Fazendo Discos com Dischord Records — A Visão de um Selo Independente como Alternativa ao Mercado Corporativo

Projeto de Pesquisa — Produção Fonográfica — Universidade do Vale do Rio dos Sinos — UNISINOS

São Leopoldo, RS, 2015

Matheus Osorio Goelzer

Resumo: O estudo de caso a seguir tem como objetivo esboçar uma breve contextualização do mercado independente a partir das práticas e do olhar singular apresentados pelo selo norte-americano de punk rock Dischord Records. Com breve contextualização histórica e definição do que é um selo independente, o texto parte em busca de identificar as principais características e funções de um selo independente, dentro da ética D.I.Y. (faça-você-mesmo), e, mediante a apresentação de fatos históricos, pesquisas em livros, artigos científicos e entrevistas, demonstrar as razões e finalidades que os fazem atuar no mercado independente da maneira que atuam e que justifiquem sua longevidade no cenário.

Introdução

Diante do atual quadro do mercado fonográfico, em que grandes corporações se veem forçadas a uma adaptação aos novos moldes de negócio para que possam continuar em atividade, uma grande parcela deste segmento da indústria segue em um caminho paralelo, também se adequando a essa nova realidade: os selos independentes. Se valendo de práticas do mercado informal, tanto quanto de técnicas utilizadas por grandes corporações, os selos independentes constroem uma trajetória na história da música quase alheia ao formato ortodoxo de negócio de uma grande gravadora.
Podendo traçar a origem da música independente nos moldes de hoje, para a década de 1950 com empresas como a Sun Records — que impulsionou as carreiras de Elvis Presley e Johnny Cash, por exemplo — as técnicas, ou maneiras de comportamento que adotavam diante de um mercado que os fazia parecer insignificantes, foram reproduzidas e reinventadas de maneira marcante na década de 1970 com o surgimento do Punk Rock e mais tarde, nos anos 1980 e 1990, de maneira ainda mais impactante dentro do mesmo nicho cultural com selos fortes que já possuíam uma rede de seguidores muito maior e se estende até os tempos atuais.
Dentro deste contexto de selos independentes e seu posicionamento no mundo fonográfico este artigo tem como objetivo identificar as principais características e funções de um selo independente, através das práticas dentro da ética D.I.Y. (faça-você-mesmo) do selo norte-americano de Punk Rock Dischord Records, procurando, mediante a apresentação de fatos históricos, pesquisas em livros, artigos científicos e entrevistas, demonstrar as razões e finalidades que os fazem atuar no mercado independente da maneira que atuam e que justifiquem sua longevidade no cenário.

1. Definição e contexto histórico do mercado fonográfico independente.

“I want to stress the ability of cultural practices to resist — not necessarily to change — the larger structures they rebel against .” (MATTSON, 2001, p. 72).

1.1 Distinção entre independentes e majors.
“The recorded music industry is typically divided into two segments: major and independent (a.k.a., indie). All record labels fall within one of those two broad categories. ” (HEARN, 2009, p. 114). As palavras encontradas no estudo de James E. Hearn, The Representation of Major and Independent Record Labels in Billboard Magazine, nos expõem uma definição de “indústria da música gravada” onde os selos se dividem entre independentes e majors e acomodam-se, de uma forma ou outra, dentro destas vastas categorias. O autor ainda os diferencia por: “tamanho corporativo e econômico” e o “grau de controle sobre suas operações” (BASKERVILLE, 2006). Afirma também que as grandes gravadoras são geralmente conservadoras no que diz respeito a negócios e são orientadas por “regras severas” e pelo “potencial de vendas” (2009, p. 114). No entanto, deixa um pouco vago o papel de um independente nesta conjuntura, sugerindo que este papel seja simplesmente o inverso de uma gravadora major. Tendo esta teoria como base, que expõe uma definição para “selo independente”, seguimos com uma observação mais aguda ao universo de um selo fonográfico que não se enquadra no grupo das grandes corporações, no entanto utiliza de algumas táticas da indústria fonográfica formal para criar identidade própria e verve precursora no mercado de nicho do Punk Rock.

