Eu, Gilmar e o caixa dois: todo mundo numa boa.

É preciso muito cuidado ao se questionar Gilmar Mendes, como vimos no caso da Mônica Iozzi.

Ainda assim, ouso estranhar essa “defesa do caixa 2" em campanhas políticas feita pelo Ministro do STF, quando ele diz que a prática pode não configurar corrupção. Segundo Gilmar, o caixa dois é uma opção da empresas para contribuirem sem sofrer pressão dos adversários, sem buscar receber em troca um “ato de ofício” que o favoreça.

A mim parece que essa explicação serve também para dar dinheiro a um policial em uma blitz. Não necessariamente estou pedindo algo em troca, posso estar apenas colaborando para dirimir as dificuldades da categoria que, inclusive, esteve em greve recentemente.

Não foi o policial que pediu, fui eu quem decidi ajudar e fiz isso de maneira informal para evitar pressão da Polícia Civil e da Guarda Municipal.

Não sou louco de dizer aqui que Gilmar Mendes defende X ou Y quando se manifesta dessa forma, até porque não teria 30 mil para gastar indenizando algum juiz vítima de meus comentários maldosos. Prefiro acreditar que foi inocência.

Gilmar desconhece, até por ser jurista e não político, como o caixa dois influencia indicações para cargos, licenças ambientais, aprovação de leis, destinação de verbas e resultado de licitações.

Como ele saberia que essas “doações” resultam em ações que favorecem os “doadores” de maneira intencional?

Não há provas disso. Pode ser tudo uma grande coincidência: o cargo, a licença, a lei, a verba, a licitação, tudo beneficiando o doador inocente por uma feliz sorte e méritos óbvios, sem nenhuma ligação com interesse de quem pagou pela campanha sem declarar publicamente e, portanto, não pode ser acusado de influenciar as coisas.

Da mesma forma, se o guarda retirar minha multa, isso nada tem a ver com minha contribuição. Apenas coincidiu que, enquanto eu fazia minha parte para que ele pudesse trabalhar mais tranquilo, ele percebeu uma série de atenuantes capazes de tirar o peso da minha infração.

Cabe lembrar também que o dinheiro de caixa dois é muitas vezes usado para pagar equipes inteiras, gerando uma cultura de sonegação de impostos que é praticamente a regra em campanhas eleitorais, independentemente do que pensam os que recebem assim.

Dinheiro recebido em sacolas ou sacos de papel, bolos de notas ou cheques de terceiro, três meses de renda não declarada para dezenas, centenas de pessoas, tudo isso vem do caixa dois. Mas, além de Gilmar Mendes não ter como saber que isso acontece, também não é corrupção. Ou seja, de boas.

Principalmente agora, quando vemos pela primeira vez em nossa história, grandes empresários e políticos sendo presos por corrupção, é fundamental que um jurista chegue para explicar que caixa dois pode não ser corrupção, assim evitamos a prisão de políticos e empresários inocentes que adotaram essa prática na maior lisura, inocência e sem qualquer dolo ao interesse público. Uma mera alternativa de doação para que o empresário bem intencionado não sofra pressão de outros políticos.

Então, concordo: por que criminalizar o caixa dois ou a cervejinha para o policial como se fossem corrupção sempre? Como diz Gilmar, pelo menos no primeiro caso isso nem sempre é corrupção. Então, tudo bem.

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