Morte e vida nas ruas 

Visões e perspectivas sobre a violência e os últimos acontecimentos no Brasil.


Ampliar e aprofundar o debate público sobre os protestos, o Black Bloc, a Polícia Militar, o transporte público e a violência — que se torna mais visível e ainda mais explícita— nas últimas semanas.

O compilado de textos a seguir ajuda a entender a complexidade do momento sensível que vivemos. Leia, reflita, e mande sua contribuição
para midianinja@gmail.com


Grito da Liberdade, em Outubro de 2013 , no Rio de Janeiro

A gota de sangue

por Luiz Eduardo Soares

A morte do cinegrafista da Band é uma tragédia e um ponto de inflexão no processo político em curso. Pela tragédia, me solidarizo com a dor de familiares e amigos.


Quanto à política, esse episódio dramático é a gota d’água, ou a gota de sangue que muda a qualidade dos debates e das identidades em conflito.

Quebrar vitrines é prática equivocada, contraproducente e ingênua, mas compreensível como explosão indignada, ante tanta iniquidade e a rotineira violência estatal, naturalizadas pela mídia e por parte da sociedade. Mas tudo se complica quando atos agressivos deixam de corresponder à explosão circunstancial de emoções, cuja motivação é legítima. Tudo se transforma quando atos agressivos já não são momentâneos e se convertem em tática, autonomizando-se, tornando-se uma espécie de ritual repetitivo, performance previsível, dramaturgia redundante.

Os atos agressivos passam a ser a celebração narcísica da própria força, uma teatralização paradoxalmente impotente do ódio. As cenas se sucedem de modo a espelhar a brutalidade policial, realimentando o circuito destrutivo e autodestrutivo da violência, cujo simbolismo afirma o avesso da solidariedade, da fraternidade e dos valores gregários –corroídos pelos mecanismo vigentes de exploração capitalista.

Ou seja, a ritualização da agressividade, por parte de manifestantes, ecoa, reflete e reproduz o que pretende combater. Atos guerreiros instauram nas ruas uma linguagem monossilábica e fetichista que é a réplica grotesca do espírito do capitalismo. O vocabulário de atos agressivos é exíguo e o repertório de imagens, muito pobre –mero decalque do imaginário conservador do entretenimento midiático.

A prática de cooptação do PT esvaziou os movimentos e degradou a política. No vácuo da despolitização, ignorando as mediações, excitados pela legítima revolta contra as iniquidades e a brutalidade estatal, estimulados pelas manifestações de massa que mudaram a face do país, os grupos que insistem em adotar como técnica e tática a encenação da violência estão drenando a energia transformadora, desprendida na sociedade. Estão em marcha batida para o isolamento político. Seu destino é o gueto, a repetição de um enredo triste, auto-destrutivo e desagregador, mais do que conhecido. Atraídos pela visão do inimigo, reificam a volúpia da guerra e caem na armadilha desse velho game do poder: tudo começou com nossa denúncia de que o Estado, via polícias (e o sistema de justiça criminal, em seu conjunto), adotando visão militar, trata o suspeito como inimigo, criminaliza a pobreza e faz a guerra ao Outro. Hoje, os jovens que investiram na linguagem da violência têm um cadáver a sepultar e um caminho a rever. Eles estão militarizando o amor ao Outro e o sentido de fraternidade, que um dia entenderam como o avesso da ordem injusta que impera. Introjetaram a lógica do inimigo.

Foram tomados pelo espírito que condenavam. São inimigos de si mesmos. São cópias do inimigo que combatiam. Nesse sentido, foram vencidos. E não há pior derrota, nem mais radical. Agora, repetem o horror que repudiavam, imitando os algozes que denunciavam. Atravessaram o espelho: com o rojão que mata em punho, aqueles que encenaram a violência converteram-se no avesso de si mesmos. São o outro, seus próprios inimigos.