1.2 Contextualizando o mercado independente.
Os selos independentes tiveram grande impacto na música popular, principalmente, através do advento do Rock N’ Roll nos anos 1950. Desempenhando um papel de extrema importância e coragem ao investirem seu baixo orçamento em artistas locais de pouca ou nenhuma expressão que na maioria dos casos, não davam o retorno financeiro que lhes era esperado. Em grande parte administrados por um ou dois sócios — que frequentemente exerciam as funções de operador de áudio, produtor musical e executivo (entre outros encargos administrativos) — os pequenos estúdios de gravação ofereciam serviços rápidos e a baixo custo, o que era um grande atrativo para artistas locais que estavam iniciando uma carreira musical e necessitavam de um registro de seu trabalho. (CHAPPLE. 1977).
Neste período de popularização do Rock, um caso em particular ajuda a exemplificar o papel de um selo independente neste período: a gravadora Sun Records. Fundada em 1952 por Sam Phillips em Memphis, Tennessee, a pequena empresa começou como um mero estúdio de gravação chamado Sun Studios, onde qualquer um poderia entrar, e com apenas alguns centavos, gravar uma canção e sair com uma cópia em acetato . Foi o estúdio responsável pelos primeiros registros oficiais de artistas que mais tarde seriam mundialmente conhecidos, como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Roy Orbison, Carl Perkins e Johnny Cash. (WARD. 1986). 
Sam Phillips deu início a uma série de práticas que posteriormente seriam imitadas por muitos outros selos de pequeno porte. Registrava a performance dos artistas, produzia uma tiragem limitada de singles — ou E.P.’s e os vendia na entrada dos shows, por um preço baixo, direto do porta-malas de seu carro. Essa prática era comum nos shows de Rock da segunda metade dos anos 1950 e garantiam boa parte da renda dos estúdios da Sun. Com o passar do tempo e o enorme sucesso dos artistas que saiam de sua gravadora, a Sun Records passou a vender os direitos de distribuição para grandes corporações, a fim de atingir um público maior e mais distante — como no caso de Elvis Presley e seu contrato de gravação que foi vendido para a RCA Victor (CHAPPLE e GAROFALO, 1977). Ou seja, ainda eram responsáveis pela gravação e produção do artista que estava em fase de transição — do anonimato para um princípio de fama nacional. No entanto, estes artistas como os já citados Elvis Presley e Johnny Cash, realizavam uma quantidade tamanha de shows e obtinham tantas veiculações em rádio que a gravadora independente não era capaz de atender a demanda pelos discos. Nesse contexto entravam as gravadoras maiores atuando como distribuidoras: compravam os discos produzidos — ou simplesmente as fitas máster — pelo selo menor e os levavam aos lugares mais remotos do país.
O fenômeno deste novo estilo musical foi tão grande na época que alguns destes pequenos produtores de discos garantiram fartas aposentadorias com a venda de direitos sobre as músicas gravadas sob sua supervisão, a empresas de renome e marca internacional. O efeito estimulante que arrebatou gerações de indivíduos empreendedores nas décadas seguintes, deu início a uma espécie de “costume” — dentro do Rock e seus tantos subgêneros e ramificações — que foi a criação de selos independentes em qualquer canto do mundo onde se pudesse identificar um cenário musical local. Onde havia um cenário musical em ebulição, certamente surgiria um selo independente para colocar o material destas bandas à disposição do público. Não podendo ser diferente, cerca de 20 anos mais tarde, com o surgimento do Punk Rock: selos independentes se formavam quase tão rápido quanto as bandas; muitas vezes, os membros de um grupo musical davam início a um pequeno selo para lançar o próprio material ou dos demais artistas do circuito ao qual pertenciam. “They are usually started by musicians who have no other outlet for releasing their music, and those musicians proceed to record and distribute the music of other bands they know in their local scene. ” (MOORE, 2007, pg. 21).
Esse é o caso do Dischord Records (Fig. 1), selo independente de Punk Rock com um imenso catálogo de discos e uma reputação invejável neste meio. Formado por Ian MacKaye e Jeff Nelson em Washington D.C. no ano de 1980, após sua primeira banda — Teen Idles — ter encerrado suas atividades. Com uma curta carreira (menos de dois anos) e apenas uma fita K7 grosseiramente gravada, MacKaye e Nelson concluíram que para finalmente ter o material oficial de sua banda lançado, teriam de fazê-lo eles mesmos, afinal era exatamente isso que o Punk lhes ensinara: quando não há alternativa só lhe resta cria-la você mesmo. Não desconsiderando a quase total ignorância dos parceiros quanto a qualquer conhecimento de como se estabelecia na época o processo de lançamento de um fonograma — contato da gravadora com a fábrica, confecção da arte, distribuição e vendas. (MACKAYE. 2011).

