‘Aquarius’ da vida real

Foto: Jorge Ferreira, Texto: Laio Rocha

O filme Aquarius, do diretor Kleber Mendonça Filho, lançado em 2016, foi um dos longas nacionais mais elogiados e premiados dos últimos anos. Gravado em Recife, aborda o tema da gentrificação e da especulação imobiliária.

Em miúdos, conta a história da personagem de Sônia Braga, Clara, que mora em um pequeno e antigo edifício chamado Aquarius, localizado na orla da praia. Uma empreiteira quer comprar o lugar, e envia seu funcionário Diego, interpretado por Humberto Carrão, para assediar os moradores, com relativo sucesso.

No entanto, Clara resiste e luta pela permanência em sua casa até o fim.

A fórmula do filme, apesar de se passar em um ambiente de classe média alta, é bem conhecida. O final é que não. A resistência infinda é, necessariamente, impossível em alguns casos. Não por falta de vontade. Imagine o seguinte: você mora em um pequeno hotel, paga 700 reais de aluguel mensal, faz alguns bicos para sobreviver. É uma terça-feira, 13h, tudo está normal. Você vai ao banheiro. Está no meio do negócio e, de repente, um trator do lado de fora arrebenta o muro que cai na sua perna. Nem a Sônia Braga resistiria.

A situação é bem real, e aconteceu na terça-feira (23) na rua Dino Bueno, em São Paulo. Supostamente “sem querer”. Tão inocente quanto o próprio diabo. O ‘Aquarius’ da vida real, no entanto, estava cercado por mais de uma dezena de Guardas Civis Metropolitanos (GCM) da Inspetoria de Operações Especiais (IOPE), que após o “““““acidente””””” impediram os moradores até mesmo de recolher os seus pertences e alimentação. Foram relegados a um galpão térreo, mas não em todo espaço, porque, também por causa do “””””acidente””””, 2/3 do local foram interditados e tiveram serviços de água e luz suspensos. Sim, Aquarius era fichinha.

“Aí, mano, falando a verdade, é o seguinte. Sabe porque você quer que a gente saia daqui? Pra demolir tudo. É isso”, disse um morador ao chefe de gabinete da subprefeitura da Sé, Vitor de Almeida Sampaio (que é quase o personagem de Humberto Carrão no filme). De acordo com os moradores, ele passou o dia no local, sem perguntar sequer uma vez sobre as suas necessidades. Porém, no cair da noite, às 21h, abateu-se uma humanidade súbita em seu coração, e então, num gesto inspirado de ajuda, chamou uma assistente social e arrumou um albergue “em que só ficarão vocês, com comida, água e camas”, disse. Só faltou o Netflix.

Óbvio, a resposta foi: “não vamos sair daqui”. Os moradores bateram o pé. Não arredariam o pé do que foi pago com muito suor. Um deles, que preferiu não se identificar, falou da treta que é para conseguir viver ali.

Oriundo do sistema penitenciário, é cozinheiro de primeira, “qualquer coisa que me der pra fazer, eu faço bonitinho”, diz. Mas, como acontece na maioria dos casos, não consegue emprego fixo. Vive de esmolas na rua. O dinheiro vai todo para as necessidades domésticas. “Eu tenho dois cachorros que eu cuido, e tem que dar comida para eles. Tem a minha mulher, eu e ela fuma (cigarro, para não ter preconceito distorcendo fala), e às vezes ela toma uma cachacinha. Tudo que eu tenho é para pagar aluguel e isso, cara”.

Ele conta como foi a Operação realizada pela Prefeitura e pelo Governo do Estado no último domingo (21) no que eles chamaram de “Fim da Cracolândia”. “Eles [PMs e Policiais Civis] não fazem distinção de morador e usuário. Entraram aqui apontando fuzil na cara de todo mundo. Parecia uma rebelião. E eu sei bem o que é uma, já passei por três. Eles não têm o direito de entrar na casa de trabalhador e enfiar arma na cara de ninguém. Nem de sair enquadrando trabalhador só por estar nas ruas. São esses GCMs aí. Ontem mesmo, o rapaz estava só parado aqui na porta de casa e foi levado para a DP. Isso não é certo”.

Desde então, diversos imóveis foram destruídos e outros tantos lacrados pela Prefeitura, que não apresentou documentos e nem avisou os moradores sobre as ações.

“O meu bar foi aberto na operação [da PM e Polícia Civil]. Quando eu cheguei, eles não deixaram eu passar para ver a situação. Quando foi na segunda-feira que fui ver, não tinha nada, só a geladeira e a porta arreganhada. Eu tenho o bar há mais de um ano, e essa é a segunda vez que acontece. Da última vez [que houve operação] fizeram a mesma coisa. Ai pagaram bolsa aluguel de 400 reais durante um tempo, e depois mais nada. Como é que eu vou viver, sendo que eu trabalho ali e dependo disso?

Eu sou trabalhadora, vendo água, refrigerante, cigarro, cachaça, e não tem mais nada lá. Aí o GCM, quando a gente entrou para limpar, ainda veio enquadrar a gente. Não é certo isso, mãe de família tomar enquadro desse jeito. Eu fiquei brava e eles falaram que vão fechar o bar. Tenho dois filhos para manter, como vou fazer? Estou perdendo a moradia e o emprego, estou sem nada”, disse uma moradora que também preferiu não se identificar.

A treta do hotel com o chefe de gabinete continuava. Acuado e gravado por todos os lados, ele até tentou argumentar no tom mais politicamente correto possível, mas, a paz já acabou. “Faz assim, porque você não deixa a sua cama quentinha na sua casa para dormir em um albergue?”, questionou outro morador, olhando tão profundamente nos olhos do cara que ele até saiu caminhando depois. “Se você quer ajudar, traz comida, colchão, cobertor, religa a luz e a água, isso sim é ajuda”, argumentou a proprietária do imóvel.

A presença do vereador Eduardo Suplicy (PT), do ex-secretário de saúde, Alexandre Padilha (PT), gerou um burburinho, que pressionou o chefe de gabinete da Sé a se coçar. Conseguiu então diversos colchões para os moradores não dormirem na situação precária em que se encontravam.

Nesta quarta-feira (25), o prefeito João Doria e o Governador Geraldo Alckmin iriam anunciar Parcerias Público Privadas para “revitalizar” o bairro. Advinha o que aconteceu quando a galera dos prédios descobriram? Os dois saíram escorraçados, pisando bem ligeiro pra não tomar pedrada. Depois os moradores fecharam a Av. Rio Branco com faixas e fizeram uma manifestação pela tarde. A luta é desigual, mas eles estão com sangue nos zói.

O assédio, no entanto, só começou. E esse ‘Aquarius’ não deve acabar tão cedo.