BlockChain e a revolução da Internet

Como uma tecnologia de 2007 pode restaurar os ideais perdidos de 1990

Pensadores e tecno-geeks que presenciaram o nascimento da Internet há pouco mais de vinte anos lamentam a configuração que ela tomou com o passar do tempo. Anunciada como uma plataforma eletrônica, virtual, onde os serviços se organizam de forma descentralizada, sem um ponto de controle único, ela seria finalmente a libertação das pessoas em relação às grande corporações, e a democratização dos acesso aos serviços antes reservados aos que podiam pagar. Assim se garantiu amplamente o acesso à comunicação, ao comércio, às transações financeiras, à informação e conteúdo, incluindo textos, livros, música, imagens e videos, de forma independente da grande imprensa, editoras, gravadoras e estúdios e seus monopólios: AT&T e Telefónica, New York Times e Bloomberg, Harper Collins, Sony e CBS, Paramount e Metro são os exemplos de organizações altamente lucrativas até então.

Num primeiro movimento os transgressores foram o email e o ICQ, o Bitorrent, o Napster, o Craigslist. Parecia-nos que finalmente conquistáramos a independência de um controlador central de receita e lucros. Poderíamos nos comunicar a custo de acesso à rede, compartilhar músicas e filmes de graça, vender e comprar produtos sem pagar nada de comissão.

Mas aos poucos o fenômeno da monopolização que ocorreu no mundo físico se repetiu no virtual. O conteúdo foi dominado pelo Facebook e Youtube, o acesso à informação pelo Google, o comércio pela Amazon e Alibaba, pagamentos pelo PayPal, hospedagem e transporte comunitários por AirB&B e Uber. Você pode até alegar que não paga por esses serviços, mas o preço mais alto está na forma de cessão de informação a nosso respeito, que permitem a exploração, por exemplo, da propaganda. A princípio inofensiva, tal exploração toma formas sinistras quando passa a rastrear nossos gostos e rotina. E esse fenômeno só vemos crescer.

Esses mesmos pensadores vêem numa tecnologia emergente um alento e uma possibilidade de restaurar à Internet sua característica inicialmente mais almejada, a descentralização. É o BlockChain, que suporta o BitCoin, moeda virtual que promete subverter o sistema financeiro dominante por independer de um controle central, e do poder que ele acarreta nas mãos de poucos. Como? Uma contabilidade virtual controla quem pagou a quem e quando desde a primeira transação, num arquivo que só cresce a cada nova transação. A identidade dos participantes, a veracidade e unicidade da transação são garantidos por um algoritmo matemático de criptografia. A contabilidade não fica centralizada, mas é replicada, copiada entre todos os participantes da comunidade. E a plataforma que suporta essa comunidade é o BlockChain, tecnologia que executa as funções descritas. O sucesso do BitCoin se confirma nos bilhões de dólares em ativos que já acumula, e atesta a propriedade e o acerto do ideal original da Internet, as comunidades descentralizadas.

Pode parecer pouco, mas a descentralização é a base do sucesso de sistemas naturais, onde o melhor exemplo é a evolução da vida. A menos que se fie na religião, há um consenso de que não há um controlador central na evolução dos seres vivos, que se estende já por quatro bilhões de anos com resultados surpreendentes — a inteligência humana, para citar apenas um. Se o exemplo é muito amplo, há outros, como o mercado de capitais, a democracia, a sincronização de peixes em cardumes, uma colônia de formigas que constrói pontes sobre riachos com seus próprios corpos. O que emerge dos sistemas descentralizados surpreende até os mais céticos, que em condições normais apostam na centralização — empresas, governos — para produzir melhores resultados.

É na descentralização do BlockChain que se apoiam as esperanças de recuperar os ideais da Internet original. Prevê-se que um sistema de mensagens similar ao Twitter pode ser implementado de forma descentralizada. Idem com um sistema de crowdfunding (financiamento de projetos pela comunidade) independente de um controlador como o Kickstart. Comunicações nos moldes da WhatsApp e roteamento similar ao Waze também são possíveis, sempre independentes de um controlador central que hoje lucra às custas da comunidade. Tudo sem pagamento direto, sem propaganda, sem invasão de privacidade. Esse é o ideal promovido por tecnologias como BlockChain.

Há inclusive previsões de que tal reforma na Internet como conhecemos, em última análise substituindo qualquer desses sistemas baseados em transações entre as partes, desmontaria até conceitos enraizados como o governo. Suas funções de coletar impostos, garantir soberania, representar a nacionalidade e prover serviços como segurança, educação e saúde são questionados. Afinal, num mundo conectado, as fronteiras que sustentam a soberania caem a cada dia com o acesso livre às comunidades virtuais e aos serviços de outros países. Em comunidades virtuais anônimas como o BitCoin e o Craigslist é muito difícil taxar impostos. E sem impostos, ficamos sem os serviços? Não, pois sempre há opção do crowdfunding para financiar projetos de segurança, educação e saúde para a comunidade.

Diante disso, a volta da descentralização na Internet não apenas destruiria o enorme poder das corporações, mas democratizaria radicalmente os serviços, subverteria vários aspectos de nossa vida e até dissolveria governos, ou pelo menos a necessidade deles. É levar muito longe a restauração dos ideais originais da Internet? O futuro dirá.

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