Ano novo e velhas histórias!

Tanananananã Batwa!

Quando eu criei a Ana eu estava, na minha cabeça, me protegendo (sim, meu nome é MariANA, não Ana), mas essa é uma história dolorida e longa que não faz sentido contar aqui, apesar de alguns de vocês saberem.

Eu só queria falar de jogos, nerdices e ciência.

E eu queria ser ouvida.

Bem, sempre me senti uma cientista, e cientistas colhem dados e transformam isso em informação e outras coisas. Eu sempre amei ler e testar, tudo e qualquer coisa que aparecesse no meu caminho, da receita de bolo aos experimentos da faculdade que colocaram fogo no meu cabelo — calma, foi divertido e eu estou bem (não, não vou fazer novamente).

Eu criava minhas próprias teorias, histórias, métodos e tutoriais, eu lia notícias nacionais e internacionais, eu queria traduzir coisas, eu queria escrever coisas. Eu queria informar as pessoas porque eu sempre pensei que elas ficariam tão animadas e felizes quanto eu com aquelas informações.

Eu queria dividir para multiplicar.

Pode parecer feio o que eu vou dizer, mas eu era como o cachorrinho que busca o jornal todos os dias para seu dono: eu queria trazer informação por acreditar que informação e conhecimento tornam as pessoas melhores — e eu queria uma comunidade melhor nos jogos.

Durante muitos anos eu não tive um rosto e criou-se muita lenda por trás disso:

  • Já acharam que eu fosse homem;
  • Já acharam que eu fosse uma moça muito feia.
    Obs.: Eu não acredito em “feiura” de uma forma muito tradicional, pois beleza para mim é algo também subjetivo. Ok, talvez eu seja uma moça feia, mas isso não importa;
  • Já acharam que eu fosse um fake de alguém de alguma empresa de jogos manipulando (?) a comunidade;
  • Já acharam que eu estava ficando muito rica (RYYKAAA) com os jogos;
  • Me chamaram de Paulo, Pedro, Sir Dal, Lyafar, … Batman

Mas no final das contas eu era só a Mariana, e eu só queria falar sobre jogos, nerdice e ciência. Eu só queria trazer o jornal todas as manhãs e informar.

De certa forma, eu consegui.

Uma das coisas mais legais de viajar de avião: Vistas maneiras!

Escrevi para grandes portais e pequenos blogs de jogos usando vários outros nomes, inclusive o da Ana. Conheci muita gente do meio dos jogos, viajei bastante, conheci desenvolvedores, marketeiros, jogadores. Tive o privilégio de ter empresas pedindo meus textos, minha opinião, minha ajuda, minhas ideias e minha presença. Senti o peso e o orgulho de ter jogadores esperando meu aval, me pedindo ajuda, agradecendo minhas dicas e informações e confiando em mim e no que eu falava.

Eu promovi eventos no Rio de Janeiro e São Paulo, eu divulguei promoções, eu ganhei tantos e tantos presentes que eu pude orgulhosamente dividir tudo: Cada presente que eu ganhava de um jogador eu guardava, cada presente que eu ganhava de alguma empresa eu distribuía.

Ok, com algumas exceções.

❤ Eu que agradeço, vocês não imaginam o quanto.

Especificamente no Dofus, eu vi outras pessoas começando a fazer o mesmo que eu e pensei “Agora vai! Vamos melhorar muito e teremos uma comunidade forte e relevante”. Pensei que estivéssemos agregando mais formadores de opinião, mais produtores de conteúdo: novas ideias.

Talvez eu tenha me enganado um pouco. A gente nunca pode esperar do coração dos outros aquilo que temos no nosso, eu aprendi.

Quando Dofus fez 10 anos, teve uma festa em SP e alguns formadores de opinião, produtores de conteúdo e jogadores foram convidados. Eu fui um desses.

Eu não tinha medo de aparecer, ou que descobrissem que por trás daquela pandawa meio doida, meio batman e de identidade secreta, existisse uma Mariana distraída, curiosa e sonhadora. Meu medo era de que eles não vissem isso.

Eu sempre disse, parafraseando o V de Vingança “meu rosto são minhas ideias”, toda vez que perguntavam quem e como eu era — eu não queria que minha aparência contasse, eu queria que minhas ideias contassem. Tendo um pseudônimo (ou fake, chame como preferir), de certa forma eu consegui isso. Eu não era a moça de quase 1,80m bochechuda e sorridente, eu era uma fonte de boas informações, boa conversa e umas piadênhas, moldada pelas minhas atitudes nos jogos e na comunidade.