Enquanto a história vira pelo avesso, O Globo comete um verdadeiro crime contra o jornalismo, procurando macular um dos homens públicos mais dignos e honrados de nosso país: Marcelo Freixo. Acusa-o, na capa, por interposta pessoa, e encerra o parágrafo com a indefectível sentença: “O deputado nega.” Isso não ocorreu por acaso: O Globo sabe perfeitamente que com a derrota dos grupos nas ruas e seu isolamento, com a desmoralização da linguagem da violência, o maior inimigo das iniquidades e da brutalidade estatal é a política, o espaço participativo em que as ruas e as instituições dialogam. Quem, no Rio, quiçá no Brasil, melhor do que Marcelo Freixo, hoje, representa essa via?

Tarefas que me atribuo: prestar solidariedade aos familiares da vítima fatal. Defender Freixo das calúnias e do cerco de que será vítima. Continuar dialogando com aqueles que ainda não se convenceram de que a energia precipitada em junho não pode perder-se no ralo dos guetos e da dramaturgia antiquada, previsível e essencialmente conservadora da violência. O ódio transformado em tática e técnica perde a legitimidade visceral de sua origem e se revela a mimetização especular do que há de mais nefasto na prática e na simbologia da “faca na caveira”, suprassumo da ideologia militar, autoritária e antipopular.


Juventude Marcada para Viver (JMV) realiza ato simbólico no centro do Rio de Janeiro lembrando os homicídios que acontecem todo ano na cidade .Foto: Marcus Galiña

Morte de todos

por Ivana Bentes

É lamentável e realmente triste a morte do cinegra-fista da Band pelo ato irresponsável de um indivíduo. Tem que ter autocrítica e reflexão de todos os lados.

Vamos chorar também todas as outras mortes e vítimas resultado da forma como o Estado e a Polícia vem lidando com as manifestações. Você aí que apóia essa Polícia fascista, que detona a violência e cria o ambiente de terror e repressão que já feriu centenas de manifestantes, jornalistas, que levou pra cadeia inocentes e que é irracional e desproporcional, que não sabe lidar com o cidadão em um Estado democrático, chore também pelos jovens anônimos que vem sendo mortos nas periferias e nas chacinas, chorem pelo camelô que foi atropelado e morreu na Central do Brasil, em meio a fumaça e bombas, sem uma linha de notícia, chore pela Gleise Nana, ex-aluna da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), manifestante que teve a casa incendiada e morreu queimada depois de denunciar um policial.

Chorem por todos os que estão na linha de frente dessas lutas urbanas, arriscando seus corpos e vidas, por pautas que dizem respeito a todos nós.

E vamos lamentar também e repudiar o nível de manipulação das notícias e manipulação da comoção pra criminalizar milhares de pessoas e os novos movimentos urbanos e sujeitos políticos que mal emergiram e que já querem abortar.


Policiais militares durante vigília na Casa do Governador Sérgio Cabral, em 2013.

Morte de cinegrafista acelera pauta de terrorismo no Senado

por Advogados Ativistas

Oportunismo: após o falecimento do cinegrafista Santiago Andrade, os Senadores da base governista se movimentaram para acelerar a votação do projeto de lei que tipifica o terrorismo (PLS 499/2013). O Senador Paulo Paim (PT –RS) se disse disposto a retirar o tema da pauta do debate na Comissão de Direitos Humanos, a fim de imprimir celeridade na votação.

Mediante o acontecido com o cinegrafista, que foi covardemente assassinado, acredito que o Senado tem que responder, não só para esse fato, mas para alguns que já aconteceram e outros que vão acontecer se nada for feito. Por isso, estou disposto a retirar o requerimento e fazer o debate que faríamos na CDH — disse o Senador durante a sessão desta segunda (10).

O Senador Jorge Viana (PT-AC) afirmou ser possível fechar a semana com a aprovação do projeto. No mesmo sentido, sem mencionar especificamente o projeto do terrorismo, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou, ao comentar a morte do cinegrafista, que o Congresso vai fazer a sua parte no sentido de agravar a punição para atos desse tipo.


Manifestantes correm durante ato Grito da Liberdade, em Outubro de 2013.

Mais violência para acabar com a violência?

por Yan Boechat

A morte do cinegrafista Santiago Andrade parece estar criando uma espécie de síndrome de Sherazade na imprensa brasileira. Hoje mesmo vi colegas, aqui no Facebook, defendendo que o rapaz que repassou o rojão ao homem que o acendeu fosse levado a uma redação e que sentisse o gosto da imprensa profissional. Um outro, mais exaltado, afirmou que desejava simplesmente chutar-lhe a cara, se este estivesse caído. Há quem defenda o uso de tacos de beisebol. A Rede Bandeirantes defende ainda mais truculência das forças de segurança e o Jornal Nacional, em editorial, afirma que a morte do cinegrafista foi um ataque à liberdade de expressão.

