A paternidade e suas indecisões
Pra mim, o problema da paternidade é idêntico ao do suicídio: ambos são definitivos. Não é possível parar de existir apenas por uns dias, durante a fase mais turbulenta da vida, e depois regressar do sono já mais sereno. Também não dá pra ser pai apenas durante algumas horas por dia ou alguns dias no mês. Quer dizer, dá! Muitos homens são pais esporádicos. Mas eu não quero ser assim.
Há aspectos na paternidade que me soam fascinantes, como contar historinhas para os pequenos antes de dormir, eu acho que adoraria niná-los com música também. Além das conversas, daquelas coisas maravilhosas que só as crianças dizem (como afirma Galeano, “todas as crianças são poetas, todas as crianças são pagãs”). Eu adoraria narrar por escrito uma série desses pequenos episódios, até para entregar ao filho ou filha quando fosse de idade mais avançada. Esses são os aspectos mais atrativos a meu ver, mas a gente bem sabe que há muitos perrengues no caminho. Então, por hora, prefiro pegar as crianças alheias emprestadas por breves momentos.
Recentemente, li A morte do pai, de Karl Ove Knausgård. Obra que causou muita polêmica, pois o escritor se despe diante do leitor, relatando sua vida nos mínimos detalhes e expondo muitos familiares e conhecidos no processo (nem mesmo os nomes foram alterados, é tudo explícito). Algumas das partes que mais me fascinam no livro são as que Knausgård comenta sobre as agruras da paternidade, e eu não posso mentir que não me imaginei em seu lugar sentindo angústias parecidas. Ele conta que teve três filhos em questão de 5 anos, e o nascimento das crianças se apossou de seus preciosos momentos de solidão. Isso o deixou muito frustrado, frustração que por vezes se transformou em pânico ou em agressividade. Em outro trecho, relata o seguinte: “Meus olhos se enchem de lágrimas quando olho para uma bela pintura, mas não quando olho para os meus filhos. Isso não significa que não os ame, pois os amo do fundo do coração, significa apenas que o que eles me trazem não é suficiente para dar sentido à vida. Ao menos não à minha.”.
Um dos maiores problemas de ter filhos está na dificuldade de acomodar nossos desejos e projetos individuais com todo o cuidado que uma criança requer ao longo de anos. Nossa geração não costuma associar sua plena satisfação ao casamento e aos filhos. Sempre há algo além para se desejar. Os anseios hoje são mais variados e numerosos. Portanto, os filhos deixaram de ser a concretização de nosso maior sonho, representando, muitas vezes, um empecilho para sua realização, por mais que os amemos.
Em muitos momentos, me perguntei por que Karl Ove teve filhos, mesmo a par de seu temperamento solitário e de sua grande pretensão literária. O questionamento se tornou ainda mais emblemático com a leitura deste trecho: “E, quando aquilo que me levou para a frente durante toda a vida adulta, a ambição de um dia escrever algo brilhante, de algum modo se vê ameaçado, meu único pensamento, que me corrói as entranhas, é que preciso fugir. O tempo está escapando de mim, escorrendo entre meus dedos como areia, enquanto eu… faço o quê? Limpo o chão, lavo roupa, preparo o jantar, faço faxina, compras, brinco com as crianças em playgrounds, trago-as para casa, dou banho nelas, cuido delas até a hora de dormir, ponho-as na cama, penduro roupas no varal, dobro outras e guardo nas gavetas, arrumo a casa, arrumo a mesa, cadeiras e armários.”
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Este texto ficou engavetado durante meses a fio porque eu nunca o consegui concluir. Há pouco, li Extremamente alto e incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer. O livro é protagonizado por Oskar, um menino de 9 anos. Ele perde o pai no atentado de 11 de setembro e precisa lidar com a perda, achar um modo de seguir em frente apesar do exagero que é a morte de alguém que amamos. A relação de Oskar com o pai era das mais bonitas, a cumplicidade entre ambos era tamanha, o que serve para ampliar o vazio resultante da separação forçada.
Fiquei novamente refletindo sobre a paternidade após e durante a leitura. Eu não sei se a maioria das pessoas possui uma justificativa convincente para ter filhos — tampouco sei se tal justificativa se faz necessária. No entanto, apesar de a paternidade ainda permanecer distante de meus planos, o contato com a história do Oskar me ajudou a criar minha própria justificativa caso algum dia eu deseje me tornar pai. Eu adoraria a possibilidade de apresentar a alguém o mundo em que vivemos, acompanhar seu fascínio diante de tudo que se descortina. Com sorte, eu poderia reaprender como me encantar pela vida, fazendo com que todos os meus ensinamentos fossem eclipsados por esse aprendizado que talvez apenas as crianças possam nos transmitir.
