuário da obrigação de seguir uma predeterminação. Um selo, ao lançar uma fita de uma banda independente, está carimbando sua qualidade de realmente “ser independente” no mercado, de ter um veículo de comunicação tão revolucionário e contestador quanto as ideias que ele transporta. Como em uma espécie de ritual, passos são dados e decisões são tomadas de uma forma específica e não ao acaso. Desta forma o Punk Rock se enquadra no mundo como uma expressão cultural que vive no subsolo da música pop, se relaciona com ele, e ao mesmo tempo independe do que acontece na superfície.
O Punk surgiu com o intuito inicial de que qualquer um poderia formar uma banda e se apresentar diante das pessoas; fazer música autoral e transmitir uma ideia; falar sobre aquilo que era a sua realidade e seus problemas diários. E com isso, torna-se imprescindível que as bandas sejam ouvidas, não importando como. O conteúdo precisa chegar ao ouvinte da maneira mais rápida e objetiva. A fita cassete desempenhou este papel no início e mostra ser ainda capaz de fazê-lo no momento atual. Com o passar dos anos e a modernização dos processos de gravação a K7 não perdeu sua força entre o Punk e o Hardcore, continuou sendo símbolo de liberdade de expressão e autonomia musical diante de todos; de uma despreocupação em seguir moldes e métodos simplesmente por seguir, com exceção dos seus próprios — os que fazem parte da identidade do estilo. Nada mais apropriado que um formato de mídia marginalizado e esquecido pela indústria para representar com perfeição a ideologia por trás de um gênero musical que foi durante muito tempo — e em alguns casos ainda é — estigmatizado pelas massas.

Referências bibliográficas:
CASSIRER, ERNST. Ensaio Sobre o Homem — Introdução a uma Filosofia da Cultura Humana. Martins Fontes. São Paulo. 2005
JUNG, CARL G.. O Homem e Seus Símbolos. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira. 2008