ENSAIOS SOBRE O NÃO CALAR: Os homens explicam tudo para mim de Rebecca Solnit

O Mansplaining para além do termo, enquanto todo um sistema opressor de mulheres que está na base de nossa organização social como uma cultura violenta de silenciamento.

Me propus a escrever uma resenha sobre a leitura do livro mencionado no título deste artigo e lançado no Brasil pela Editora Pensamento-Cultrix, neste ano de 2017. Me propus um grande desafio já que a leitura do escrito de Solnit nos tira o folego (e por vezes as palavras) ao mesmo tempo em que nos impele a espalhar aos quatro ventos o quão poderosa a leitura deste livro é. O que faz dele uma publicação bastante necessária sobretudo, em cenários odiosos, ignorantes e ameaçadores aos direitos (e vozes) das mulheres, como os que enfrentamos ultimamente.

Voz. Esta parece uma das principais coisas sobre as quais os diferentes artigos compilados no livro tratam. Portanto, se inicialmente parece que o escrito se lança como um guia para entender o Mansplaining, termo cuja definição é atribuída a Rebeca Solnit após um episódio em que um homem tenta explicar para ela um livro que ela mesma havia escrito, conforme passeamos pelas páginas percebemos a profundidade que o silenciamento feminino enquanto violência traz seja na história das mulheres como categoria ou nas diversas situações pelas quais, infelizmente, é provável que passemos ou já tenhamos passado em algum momento de nossas vidas.

“Os homens explicam coisas para mim, e para outras mulheres, quer saibam ou não do que estão falando. Alguns homens. Toda mulher sabe do que estou falando. São as ideias preconcebidas que tantas vezes dificultam as coisas para qualquer mulher, em qualquer área; que impedem as mulheres de falar e de serem ouvidas quando ousam falar; que esmagam as mulheres jovens e as reduzem ao silêncio, indicando, tal como ocorre com o assédio nas ruas, que esse mundo não pertence a elas.” (p.15)

Partindo desta ideia de que o silenciamento sempre esteve presente na história feminina a autora demonstra como este é um fenômeno de gênero que adquire diferentes formas em situações de violência, abuso, interrupção. No capítulo “A guerra mais longa”, o não ter voz perante a cultura do estupro como uma violência de gênero epidêmica e culturalmente enraizada em diversas partes do planeta, é tratado como um silenciamento que se potencializa pelo medo que geram na população feminina sujeita a este tipo de violência. Em “Dois mundos colidem numa suíte de luxo” Rebecca Solnit, demonstra como a partir da decisão de não se calar diante de um assédio sexual uma camareira derrubou (embora não sem sofrer perseguições e julgamentos quanto a sua credibilidade) um dos homens mais poderosos do mundo, estremecendo toda uma (falida) organização monetária global. Em outro capítulo, “Avó aranha” Solnit, demonstra como os silenciamentos resultam em apagamentos de mulheres das diversas teias e constelações familiares ou de outras organizações da sociedade, como as formas de não existência feminina resultam das invisibilizações impostas às mulheres por meio do apagamento de sua genealogia, de sua presença nos circuitos de tomadas de decisão, entre outros.

“Elimine sua mãe, depois suas avós, depois suas quatro bisavós. Volte mais algumas gerações e centenas de pessoas, depois milhares desaparecem. (…) Cada vez mais vidas vão desaparecendo, como se não tivessem sido vividas, até que você reduz toda uma floresta a uma só árvore, uma teia a uma só linha. (…). Há tantas formas de não existência feminina. (…). Algumas mulheres vão sendo apagadas aos poucos, outras de uma só vez. Algumas reaparecem. Toda mulher que aparece luta contra as forças que desejam fazê-la desaparecer. Luta contra as forças que querem contar a história dela no lugar dela, ou omiti-la da história, da genealogia, dos direitos do homem, do estado de direito. A capacidade de contar sua própria história em palavras ou imagens já é uma vitória, já é uma revolta.” (p. 90–97)

Então, para além da expectativa inicialmente criada de que a leitura se concentrará numa explicação sobre o termo Mansplaining, ao longo de nove capítulos totalmente devoráveis, Rebecca Solnit avança com este conceito e segue aprofundando a cada artigo, os diversos silenciamentos aos quais estamos sujeitas, demonstrando tanto as vitórias históricas já obtidas contra eles, quanto os empasses que precisam ser superados, os desafios nos nossos caminhos para sermos ouvidas e as esperanças nas novas gerações de mulheres que lutam para escreverem e contarem suas histórias, ainda que sempre se levantem forças que tentam nos levar de volta a um lugar de silenciamento e opressão.

As histórias analisadas e contadas pela autora ao mesmo tempo que discutem sobre nossas dificuldades e sobre os fantasmas que nos assombram — como a cultura do estupro, a violência contra as mulheres, a dificuldade de termos credibilidade ao expor nossas feridas ou nossas ideias, entre outros temas — também são abordadas sobre um ponto de vista que representa as viradas na luta contra nossas mordaças.

Por isso ao longo do livro, Solnit também tem a preocupação em demonstrar como as ideias radicais de que as mulheres são gente (Marie Sheer), transformaram consideravelmente as relações entre masculino e feminino em diversas esferas e como esta ideia — hoje chamada de Feminismo — pode estar na base de uma mudança ainda mais radical no futuro, que envolva a libertação profunda de todos, bem como o convívio harmônico com o planeta terra. Para isso, ela nos indaga sobre as novas libertações que precisamos buscar, a libertação de nossa imaginação que nos faça, como ela o diz em um trecho, “ser produtores e não consumidores de significados”. A insaciável busca pela libertação e a crença nas ideias como formas de revolução que nunca morrem, mas estão sempre num devir, ao mesmo tempo em que traçam importantes transformações sociais conforme se luta por elas, parecem ser o combustível proposto por Rebecca Solnit ao incendiar nossos corações e mentes para que continuemos lutando por nossas vozes mesmo em tempos perigosos.