ALIAS GRACE: Um jogo com sentidos de gênero

Bem a tempo de uma maratona para o feriado de 2 de novembro, a Netflix estreou em sua programação a série Alias Grace. Baseada na obra de mesmo nome que em português foi traduzida como Vulgo Grace, a adaptacão da história escrita por Margareth Atwood — assim como aconteceu com a produção de The Handmaid´s Tale para a Tv — nos mostrou mais uma vez o quão comprometida com as causas das mulheres e com as fortes críticas a sociedade patriarcal Atwood é em sua obra.

Margareth Atwood construiu a narrativa de Vulgo Grace a partir de uma pesquisa realizada por ela sobre o assassinato do Fazendeiro Thomas Kinnear e de sua governanta Hannah Nancy Montgomery, em 1843 no Canadá. O caso chamou a atenção de diversos estudiosos, pois na ocasião dois suspeitos foram a julgamento, Grace Marks (16) e James McDermott (20) ambos empregados de Thomas Kinnear, ambos condenados à morte por enforcamento durante o júri, no entanto apenas McDermott acabou enforcado. O fato de Marks não ter sido enforcada, segundo os estudiosos do caso, se deu basicamente por dois motivos: o primeiro foi a incerteza quanto à qual teria sido a participação exata da garota nos assassinatos e o segundo atribui-se a uma performance baseada nas facetas de feminilidade que Grace Marks teria usado a seu favor durante o julgamento para obter — perante um júri masculino — o benefício da dúvida. Ou seja, vestindo a roupa da mulher pura, inocente, ignorante, frágil e subserviente, Marks conseguiu convencer e ganhar a simpatia do Júri para assim escapar de sua sentença.

Imagem de Alias Grace série original da Netflix

É aqui onde se acentua a ação da agência numa leitura sobre o caso. A agência é aquilo que em oposição a estrutura traz as possibilidades de transgressão, de subversão, de resistência. É o ponto de virada em que o sujeito envolto em relações de poder encontra um modo de transgredi-las e perturbá-las. Há uma estrutura criada sobre o sujeito mulher para que performe o gênero com atitudes de feminilidade ligadas à: passividade, mansidão, fragilidade, obediência, pureza, cuidado, beleza, entre outros atributos que foram ao longo do tempo, limitadores do fazer feminino, delegaram lugares e papéis às mulheres colocando-as em polos opostos e desiguais em relação a fazeres, papeis e lugares do masculino. Essa é a construção binária de gênero que ao longo da história serviu para silenciar as mulheres e oprimi-las. O que acontece no caso de Grace Marks é que em seu julgamento, ao apresentar-se como esta figura feminina ideal de acordo com o sistema binário de gênero, com todas as qualidades sobre as quais os homens deveriam se colocar como protetores da mulher, ela consegue virar o jogo a seu favor. A suspeita abre assim na estrutura colocada sobre o feminino a possibilidade de subversão em que aquilo que ela essencialmente deveria ser por sua “natureza feminina” e que, portanto, a limitaria e deixaria vulnerável, agora trabalha a seu favor fazendo com que ela mesmo condenada não sofra a execução da pena.

Em termos de obra literária, assim como no clássico da literatura machadiana é possível questionar se Capitu traiu ou não Bentinho, ao assistir ou ler Alias Grace também se pode rondar o dilema: a garota matou ou não Kinnear e Montgomery? No entanto, isso se torna menos importante à medida em que se percebe o modo como a protagonista da história transita por facetas de gênero para confundir sobre a justiça de sua condenação. A figura da mulher vive entre os meandros do paraíso e do inferno, passeia tenuemente — e conforme o interesse social — entre a bondade do divino e o malefício do pecado original, é Maria — mãe protetora, mas também é a serpente, também é Eva — a que convence Adão a pecar. Inclusive assim como no Conto da Aia, Atwood irá se valer disso em Vulgo Grace para construir sua crítica a religiosidade como um dos argumentos que levam à opressão do feminino. Portanto, em se tratando da obra escrita por Atwood, na personagem de Marks gritam ao menos três estereótipos femininos criados pela sociedade patriarcal que a personagem aprende a usar a seu favor, ainda que sejam adjetivos comumente prejudiciais às experiências das mulheres por serem historicamente visões limitadas sobre quem é e como uma mulher deve ser.

Marks - A histérica: a primeira faceta sugere o prejuízo dos silenciamentos femininos na repressão da raiva que Grace carregaria pelos abusos que ela sofreu de vários homens durante a vida e que mulheres queridas para ela também sofreram, como sua mãe e sua amiga Mary Whitney. É com base nessa repressão da raiva que o médico psiquiatra Simon Jordan, em determinado momento da série após tomar os relatos de Grace, questiona a falta de espaço na sociedade para que as mulheres sejam ouvidas e como isso no caso de Marks teria a influenciado a participar do assassinato, projetando e descontando sua raiva nas vítimas. Teria sido essa mesma raiva reprimida somada aos traumas de uma vida cheia de abusos que levou Grace à histeria (argumento científico clássico no diagnóstico de mulheres com “problemas psiquiátricos” durante o século XIX) e consequentemente a estar em surto quando participou ou cometeu os assassinatos. Marks aqui é a mulher louca, histérica e surtada cuja condição “cientificamente” se explicaria por uma vida cheia de privações, traumas e abusos.