Figura 1: Logomarca do selo Dischord Records. 
Fonte: http://cdn.shopify.com/s/files/1/0197/1326/files/Dischord_Records.jpg?16411

Após alguma observação e questionamento sobre como lançar um disco por conta própria com amigos que já haviam obtido algum contato com selos e lojas de disco, a solução foi arranjar a prensagem dos discos via telefone e esperar o envio dos vinis finalizados pelo correio. No entanto, o ciclo estava longe de se completar, ainda havia uma boa parte do caminho a ser descoberto. Por exemplo, para a elaboração das capas, Ian foi até a coleção de discos de seus pais, escolheu que considerava não muito significativo e literalmente desmontou a capa de E.P., com o intuito de observar como era a estrutura de montagem e colagem que as fábricas utilizavam em lançamentos profissionais. Com a capa totalmente descolada e aberta em sua frente, um pedaço de cartolina serviu de molde para traçar as linhas ao longo do contorno da estrutura, demarcando suas margens, dobras e pontos de corte, criando uma espécie de template que serviria para qualquer outro disco do mesmo formato — nesse caso um E.P. de sete polegadas (Fig. 2). Uma a uma as cópias eram produzidas a mão em uma linha de montagem rudimentar na sala de estar de sua casa — na verdade a casa de seus pais, que até hoje serve de sede para a Dischord Records, com amigos dispostos a colaborar. A arte foi colocada sobre essa “fôrma”, cortada, dobrada e colada; em seguida o folheto com letras das canções e fotografias da banda era também dobrado; ao final os discos e o folheto eram colocados dentro da capa e tudo era encaixotado, deixando pronto para a distribuição. Este processo se deu para cada uma das mil cópias produzidas na primeira tiragem do E.P. Minor Disturbance, da banda Teen Idles (Fig. 3). (MACKAYE. 2011).

Figura 2: Exemplo do modelo de template criado por Ian.
Fonte: http://www.digitaledgecc.com/images/C201.jpg

Porém, ainda restava a última etapa do complexo esquema de negócio do mercado fonográfico: vender o produto final. O que foi resolvido de maneira tão simplória e informal quanto os enigmas anteriores — caixas contendo o E.P. eram levadas por MacKaye e Nelson diretamente às lojas de disco que frequentavam e onde compraram seus primeiros discos de Punk. Estabelecimentos independentes que comercializavam material de Punk Rock foram os primeiros a vender o catálogo da Dischord Records comprando um determinado número de cópias ou obtendo uma quantia de discos consignada. À medida que eram vendidos, novas cópias eram trazidas e negociadas do mesmo modo. O bom ritmo das vendas despertava o interesse de outros vendedores em distribuir aquela nova música produzida por um núcleo jovem, que sem se dar conta, recriava um fenômeno já ocorrido nos distantes anos 1950, porém, em um novo e inexplorado contexto.

Figura 3: Capa e encarte do EP Minor Disturbance da banda Teen Idles. Primeiro lançamento da Dischord Records.
Fonte: http://www.discogs.com/Teen-Idles-Minor-Disturbance-EP/release/1155279

Essas práticas que foram sendo descobertas e aperfeiçoadas ao longo dos anos pelos selos, de acordo com as necessidades dos artistas e do próprio selo, e que se estendem até os dias de hoje, nunca dependeram das imponentes redes de varejo norte-americanas para suas vendas e distribuição, pois desde o início seus consumidores eram praticamente direcionados e o foco era no mercado independente local e nas bandas que faziam parte dessa realidade. O selo Dischord Records de restringe a lançar material de bandas que são parte da cena de Washington D.C., a cidade onde nasceu e da qual fazem parte e vê nisso uma forma de encorajar pessoas a tomar controle dos cenários musicais em suas próprias cidades e fortalecer o meio independente local, conforme pode ser lido no website do selo:

We only release music from the DC’s music scene because this is the city where we live, work and have the most understanding. To expand would be to dilute our focus. We encourage creative people to take control of their local scenes and to look within themselves to create opportunities as others encouraged us to do when we started out. (DISCHORD, 2015).