A Arfoc-RJ, a associação dos fotógrafos do Rio, classifica os “Black Blocs” de assassinos e exige que se instaure uma investigação criminal “para apurar quem defende, financia e presta assessoria jurídica a esse grupo de criminosos”. Tudo isso sem que nem mesmo se saiba ainda quem atirou o rojão e quem é de fato Fábio Raposo, o co-autor do assassinato.

Santiago morreu de forma estúpida. E quem o matou precisa ser preso, investigado, denunciado à Justiça e, se condenado, sentenciado à prisão, como determinam as leis brasileiras. Até agora não existem provas de que o ataque ao cinegrafista foi premeditado. Ao contrário, até. O fotógrafo da Agência O Globo que flagrou o momento em que Santiago foi atingido afirmou que o rapaz de camisa cinza havia mirado o rojão para a polícia, mas ele se desgovernou e atingiu o cinegrafista. Não há provas também de que os dois rapazes que cometeram o crime sejam “Black Blocs”, seja lá o que isso significa. E não existe nenhuma prova concreta ou mesmo indício de que a imprensa fosse o alvo dos ataques. Tudo isso pode vir a ser provado pelas investigações que se seguirão às prisões. Mas, até agora, não foram.

É muito triste, revoltante até, ver alguém absolutamente inocente morrer de forma tão estúpida. É mais triste ainda quando esse alguém é um colega de profissão. Mas, mais do que uma sanha vingativa, cabe a nós, jornalistas, aguardar os desdobramentos dos fatos para ter certeza do que ocorreu. E cabe também a nós exigir que todo o rito de um Estado Democrático de Direito seja respeitado.

Acho que já aprendemos com algumas lições bem duras que condenar antes de julgar e pedir mais violência para acabar com a violência nos leva a lugares bastante sombrios.


Manifestação contra as ações da Polícia Militar no centro do Rio de Janeiro.

Mídia Justiceira

por Ricardo Targino

Não há nenhuma coincidência em que a mídia corporativa, que jamais responsabilizou a PM por sua violência que deixou centenas de vítimas desde junho, queira agora ser a ‘justiceira’ na lamentável morte do cinegrafista.

Não há nesta mídia nem vontade de justiça nem preocupação democrática, o que há é a mídia de elite, em seu permanente desejo de criminalizar o movimento social e o protesto popular.

Ao buscar grosseiramente atingir o mandato exemplar de Marcelo Freixo, criminalizando-o por seu caráter popular, ela se expõe tal como é: adepta do jornalismo sem qualquer horizonte ético e democrático, que se configura como entrave para a ampliação da democracia, da justiça social e para a conquista de mais direitos pelo povo brasileiro.


A tragédia fatal era mera questão
de tempo

por Esther Gallego
e Rafael Alcadipani
para
El País

Santiago Ilídio Andrade morreu. Eis o fato. Atroz, incontestável.

Como pesquisadores, seguimos de perto as manifestações desde que elas começaram. Rapidamente o confronto foi ocupando as ruas, numa dinâmica crescente, com o beneplácito de um governo omisso, ausente na sua negligência, escondido atrás do aparato policial.

Policiais, manifestantes e jornalistas feridos, formam parte do cotidiano dos protestos. A cada dia agressões piores, numa dialética de violência que aumenta exponencialmente. Fabrício Proteus Chaves foi baleado em São Paulo, onde mais uma viatura da polícia foi virada e um Fusca incendiado como decorrência do protesto. A tragédia fatal era mera questão de tempo.

A lógica do Black Bloc era a violência simbólica, a lógica da polícia era a proteção, a lógica do governo era responder aos desafios sociais com cuidado e compromisso, a lógica da sociedade era rejeitar a barbárie, construir, não aniquilar. Todos erramos, violando nossas lógicas.