Marks/Whitney -A bruxa: A segunda faceta se revela ao longo da série na dúvida quanto ao fato de Grace estar possuída pelo espírito da amiga Mary Whitney — morta em decorrência das complicações de um aborto — no momento do crime. Durante uma sessão de hipnose Mary se apresenta no corpo de Marks e revela ter sido ela quem cometeu os crimes, quem influenciou McDermott e o guiou durante o assassinato, bem como quem dirigia o corpo de Grace Marks naquele momento. Este ato de possessão para além de um questionamento sobre as fronteiras entre ciência e mesmerismo, também cutuca a temática do silenciamento feminino pois pode ser interpretado como uma obsessão do espírito de Mary Whitney em ser ouvida — e novamente — em soltar sua raiva reprimida, sua frustração pelo modo como sua vida terminou precocemente. Whitney é construída como uma personagem ousada, com ideais revolucionários, mas que se apaixona por um dos filhos de sua patroa e acaba engravidando do rapaz que se nega a assumir a sua responsabilidade na gravidez de Mary. A personagem então recorre a um aborto clandestino do qual decorrem complicações. Em seu leito de morte, Mary revela estar com muita raiva por se encontrar naquela situação, ainda assim não conta a Grace o nome do homem com quem se envolveu. Ao transitar entre a dúvida sobre ser Mary ou ser Grace possuída, a personagem veste a roupa da louca novamente, que poderia ter desenvolvido dupla personalidade pelo trauma da perda da amiga e por não se conformar com a injustiça de sua morte, mas também traz a faceta da bruxa, da mulher demônio, da mulher que de algum lugar das trevas retira poderes para enganar e fazer maldades.

Olhar nos olhos da bruxa louca

Marks - a serpente manipuladora: A última faceta projeta a ideia da mulher manipuladora em dois pontos conforme Marks conta sua história para o Dr. Jordan. Primeiramente, como a mulher que poderá manipular mais uma opinião masculina para continuar se livrando de sua condenação. E em segundo lugar, como a mulher que irá manipular e perturbar a opinião do médico sobre ela, seduzindo-o com sua beleza e fragilidade, a ponto de ele se recusar a dar seu parecer oficial sobre a história de Grace, sua opinião médica sobre as possibilidades dela ser uma assassina ou não. Ao manipular a opinião do médico, Grace o está simbolicamente impedindo também de contar a história dela segundo ele, a história dela com todos os abusos e dificuldades pelos quais passou, mas que ninguém quis ouvir por ela mesma. Grace Marks silenciada impede com sua manipulação que um homem assuma o lugar de fala dela mesma, na história de vida dela. E isso parece uma alegoria narrativa para o fato de as mulheres serem silenciadas e até hoje só terem suas histórias validadas muitas vezes quando contadas por vozes masculinas. Grace aqui é a mulher serpente manipuladora que escapa de sua sentença e que se vinga de seus silenciamentos.

Na cena final, Grace costura uma colcha para si na qual amarra elementos que a fazem lembrar de três mulheres que foram injustiçadas na história: ela mesma, Nancy Montgomery e Mary Whitney, ao costurá-las juntas passa-se ao espectador a ideia de que Marks de fato carregava as dores das outras duas mulheres em seus atos e que não só por ela, mas por todas utilizou-se das estratégias que podia para não ser executada.

Diante de tudo isso ao assistir Alias Grace iremos nos confrontar com a dúvida sobre a inocência ou a culpa da jovem Grace Marks, mas também nos depararmos com uma história repleta de camadas. Transpassada por recortes de classe e — sobretudo — de gênero, bem como por possibilidades de subversão que saltam para demonstrar as fragilidades dos padrões de gênero. Possibilidades estas que revelam como jogar o jogo do opressor pode ainda assim ser um ato de lutar contra ele, de confundi-lo e de fazê-lo cair em suas próprias arapucas. O olhar de Grace Marks ao longo da série denota uma postura de quem entendeu isso e assumiu o comando durante esse jogo, assim se há alguma lição que se pode tirar sobre esta obra colocando-a em perspectiva feminista e ressignificando os sentidos da manipulação feminina é que nós podemos encontrar as possibilidades de perturbar os sistemas que nos aprisionam; onde nos querem santas, seremos bruxas, onde nos querem bruxas, seremos santas, num jogo onde nem sempre se pode diferenciar quando se está sendo uma ou outra.

Escapamos das regras e retornamos a nós mesmas.

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