Eu sempre gostei mais da minha mente do que do meu corpo. Não que eu não goste de como eu me pareço, na verdade eu gosto bastante de como eu me pareço (❤). Não por eu me achar linda, mas por eu ter noção que meu corpo é quem me proporciona tornar as coisas que crio, penso e idealizo reais . Não tem como não gostar dele, apesar dele ter o nariz do meu pai.

Eu sempre gostei das pessoas inteligentes (não as que tem mais estudo necessariamente), aquelas que podiam me ensinar algo. Eu sou o tipo de criança que senta no chão para ouvir quem quer que esteja falando, na esperança de absorver um pouco do conhecimento mostrado. Sim, talvez eu seja meio doida, mas sou feliz assim. E eu posso dizer que aprendi muito com todas as pessoas que passaram por mim no tempo que me dediquei quase integralmente aos jogos.

— — Aqui chegamos na parte que resume tudo — -

A DofusGirl in a Wild World

Quando eu comecei a receber mais mensagens como “Deusa, linda, perfeita, maravilhosa. É gata e ainda joga! …” e similares mais do que “Ana, o que você achou da atualização nova? O que acha dessa build? Você conhece a história desse NPC? Viu que vai sair episódio novo de Wakfu? Já matou esse boss- como faz? Vi um vídeo sobre física e lembrei de você”.. eu me cansei da Ana.

Eu parei de me sentir alguém como vocês e para vocês, para me sentir uma garota propaganda de um produto que eu nem sei qual é.

Quando foi que meu rosto passou a valer e contar mais para eles que minhas ideias?

“Quero ver você pessoalmente para saber se você é realmente bonita!” Se tornou uma exclamação muito mais constante que “Quando nos encontramos vamos nos enfrentar num pvp!”

E vocês começaram a criar tantas “Anas” na cabeça de vocês que isso de certa forma começou a me afetar. Cada um que encontrava pessoalmente tinha uma ideia diferente sobre mim:
“Nossa, você é diferente das fotos! Nem parece com quem eu imaginava” vs “Nossa, você é igual as fotos, como eu imaginava!”

E eu comecei a perceber que, de certa forma, cada um criou uma imagem própria de mim e isso me deu certo receio “E se eu não corresponder a todos eles?”. Bem, é impossível corresponder a vocês todos, então eu só posso corresponder a mim.

Pela primeira vez fui diretamente julgada, para o bem e para o mal, pela minha aparência no “Mundo dos Jogos” — e é bem insano pensar nisto me baseando nos meus 5, 6, 7 anos de “anonimato nerd”.

Vi jogadores dizendo “ela só quer aparecer”, sendo que eu passei anos fazendo exatamente o mesmo, só que “sem rosto”. Vi jogadores dizendo que eu estava querendo mais audiência, mesmo quando meu trabalho já se encontrava alinhado, crescente e na frente MUITA COISA de qualquer (entre muitas aspas) “concorrência”.

❤ Bilhetes, cartinhas, pedidos de autógrafo, pedidos de foto, presentes, novos amigos, risadas, construção de novos momentos, viagens, projetos- também temos o lado bom, senhores!

Vi jogadores também dizendo que se sentiam mais próximos por poderem “olhar nos meus olhos” e saber que tem uma pessoa “de verdade” por trás de cada texto. Isto me amoleceu.

No final das contas, eu talvez só quisesse ser a Mariana dentro do Universo que eu mesma criei.

Ainda não consegui me por numa posição em que minhas bochechas de bolinha não ofusquem minhas ideias — é só um corpo, tem toda uma mente aqui dentro. Ou talvez não esteja conseguindo enxergar minhas novas oportunidades e desafios.

< Essa moça que fez > esse bolo. Estava torto, mas estava gostoso. Foram esses dedinhos fofinhos que fizeram esse brigadeiro aí. É para essas coisas que corpos servem, coisas tipo fazer brigadeiro e vencer desafios nos jogos.

Eu só sei que eu fico grata pelos elogios, mas, se me permitem um pedido:
Vamos voltar a falar comigo sobre jogos, nerdice e ciência?

Eu ainda estou aqui.

Forte abraço,
Adorável Ana Mhizar.

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