Se a reflexão sobre o que acontece nas nossas ruas sempre foi urgente, hoje é imperativa. A necessidade de autocrítica é categórica. Os culpados que sejam punidos, aliás, que todos os culpados por todos os feridos sejam punidos.

Os ativistas deveriam pensar sobre suas estratégias e se exigir a si mesmos o comportamento responsável que exigem às policias. Polícias que, a sua vez, devem aprender a lidar com esta realidade. Governo que deve deixar farsas e indignidades de lado. Não só eles. Todos. Estas semanas vivemos linchamentos, tiranias múltiplas contra homossexuais, chacinas. É evidente que o que ocorre nos protestos é um sintoma claro de uma sociedade que instaurou a violência como fundamento de suas relações.

Podemos continuar insistindo no ataque, lançando acusações mútuas e julgamentos hostis ou podemos exigir que sejam esclarecidos com agilidade e honradez os fatos que envolvem todos os casos de agressão nas manifestações. Mas, é preciso ir além. É preciso mudar a lógica de uma sociedade que encontra fundamentalmente na violência a sua forma de expressão. Questionemos-nos sobre que sociedade é a nossa, imersa na sua própria barbarização.

Manifestantes, policiais, jornalistas, peças de um mesmo sistema que se perpetua. Enquanto não buscamos reverter a doença, apenas teremos de conviver com seus sintomas nefastos.

Aprenderemos todos de nossos erros ou só cabe esperar a próxima tragédia?


Depois da morte do cinegrafista Santiago

por Gustavo Gindre para Outras Palavras


1)Entendo o caldo de cultura no qual surgiram os Black Bloc. O ocaso do PT como opção transformadora foi entendido pela sociedade como o ocaso da “última esperança”. Agora, todos seriam iguais. E igualmente safados!

2) Some-se a essa questão conjuntural um processo global de falência das formas tradicionais de representação, inclusive dos movimentos sociais.

3) Diante desse cenário de desesperança, é até previsível que surgisse uma forma de manifestação que flerta com o anarquismo, mas também com o niilismo, sem ser exatamente nenhum dos dois.

4) Isso significa que não concordo com tentativas de demonizar os black bloc. Acho que é preciso entender que eles são um sintoma, uma febre, mostrando que o organismo está profundamente doente.

5) Por outro lado, não concordo com certas tentativas de projetar nos black bloc as esperanças perdidas com a crise do proletariado como sujeito ontologicamente revolucionário. Tem muita gente com um crachá nas mãos, torcendo para encontrar esse sujeito revolucionário do século XXI. E aí acabam projetando suas esperanças.

6) Também não acho correto comparar os black bloc com a miríade de novas formas de organização coletiva e produção simbólica que estão sendo gestadas nas favelas e nas periferias como resposta a essa crise de representatividade. Os black blocs não podem ser comparados a nenhuma alternativa pela mais simples razão de que eles não pretendem ser alternativa a nada.

7) Quem participou das manifestações de junho/julho percebeu que, por detrás do rótulo de black bloc, havia uma enorme diversidade: militantes anarquistas, integrantes de torcidas de futebol, o lumpesinato urbano, etc, etc. Tudo junto e misturado.

——-Dito isso, sobre esse fato recente, da agressão ao jornalista, penso que:

1) Jornalistas são agredidos e mortos o tempo todo. Pesquisa da Abraji revela que, na maioria dos casos, os agressores são policiais. Mas, ninguém comenta quase nada a respeito.

2) Por outro lado, isso não invalida a agressão ao jornalista. Seu agressor deve ser identificado e punido. E ai discordo do Mídia Ninja que diz que não houve a intenção de acertar o jornalista. Pouco importa. Essa situação se compara a do motorista que ingere bebida alcoólica, dirige e atropela alguém. Ele tinha informação suficiente para saber que, ao fazer aquilo, podia matar alguém. Ele assumiu o risco e isso no direito se chama “dolo presumido”.

3) Não adianta agora reclamar que a imprensa está manipulando para criminalizar os black bloc. Isso equivale a desfilar pelas savanas africanas e depois reclamar que foi atacado por um leão. Ué, mas alguém achou que seria diferente? É claro que eles serão criminalizados por essa mídia conservadora! E um movimento social que não trabalha com os dados da realidade está fadado ao fracasso ou a passar o resto da vida reclamando.

