A inferioridade dos animais
Por mais que nós humanos tenhamos um ancestral comum com o macaco, nossa relação com a maioria dos animais não é de parentesco, mas sim de conflito. Como se pertencêssemos a famílias rivais. Nós Capuleto; eles Montecchio.
A justificativa para o tratamento destinado a eles é sua suposta inferioridade como espécie. Esse contraste foi reforçado ao longo dos tempos. De início, a religião os privou de alma, atribuindo-a somente a homens e mulheres. Mais tarde, a ciência decretou sua irracionalidade. No meio do caminho, a filosofia os assemelhou a máquinas. Com base em tais discursos, julgamos adequado que os animais nos sirvam e que a nós sejam servidos.
No entanto, para afirmar a inferioridade dos bichos, nos amparamos em critérios duvidosos, advogando em causa própria. Num livro do escritor Coetzee, Elizabeth Costello, personagem sensível ao tratamento destinado aos animais, questiona nossos critérios comparativos. Ela diz que, se fôssemos jogados em uma selva — contexto oposto ao ambiente urbano com o qual estamos habituados -, teríamos menores chances de sobreviver do que qualquer animal. Nossa inaptidão viria à tona.
Situações extremas revelam toda nossa fragilidade. Foi o que notou a jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch ao cobrir uma das maiores tragédias do século XX: o desastre de Tchernóbil. Em sua primeira visita à zona contaminada pela radiação, tudo lhe pareceu estranhamente familiar. “os jardins floresciam, a relva jovem brilhava alegremente à luz do sol. Os pássaros cantavam”. Tudo se mostrava idêntico a como era antes, a mesma água, a mesma terra, as mesmas árvores. No entanto, não tardaram a adverti-la de que não deveria arrancar as flores, sentar-se no solo, tampouco beber a água dos mananciais. Ao entardecer, notou os pastores conduzindo o gado cansado ao rio, porém o rebanho, ao se aproximar da água, deu meia volta. De alguma maneira, pressentiu o perigo. O mesmo se deu com os gatos, que deixaram de comer os ratos mortos, os quais se acumulavam nos pátios e no campo.
Neste contexto, de nada serviram os sentidos humanos. A radiação não se vê, não possui som nem odor. Apenas os animais intuíram o perigo. Pescadores da região relataram que, após a tragédia nuclear, não conseguiram nenhuma minhoca para pescar, pois elas avançaram fundo solo adentro. Um apicultor disse à autora: “Saí pela manhã ao jardim e notei que faltava algo, faltava o som familiar. Nem sequer uma abelha… Eu não ouvia nem uma abelha! Nem uma! O que é isso? O que está acontecendo? No segundo dia, elas não voaram. E também no terceiro… Depois nos informaram que tinha acontecido um acidente na central atômica, que era perto. Durante muito tempo não soubemos de nada. As abelhas sabiam, mas nós não. Agora, se noto algo estranho, vou observá-las. Nelas está a vida.”.
Lá, a justificativa de que os animais são inferiores ao Homo Sapiens fraquejou. Entretanto, a demonstração de perspicácia por parte dos bichos não lhes foi de grande valia: “Na terra de Tchernóbil, sente-se pena do homem. Mas o bicho dá mais pena ainda… Não estou denegrindo, vou explicar. O que restou nas zonas mortas depois que as pessoas foram embora? As velhas tumbas e as foças biológicas, como chamam os cemitérios de animais. O homem só salvou a sua pele, todo o resto ele atraiçoou. Depois que as populações partiram das aldeias, pelotões de soldados e caçadores foram lá e abateram os animais. E os cachorros acorriam à voz humana, e também os gatos… E os cavalos não podiam entender nada. E eles não tinham culpa, nem as feras nem os pássaros, e morriam em silêncio, isso é ainda mais terrível.”