2. A criação de identidade e o acúmulo de seguidores no meio.

No decorrer dos anos 1980, Ian MacKaye e sua rede de colaboradores que informalmente auxiliavam na formação do selo, produziam um catálogo incansável de bandas iniciantes de sua cidade, que excursionavam os EUA e Europa, tendo sua música comercializada em centenas de países. Inclusive as bandas das quais ele próprio fazia parte como aconteceu com a banda Fugazi, formada em 1987 em Washington D.C., sete anos após o lançamento do primeiro disco do selo, também com uma banda formada por MacKaye.
O Fugazi ficou conhecido pelos enérgicos shows, extensas turnês e vasta produção musical. Estes fatores, de certa forma, exemplificavam o que significava fazer parte de um selo independente que funcionava para o artista e não apenas em benefício de um empresário ou investidor. Só o segundo disco da banda já vendeu atualmente um número superior a 500.000 cópias, Repeater (Fig. 4). (SCHWEITZER, 2014).

Figura 4: Capa do LP Repeater da banda Fugazi. Lançado pelo Dischord Records.
Fonte: http://www.discogs.com/viewimages?release=563515

A reputação de MacKaye (Fig. 5) na cena independente norte-americana, tanto como músico quanto como porta voz do selo, é praticamente inquestionável dentre os que compravam o catálogo do seu selo e o conheciam pessoalmente, no que diz respeito a sua coerência com os valores defendidos e maneira de fazer negócio. Os ideais difundidos através de suas criações — Dischord e Fugazi — eram espalhados na comunicação boca-a-boca pelas bandas que faziam parte do selo e pelos fãs, criando uma espécie de culto e a crença de que é possível alcançar um de equilíbrio entre estabilidade financeira e constância nas atividades de uma banda, como gravar e lançar discos, fazer shows e turnês, sem seguir o modelo corporativo imposto pelas grandes gravadoras multinacionais.

It is true that Fugazi is in all likelihood the only band in modern music history to become so internationally renowned and financially stable without the aid of the promotion machine consisting of armies of publicists, managers, legal assistants, and handlers that are at the disposal of the major labels. (GOSHERT, 2000, p. 94).

Figura 5: Ian MacKayer na Dischord House, sede do selo em Washington DC, EUA.
Fonte: http://s3.amazonaws.com/assets.dischord.com/images.d/artist/image/446181/ian_PatGrahm.jpg

Em uma entrevista concedida em 2014 na Loyola University (Chicago, Il, EUA) para alunos do curso de Music Business, Ian MacKaye descreve algumas de suas políticas e filosofias de trabalho, postura de negócios e relacionamento com bandas em seu catálogo, que auxiliam no entendimento de seu raciocínio e na compreensão da sua lógica e visão sobre o business do setor e onde ele próprio se vê inserido nesse âmbito.
Inicialmente, quando junto de Jeff Nelson (também ex-integrante da banda Teen Idles) decidiram por lançar um disco, não havia intenção alguma de se tornarem um selo operante e fazer disso algo presente em suas vidas. Jamais imaginaram que quase quarenta anos depois ainda estariam fazendo isso — apenas criaram a marca para documentar a banda, registrar um momento de suas vidas que do contrário passaria em branco. A própria incerteza de ser um selo ou não acabou por garantir um dos principais fatores para o sucesso de suas empreitadas como selo fonográfico e o que faz com que muitas bandas sempre voltem a trabalhar com a Dischord: o ambiente de informalidade que orbita nas negociações entre selo e artista. Não há contratos ou advogados envolvidos, nem nunca houve. Acordos são feitos via e-mail e verbalmente. E a relação com os grupos se restringe ao lançamento de discos única e exclusivamente. Não interferindo nas gravações, agendamento de shows, etc.. No caso de uma banda do selo sair em turnê, parte do trabalho como provedor de discos é realizar o envio dos fonogramas a estas localidades, assegurando que as pessoas dispostas a assistir a uma apresentação do grupo em questão, tenha fácil acesso a sua música, sendo em estabelecimentos comerciais especializados ou no próprio show. Quando há lucro sobre as vendas, é dividido 50–50; quando há prejuízo o selo assume 100%. Reforçando a confiança que as bandas depositam no Dischord e seu pessoal, assim como a missão que lhes cabe: lançar discos apenas. Quando existe a necessidade de rompimento ou de se desfazer um acordo, isso é feito com a mesma naturalidade com que foi realizado, sem constrangimentos ou inimizades.