4) Também não é de se descartar que haja infiltração. Pode ser da polícia, de miliciano (vide esse advogado que surge agora, com seu “estagiário”) ou de qualquer outra coisa. Quem participa de algo que não tem organização, que basta chegar para fazer parte e onde todo mundo anda mascarado tem que assumir de princípio o risco da infiltração. Aliás, e novamente, isso é mais do que óbvio.

5) O que essa Sininho estava fazendo na porta da delegacia? Por que ligou para o tal estagiário? Alguém pode dar umas férias na Nova Zelândia pra essa moça?


Sobre o caso do repórter cinemato-gráfico Santiago Andrade

por Sindicato dos
Jornalistas Profissionais
do Rio de Janeiro


Independentemente de onde tenha partido o artefato explosivo que feriu gravemente o repórter cinematográfico Santiago Ilídio Andrade, que trabalha na TV Bandeirantes, em protesto na Central do Brasil contra o aumento das passagens de ônibus, nesta quinta-feira (06/02), as imagens revelam que o profissional, assim como a maioria dos jornalistas atuantes nas coberturas de manifestações desde junho passado, não estava preparado para enfrentar um risco como esse. Os trabalhadores da imprensa sofrem hoje com a falta de equipamentos básicos de proteção individual, como máscara antigases e capacete, que deveriam ser fornecidos pelas empresas.

Também não há logística adequada ou mesmo equipe de apoio. Esse quadro ocorre em uma conjuntura mais ampla, na qual o Estado não cumpre o dever de garantir a segurança dos trabalhadores e da sociedade.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro tem cobrado, desde junho do ano passado, dos sindicatos patronais, diretamente das empresas e das autoridades da Segurança Pública estadual ações concretas contra a violência que tem atingido duramente a nossa categoria. O atentado que feriu Santiago — em coma no Hospital Municipal Souza Aguiar, onde mais sete pessoas deram entrada feridas na manifestação — poderia ter sido evitado ou os seus danos, pelo menos, minimizados. Prestamos neste momento difícil solidariedade e assistência irrestrita aos familiares de Santiago. Na mesma cobertura, o jornalista Gustavo Maia, do site UOL, também foi agredido a cassetete por um policial militar, atingido nas pernas, e teve o celular espatifado.

Há três meses, denunciamos, em audiência realizada na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, os graves riscos de vida e as precárias condições de trabalho dos jornalistas que cobrem as manifestações. Na ocasião, foi entregue às autoridades um relatório que apresentou os casos referentes a agressões sofridas por 49 jornalistas num período de apenas cinco meses.

Houve reivindicações encaminhadas especificamente à Secretaria de Segurança Pública, à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, aos ministérios públicos do Trabalho e do Estado do Rio de Janeiro e às empresas jornalísticas.

O relatório foi entregue ainda à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, ONU, OEA, Anistia Internacional, OAB-RJ, Justiça Global, ao IDDH, ao Tortura Nunca Mais/RJ e ao Instituto Mais Democracia. Mais recentemente, em conjunto com diversas entidades de direitos humanos, demos entrada em pedido de audiência temática sobre a violência nas manifestações, com destaque para a que é praticada contra jornalistas, na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.

O Sindicato cobrou na própria quinta-feira (06/02) da direção-geral do Grupo Bandeirantes de Comunicação que adeque imediatamente o seu protocolo de segurança no trabalho às necessidades dos trabalhadores que cobrem os protestos na cidade. Sabemos, no entanto, que essa realidade não se limita a essa empresa de comunicação. Tanto é que o tema das condições de segurança dos jornalistas foi apontado pela categoria como prioridade da nossa campanha salarial deste ano, à revelia dos patrões, que manifestaram o desejo de ver essas cláusulas fora da negociação do acordo trabalhista.

O relatório produzido pelo Sindicato tem sido atualizado quase que semanalmente. De janeiro para cá, além do de Santiago, destacamos mais dois casos: o do jornalista da Globonews que foi expulso por manifestantes do ato popular realizado quando da repressão policial ao ‘rolezinho’ do shopping Leblon; e o das equipes de reportagem do SBT e do jornal O Dia que foram cercadas e atacadas com artefatos explosivos por homens em motos durante protesto em área controlada por milicianos na
Zona Oeste do Rio.

