
Eu, seu próximo prefeito.
Decidi ser prefeito. É que a vida de publicitário já mostrou a que veio e deixou claro que não vai. Sendo assim, resta-me a política, espaço livre para o debate, as novas ideias e a picaretagem em geral.
O primeiro passo é encontrar um covil, digo, um partido. Pesquisei bastante, analisei ideologias, posicionamentos, me informei sobre o quadro atual de representantes eleitos, escarafunchei padrões éticos e morais e acabei escolhendo aquele que poderia conseguir mais grana para a campanha.
Partido escolhido, era hora do próximo passo. Não, nada de pensar projetos ou debater com lideranças. O passo importante era definir quem, quanto e quando.
Ah, não há ritual de sedução mais belo do que o de arrecadação de fundos para uma campanha. A multiplicidade dos pretendentes, as promessas de recompensa posterior, os debates sobre a plataforma fictícia para a eleição e os objetivos práticos depois do pleito. Tudo isso para convencer os parceiros a jorrarem cifrões sobre minha candidatura.
Como na conquista amorosa, os dois lados vendem a perfeição, mas sabem que depois da união é que vamos saber quem o outro é de verdade. Nada demais, c’est la vie. Ou melhor, c’est la politique.
Depois das coisas realmente importantes resolvidas, chegamos ao ponto de mostrar o que interessa ao eleitor: um candidato jovem, bonito, com propostas vagas e com um tom levemente inovador.
Com 43 anos dava para me passar por jovem. Quanto à beleza, não havia muito o que fazer, mas comecei uma dieta, comprei ternos novos (com verba do partido) e contratei meu marketeiro para azeitar o discurso. No caso, o contratado fui eu mesmo para economizar (o meu dinheiro, não o do partido, é claro).
Precisava me apropriar de uma causa de impacto que me desse visibilidade nos próximos meses e adotei a mobilidade urbana como minha bandeira. Estava na moda, falava com os pobres e sempre era um problema. Excelente.
Claro que sempre andei de carro, mas isso pouco importa. O que é realmente importante é ter essa causa-pé-de-cabra capaz de abrir as portas dos financiadores e o coração do público.
Discuti sobre a integração ônibus e metrô, sobre ciclovias, sobre a balsa, VLT, BRT, trens urbanos, táxi lotação e o diabo. Menti como louco, prometi mundos e fundos e arranquei dinheiro dos mais diversos grupos interessados no assunto: empreiteiras, construtoras, sindicatos, cooperativas e muitas, muitas empresas.
30% pra campanha, 70% pra mim e 100% de balela. Sendo eleito ou não, meu tempo investido já teria valido a pena só por aquela receita. No entanto, sabia que quatro anos de negócios assim seriam muito mais rentáveis e levei a coisa a sério.
Tornei-me um paladino da mobilidade. Comprei jornalistas, adquiri grupos, blogs e perfis nas redes sociais, inventei associações em defesa da transparência no transporte público e coloquei todos para falarem ao meu favor. Virei notícia, tornei-me referência, fiquei onde todo político gosta de estar: na boca do povo e no bolso do empresariado.
Às vésperas das eleições, contratei uma equipe sensacional para cuidar da campanha. O slogan “Com ele a gente chega lá” fazia um trocadilho simplório, mas eficiente com a questão da mobilidade. Até um gesto de campanha veio junto, com pessoas apontando sorridentes e sonhadoras para o futuro. Uma lindeza.
Aí ficou fácil. O jingle grudou na cabeça das crianças, minha imagem photoshopada ganhou as ruas e meu programa de tv, vago e lindérrimo, só faltou ser indicado ao Emmy.
Claro que, tendo sido eleito com uma belíssima margem de votos e com sobras nababescas de campanha, poderia ter pago o combinado a quem fez parte da minha equipe, mas eu estava de olho em uma casa nas montanhas desde a homologação da candidatura. O preço tava ótimo, não dava pra perder e essa gente que trabalha em campanha sabe que levar cano é normal, acontece mesmo.
Então é isso, comigo a gente chegou lá. Daqui a 4 anos eu volto. E você vota.