My interest in the record industry itself is actually extremely low. In fact I generally think of it as pretty odious. So in some ways, the only way to get my music out, the only way I would feel comfortable doing it, is really by putting it out myself. But in terms of the business, I can’t stand it. Never used a contract on the label ever, no contracts. No lawyer. Don’t have a lawyer. Never had a lawyer. I think a lot of times people felt that Dischord — the approach we had, Dischord was too idealistic. But considering that the label is now 33 years old and we have a staff of four or five people who are at least reasonably paid with health care and so forth, I’m wondering if we’re real yet. I suspect we are. Maybe we weren’t too idealistic after all. (SCHWEITZER, 2015).

2.1. A visão única do cenário no qual se insere.
O desinteresse expresso de Ian MacKaye pela indústria fonográfica e tudo que lhe soe corporativo ou business, se apresenta como fator tão determinante para suas tomadas de decisão quanto a questão da informalidade nos negócios. Tendo como principais preocupações o artista e o público, descreve em sua entrevista de 2014 que a intenção por trás de “cada disco produzido pelo selo é que este disco seja ouvido, caso contrário se tornará essencialmente lixo”. Quando 1.000 pessoas querem um disco, não serão feitas 10.000 cópias deste disco; e quando 10.000 pessoas querem um disco, não serão feitas 1.000 cópias — nas palavras de Ian. Ou seja, o que importa não é que mil discos ou dez mil discos sejam vendidos para uma loja ou distribuidora — correndo sério risco de virar estoque — mas sim que esses mil ou dez mil discos sejam realmente ouvidos por mil ou dez mil pessoas.
Quando se trabalha com um processo de produção e uma ideia que visa colocar a música a disposição que quem deseja ouvi-la, é necessário fazer certas adaptações ao longo do caminho, de modo a localizar as exigências e necessidades de seu público alvo, porém sem desvirtuar-se de seu discurso. Até meados de 1986/1987 o Dischord Records não trabalhava com a produção de CD’s, por exemplo. Apenas vinil e fitas cassete eram comercializados, pois não havia demanda — o publico do selo, na maioria dos casos, ouvia música em toca-fitas portáteis. No final da década, com a popularização dos CD players, pedidos por lançamentos desta mídia começaram a chegar, fazendo com que o nicho passasse a ser explorado. O mesmo aconteceu com o mp3 e a música digital nos anos 2000. A partir do momento em que um número considerável de fãs passou a solicitarem a disponibilização do catálogo via canais da internet, o selo deu início ao processo de fornecimento de material para download em veículos como iTunes, Zune e downloadpunk.com. Apesar de não obter um meio próprio de comércio de música online, MacKaye afirma que este é um plano para o futuro: uma plataforma com o catálogo completo do selo Dischord Records onde cada música será vendida por um valor mais baixo do que a concorrência. (MACKAYE, 2015). A respeito da música digital, Ian ainda acrescenta “se há algo bom sobre a internet — e existem algumas coisas boas sobre a internet — é que ela meio que corta o intermediário. É só o caso de ser encontrado.” (McLeod, 2005, p. 527, tradução nossa).
Ainda sobre as diferenciações entre CD’s, LP’s e meios digitais de lançamento de discos, MacKaye declara preferência pela produção de discos físicos. Acredita que há uma comunicação existente entre arte visual (capa e encarte) e o som, e que isso se perde quando a música é consumida digitalmente, mesmo que as capas sejam apresentadas junto dos downloads. “O que antes seria um disco de dez canções, agora se transforma em apenas dez canções.” (MACKAYE, 2015, tradução nossa). O conceito do álbum elaborado pelo artista fica um tanto deturpado com a forma aleatória do consumo de música online, e para uma empresa que trabalha valorizando o artista mais que o seu próprio lucro, este se torna um aspecto importante a ser considerado.
O selo Dischord Records, a partir das políticas desenvolvidas por Ian MacKaye como seu principal idealizador possui uma maneira muito clara de trabalhar e ocupar o seu lugar no mercado fonográfico independente. Sem jamais depender do interesse ou apoio de redes de varejo e grandes gravadoras, empostou-se com tamanha firmeza no solo da música underground norte-americana que algumas destas gravadoras consideradas majors, passaram a comprar parte do catálogo, exercendo a função de distribuidoras. Enquanto em um primeiro momento a única forma de distribuição e difusão dos fonogramas por eles produzidos era levando os discos diretamente a pequenas lojas que trabalhavam com Punk Rock e onde se tratava direto com o dono e também pelo envio de material a outros estados e países via correios, hoje a empresa conta com uma rede de distribuição informal que atua neste quesito, nacional e internacionalmente, disseminando as 70 bandas e centenas de títulos em seu catálogo. O Dischord Records é uma prova prática de que o êxito no mercado não corporativo pode ser igualmente eficaz.