Cabe às autoridades da Segurança Pública e da Justiça a rigorosa apuração da autoria desse mais recente atentado. De nossa parte, mais uma vez, temos de cobrar das autoridades e das empresas que cumpram a sua responsabilidade de agir para a prevenção de casos como o de Santiago. Como sindicato, é nosso dever defender os direitos da nossa categoria, até mesmo para que possa exercer o jornalismo que a sociedade precisa — um instrumento essencial de garantia da democracia e de luta contra toda a forma de violência. A segurança para o pleno exercício da nossa profissão nas ruas é fundamental para a defesa dos direitos humanos, cláusula pétrea do nosso Código de Ética Profissional.

Que esta luta não precise de um mártir.


Manifestante pula catraca durante ato no dia 10/02/14 no Rio de Janeiro.

Nota de Repúdio

à violência da PMERJ contra trabalhadores e manifestantes no dia 06/02/2014 e a tentativa de criminalização dos movimentos sociais.
por
Movimento Passe Livre Rio de Janeiro


O Movimento Passe Livre da cidade do Rio de Janeiro (MPL-Rio) vem a público se manifestar contra a violência perpetrada pela PMERJ no ato da última quinta-feira (06) e que terminou com o saldo de 28 presos, dezenas de feridos e 1 morte. Sim, houve uma morte na última manifestação, prontamente abafada pela mídia corporativa ao dar único enfoque ao caso do jornalista da Bandeirantes atingido na manifestação.

Desde dezembro de 2013 ocorrem atos no Rio de Janeiro contra o aumento das passagens e em todos estas manifestações, apesar de em um momento ou outro, a PMERJ objetivar causar algum entrevero, no geral se mantiveram alheios às movimentações dos manifestantes e tudo correu bem.

Na última manifestação, após a tranquila passeata pela Avenida Presidente Vargas, chegando à Central do Brasil, a PMERJ resolveu que não seria mais um mero coadjuvuvante no ato e colocou toda sua carga polícial sobre os manifestantes, desencadeando uma onda de revolta popular contra as arbitrariedades policiais.

Após a ação covarde dentro da Central do Brasil (usando bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio em ambiente fechado), a PMERJ saiu caçando pessoas a esmo pelas ruas, trabalhadores, manifestantes e quem mais estivesse por ali, novamente jogando bombas à esmo. Nesta situação, o senhor Tasnan Accioly, trabalhador nas ruas centrais da cidade, iniciou uma corrida desesperada pelo meio da avenida para tentar fugir da polícia, algo que muitas outras pessoas faziam no mesmo momento. O pânico causado e a fumaça das bombas tomou conta da via pública e neste momento é que o senhor Tasnan Accioly foi atropelado por um ônibus e teve as duas pernas esmagadas, atingindo artérias importantes do corpo e perdendo muito sangue. Foi socorrido e levado ao hospital Souza Aguiar, mas acabou por falecer no dia seguinte (07).

Uma situação de causa e efeito simples: a PMERJ criou o terror sobre as ruas, levando ao desespero transeuntes, situação que criou o clima indispensável para explicar o porque de correr pelo meio da rua e causando o atropelamento e morte do senhor Tasnan Accioly. Por este motivo, repudiamos a atuação da PMERJ e nos colocamos publicamente em solidariedade com a família e entes queridos deste senhor. Porém, nos causa enorme desalento o esquecimento desta morte. Qual seria o motivo desta situação?

É fato que o ocorrido com o cinegrafista da Tv Bandeirantes Santiago Andrade também nos causa profundo lamento e também nos colocamos aqui em solidariedade com os familiares e entes queridos deste trabalhador. Porém, nos parece completamente evidente que quem desencadeou toda a situação foi a PMERJ e sua irresponsável atuação (jogando bombas de efeito moral a esmo, prendendo e batendo em pessoas aleatoriamente, desencadeando grande revolta entre trabalhares e manifestantes ali presentes). Evidentemente que uma atitude irresponsável por parte de algum manifestante deve ser prontamente criticada, mas a cobertura da mídia corporativa não deixa de demonstrar também os seus objetivos.

