A revolução do dia 13: Emicida e as verdades de São Paulo

Por Dríade Aguiar, para a Mídia NINJA

As análises desse domingo ainda vão ecoar pelos próximos dias. 
Teve de tudo.
Novos heróis nacionais, gritos machistas e manifestações racistas.
Parte dos verde e amarelo seguraram a mão no discurso fascista.
Parte manteve a tradição e mandou a selfie com o CHOQUE.

Aécio e Alckmin foram vaiados na marcha que eles mesmo convocaram. Marta também!
Já Bolsonaro foi ovacionado na Capital Federal.
A oposição assimiliou um jeito de contar gente em marcha que antes repudiava — um número da PM, um número da imprensa, um número da organização.
Babás negras empurravam o carrinho do casal enquanto eles marchavam.
Na capital paulista Black face de mendigo enforcado foi piada.
No Rio de Janeiro negros foram chamados de infiltrados e expulsos da marcha com a ajuda da Polícia Militar. Em São Paulo foram os homossexuais.

A genialidade de São Paulo chegou ao ponto de se contratar seguranças que tinham como único e exclusivo fim a proteção e integridade de um boneco inflável visado, o tal do Pixuleco.

E para garantir a cota social nas ruas, o habibs resolveu munir coxinha. 6 esfirras garantiram a barriga cheia, enquanto a bandeira a performance das marionetes.

Mas uma coisa não tem como negar — foi um dia de revolução.

Há quilômetros da Avenida Paulista, alheio aos vermelhos, verdes, amarelos e camuflados, se levantou o Lollapalooza. Nada mais coerente no Brasil, que hoje provou ser definitivamente o país das contradições.

No palco quatro estava Emicida. Pra muitos de nós, que passamos o dia de hoje entre globo, band etc news, assistir esse show significava o fim da jornada em frente a TV. A TV que a minha geração, YZKY, não está mais nada acostumada. Era o nosso alívio do dia, a canção de ninar do meu neguinho antes do último round do domingão.

Mas — Neguinho é o caralho, meu nome é Emicida porra.

Minutos depois de começar seu show ele mandou parar tudo, e toda a São Paulo que tem dinheiro pra pagar um ingresso de um festival como o Lollapaloza teve que ouvir: “Eu sou negro, eu sou negro mesmo”, no telão, diálogo genialmente representado Lázaro Ramos, em Ó Pai Ó. Foi o início de uma sequência de chutes na portas, dedos na ferida e tapas na cara da sociedade.

Começou uma série de colaborações emblemáticas na noite: Emicida estava num palco destinado para música eletrônica, em horário nobre, tocando para milhares de pessoas. E decidiu compartilhar isso. Anna Tréa, guitarrista e uma de suas vocalistas assumiu o microfone e cantou “Hoje Cedo” com ele, uma das músicas que reflete a solidão e alcance de um rapper e sua família negra.

E chamou mais mina. Em Mandume, Drica Barbosa e seu fantástico black balançaram a plateia branca que ainda não tava entendendo nada. Não parou por aí. Amiri, Muzzik e Raphão Alaafin tiveram seu momento no show, junto de Rico Dalasam, rapper negro gay e trançado ao lado de Coruja, vindo do interior de São Paulo. Por fim, Fióti, Rael da Rima e DJ Nyack, parceiros já carimbados.

No mesmo dia que Karol Conka convidou Mc Carol no palco, Emicida com MC Guime mostrou o caminho que o jovem negro tem que traçar em um Brasil que protesta seletivamente contra corrupção, contra cotas e espaços para negros, pobres e favelados. Esfregou isso na cara dos hipster da vez.

Na entrevista do pós show ainda arrematou, sobre as influencias do seu último CD: “O Brasil deve muito à África. Infelizmente, a mídia não retrata nada disso” — deixando a entrevistadora do Multishow atônita e a mim, desse lado da tela, aplaudindo na sala com outras três manas urruando emocionadas.

Emicida é nois.