3. Considerações finais.

O surgimento do Dischord Records, no princípio da década de 1980, convergindo com o auge do Hardcore Punk nos Estados Unidos, influenciou jovens no mundo todo a formarem selos próprios para tornar sua música disponível. Quando não existem alternativas é preciso cria-las nós mesmos. Também desse tipo de iniciativa surgem fanzines (revistas feitas à mão, a partir de colagens e imagens fotocopiadas que contém entrevistas, artigos, resenhas, opinião, arte e uma infinidade de material relacionado à música de nicho), centros culturais autônomos que servem para acontecer shows e ensaios; e, obviamente bandas que se formam com a intenção de gravar músicas, lançar discos e viajar em turnê; todos estes fenômenos extremamente necessários e vitais para o estabelecimento de uma rede alternativa de contatos — baseada na ética do faça-você-mesmo. Nessa rede, reside um universo de práticas culturais que é sugerido como opção ou alternativa ao modelo corporativo de se fazer e vender música.
Conforme Goshert discorre em seu estudo sobre o impacto do movimento Punk dos anos 1970, nas décadas 1980 e 1990 (2000, p. 92), uma das maiores lições aprendidas por essa cultura é a de não seguir os moldes pré-estabelecidos pelas corporações multinacionais e fomentar uma realidade em que cenas locais possam produzir por si mesmas. Criando um modo de comunidade que não seja centrado no sucesso financeiro de selos, bandas e casas de show. 
O modo de trabalhar proposto por Ian MacKaye em seu selo possibilita que a maneira como se lançam fonogramas mediante uma grande gravadora seja não apenas repensado, como também mostra um caso onde isso já é colocado em prática com êxito há anos. O artista com controle total sobre sua música e um olhar para o aspecto da produção fonográfica em que os discos são fabricados sem exageros e exorbitâncias, produzindo arte pela arte, mas sem os prejuízos que este lema pode causar quando desconsiderados fatores externos — tiragem, público alvo, demanda, vendas, acesso, etc..
 Também a aposta no fator local se mostra de vital importância na aplicação das políticas e valores do Dischord. Criar um selo que se limite a produção fonográfica oriunda de uma cidade apenas é quase uma forma de resistência ao modo corporativo de tentar identificar lucro potencial em qualquer canto do mundo. É um modo prático de dizer não ao óbvio. Não à massificação da cultura de nicho. E, em contrapartida dizer sim à autonomia. Sim à independência de cenas locais. 
As vésperas de completar 37 anos de trajetória, o Dischord Records segue ativo e forte, movimentando o cenário de Washington D.C. através de lançamentos de novas bandas que surgem e relançamentos de discos com tiragens anteriormente menores, de grupos que não mais existem. Nos passos de MacKaye segue uma geração que cresceu ouvindo suas músicas, lendo suas letras, frequentando seus shows e comprando seus discos e que emula suas ações, criando algo próprio e genuíno. A inspiração encontrada no pioneirismo de indivíduos como Sam Philips e Ian MacKaye — que criaram algo tangível onde previamente só havia incerteza e vazio — é o que catalisa a mudança de situação nos cenários de música independente, é o que causa a efervescência da novidade, mesmo que ela aconteça para um restrito número de poucas dezenas de pessoas.

