Suicídio

Um triste Spin-Off de O Inverno Em Que A Morte Amou

A manhã era fria apesar do sol, e a jovem negava-se a sair da cama. Sua mãe, entretanto, forçou-a a levantar-se e arrumar-se para a escola. Suspirando, ergueu-se e tratou de fazer o que era necessário. Juntando toda a energia que conseguiu encontrar dentro de si e na fatia de maça que havia comido, a garota saiu de casa e caminhou com pernas bambas os trinta minutos que a separavam da escola.

Ao chegar naquele ambiente estranho, cheio de pessoas as quais ela não fazia a mínima questão de ver, o peso da mochila em seus ombros pareceu dobrar, e Aurigae sentiu os olhos enxerem-se de lágrimas. Não queria estar ali, e não devia também, afinal, não pertencia aquele lugar. Em seu coração não sentia que pertencia a lugar algum, qualquer que esse fosse. Queria não sentir a dor da mesma forma.

Não podia.

Balançando a cabeça, ela entrou na sala de aula e sentou-se no fundo, o mais distante que pôde de todos. Abriu um antigo scrap e voltou a rabiscar as páginas, cheias de poética melancolia. A entrada e saída dos professores lhe passou despercebida, mas os olhares dos colegas não. Perguntando-se o que poderia estar errado, resolveu olhar para si mesma, mas sem realmente se enxergar, vendo apenas o que os outros viam. Sem querer, achou o erro. Sua blusa do avesso, por alguma razão, atraiu uma indesejada atenção.

Olhando ao redor, podia imaginar os comentários na cabeça deles. De como era desastrada, desatenta, não conseguia nem ao menos colocar uma camisa, quem dirá tomar conta da própria vida. Sua mãe concordaria. Lhe diria que a irmã sim era capaz. A avalanche de pensamentos negativos continuou até o sinal bater. Ia saindo da sala, quando tomou um tropeço no pé de alguém. Uma garota metida que achava que havia alguma competição entre as duas. Gargalhadas foram ouvidas e um sorriso maligno lançado a Auri.

Enquanto passava pelos corredores abarrotados de gente, evitando os olhares e se esquivando de esbarrões, tentando esquecer o que acabara de acontecer, ela sentiu-a novamente. A sensação maldita que insistia em acompanhar-lhe durante o dia. Tentando não entrar em pânico, a garota apenas respirou fundo e contou até dez. Pensou nas histórias que a avó contava-lhe antes de ir dormir quando era uma criança e a vida era mais simples, mas foi uma péssima ideia. Juntou-se ao peso em seu peito o sufocamento da saudade, e, mais uma vez, quebrou.

Largando a mochila no chão, sem se importar com as pessoas ao redor, Aurigae correu para o banheiro do segundo andar. Ninguém ficava ali naquele horário. Entrou na última cabine e, chorando violentamente, encolheu-se numa tentativa frustrada de se acalmar.

Dezessete minutos depois, quando os soluços haviam parado, ela se levantou tremendo e foi até a pia lavar o rosto. Observou-se então no espelho. As olheiras profundas, a pele pálida esticada de magreza sobre os ossos do rosto. Seus olhos azuis céu encontravam-se enevoados e o cabelo uma vez dourado agora jazia embaraçado sobre seus ombros, como barbante pintado de amarelo-claro.

“Feia.” Ela pensou. “Não importa como.”

A raiva cresceu dentro dela, e a mistura perigosa de sentimentos resultou em desastre. Com uma pancada forte quebrava-se um pedaço do espelho e abriam-se as juntas de seus dedos. Os cacos e o sangue, misturados, não ficavam nem de longe tão feios quanto ela pensou que pudessem. Mas havia um elemento em excesso. Vidro.

A dor, as saudades, a tristeza inexplicável, o sangue escorrendo por seus dedos. E, não mais que de repente, os cacos em seu braço, um grito abafado, um desejo satisfeito.

Escorou-se na parede e escorregou até o chão. Deixou cair uma última lágrima e fechou os olhos.

E foi-se.

Para não mais voltar.

Vermelho Sangue Sempre Foi Minha Cor Favorita

Para saber o que acontece depois, acesse: O Inverno Em Que A Morte Amou

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