Referências:
BASKERVILLE, David. Music Business Handbook and Career Guide. 8ª ed. Thousand Oaks, California: Sage Publications. 2006.
BURNETT, Robert. The Global Jukebox: The International Music Industry. New York: Routledge. 1996.
CHAPPLE, Steve. GAROFALO, Reebee. Rock’n’Roll is Here to Pay — The History and Politics of the Music Industry. Burnham Inc Pub. 1977.
DUNN, Kevin. “If It Ain’t Cheap, It Ain’t Punk”: Walter Benjamin’s Progressive Cultural Production and DIY Punk Record Labels. Journal of Popular Music Studies. 2012.
GOSHERT, John Charles. “Punk” After the Pistols: American Music, Economics, and Politics in the 1980s and 1990s. Popular Music and Society 24.1. 2000.
HEARN, James E.. The Representation of Major and Independent Record Labels in Billboard Magazine. University of North Alabama. 2009
MATTSON, Kevin. Did Punk Matter?: Analyzing the Practices of a Youth Subculture During the 1980’s. American Studies. 2001.
MCLEOD, Kembrew. MP3’s Are Killing Home Taping: The Rise of Internet Distribution and Its Challenge to the Major Label Music Monopoly. University of Iowa. 2005.
MOORE, Ryan. Friends Don’t Let Friends Listen to Corporate Rock: Punk as a Field of Cultural Production. Florida Atlantic University. 2007.
MOORE, Ryan. Postmodernism and Punk Subculture: Cultures of Authenticity and Deconstruction. University of Kansas. 2004. 
VERNA, Paul. Touch and Go Thrives by Keeping Punk Ethic. Trade Publication. 1993.
WARD, Ed; STOKES, Geoffrey; TUCKER, Ken. Rock of Ages: The Rolling Stone History of Rock and Roll. Summit Books. 1986.

Entrevistas:
BEAUJON, Andrew. Dischord Records: Out of Step with the World. [13 jun. 2003]. http://www.spin.com/2003/06/dischord-records-out-step-world/>. Acesso em: 17 nov. 2015.
RASTELLI, Louis. Dischord Records Interview. [2004]. http://www.fishpiss.com/archives/116>. Acesso em: 17 nov. 2015. 
ROBERTS, Michael. Q&A with Minor Threat, Fugazi and Dischord Records Founder Ian MacKaye. [18 nov. 2008]. http://www.westword.com/music/qanda-with-minor-threat-fugazi-and-dischord-records-founder-ian-mackaye-5676364>. Acesso em: 17 nov. 2015.
SCHWEITZER, Ally. Ian MacKaye: ‘If You Want To Rebel Against Society, Don’t Dull The Blade’ [19 ago. 2014]. http://bandwidth.wamu.org/ian-mackaye-if-you-want-to-rebel-against-society-dont-dull-the-blade/>. Acesso em: 16 nov. 2015.

Documentos eletrônicos:
DISCHORD Records website. About. http://www.dischord.com/about>. Acesso em: 16 nov. 2015.

Vídeos:
AMERICAN Hardcore: The History Of American Punk Rock 1980–1986. Direção: Paul Rachman. Intérpretes: Ian MacKaye, Keith Morris, Henry Rollins. [S.I.]: Sony Pictures. 2006. 1 DVD (100 min.), son., color..
CADILLAC Records. Direção: Darnell Martin. Intérpretes: Adrien Brody, Beyoncé Knowles, Jeffrey Wright. [S.I.] Sony Pictures. 2008. 1 DVD (109 min.), son., color..
INSTRUMENT. Direção: Jem Cohen. Intérpretes; Fugazi. [S.I.]: Dischord Records. 1999. 1 VHS (115 min.), son., color..
MACKAYE, Ian. An Interview with Ian MacKaye of Minor Threat/Dischord Records. [S.I.] 2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xS-jq1MzUzo. Acesso em 04 de novembro de 2015.