Ao qualificar prontamente dois manifestantes vestidos de cinza enquanto “black blocs”, sem antes ter apurado qualquer coisa neste sentido, a mídia corporativa mostra no minimo sua incompetência e, no limite, sua completa parcialidade ante os fatos. É um descalabro tentar vincular uma pessoa à uma tática de ação de rua, em detrimento a preceitos básicos desta tática, já que para ser um “black” bloc é preciso estar de “preto” e, evidentemente, alguém de cinza não compõe o conjunto de pessoas aderentes a esta tática. Mas o pior de tudo é verificar que na visão da mídia corporativa, duas vidas tem valor distinto. E, aparentemente, a vida de um cinegrafista de uma televisão corporativa tem muito mais valor que a vida de um anônimo trabalhador.

Mas não nos deixemos enganar pela aparência forjada, pois a junção de ambos os erros da mídia corporativa nos evidencia um outro aspecto mais importante de sua atuação: ao dar relevo único ao acidente ocorrido com o jornalista, vinculando seu agressor à tática black bloc e ao mesmo tempo esquecendo completamente a morte do senhor Tasnan Accioly, vislumbra-se que mais uma vez o objetivo da mídia cooporativa é criminalizar o movimento de rua e enquadrá-lo sob estritos limites, mostrando sua opção de estar ao lado dos poderes opressores secularmente constituídos (Prefeitura, Governo Estadual e PMERJ).

Sabemos, no entanto, que a PMERJ não tem autonomia nesta decisão, que se deve em sua responsabilidade última ao consórcio do prefeito Eduardo Paes e do Governador Sérgio Cabral, ambos responsáveis pelos aumentos nos ônibus (municipais e intermunicipais) e gestores da máquina assassina da polícia militar. Assim, nos parece evidente que quem acendeu aquele pavio que atingiu o cinegrafista foram os senhores Eduardo Paes e Sérgio Cabral, responsáveis também pelo atropelamento do senhor Tasnan Accioly, sob os quais devem ser computadas o saldo da ação desastrosa e inconsequente da PMERJ.

Mesmo abalados e solidários às vítimas das consequências da atuação policial, não deixaremos de nos valer dos nossos direitos básicos e nos colocar assim contra o aumento. Lembramos ao prefeito e ao governador que o fim das manifestações estão condicionadas à revogação imediata dos aumentos.

Porém, em função dos últimos acontecimentos, a concentração para a próxima manifestação ocorrerá no mesmo local onde o cinegrafista da bandeirantes foi ferido, demonstrando publicamente nossa memória e solidariedade com aqueles que foram atacados no decurso da luta contra os desmandos dos poderes constituídos.

Ninguém será esquecido! Em repúdio à violência contra trabalhadores e manifestantes no último ato! Até a vândala e violenta tarifa cair!

Por uma vida sem catracas!


Peregrinos realizam cerimônia durante a vinda do Papa ao Brasil em 2013.

Mortes e
mais mortes

por Eduardo Sterzi

Você aí que está pensando ou dizendo que o primeiro morto nas manifestações foi o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade: você é muito mal informado.


Antes morreram, pelo menos:

1. A gari Cleonice Vieira de Moraes, em Belém (PA), vítima do gás lacrimogêneo lançado pela polícia militar;

2. Os 13 mortos na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré (RJ) — neste caso, a imprensa sequer se deu ao trabalho de informar todos os nomes;

3. O estudante Marcos Delefrate, de 18 anos, em Ribeirão Preto (SP), atropelado por um carro que furou um bloqueio de manifestantes;

4. Valdinete Rodrigues Pereira e Maria Aparecida, atropeladas em protesto na BR-251, no distrito de Campos Lindos, em Cristalina (GO);

5. Douglas Henrique de Oliveira, de 21 anos, que caiu do viaduto José Alencar, em Belo Horizonte (MG), por ter sido acuado pela polícia militar;

6. O marceneiro Igor Oliveira da Silva, de 16 anos, atropelado por um caminhão que fugia de uma manifestação, numa ciclovia próxima à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, na altura de Guarujá (SP);

7. Paulo Patrick, de 14 anos, atropelado por um táxi durante manifestação em Teresina (PI);

8. Fernando da Silva Cândido, ator, por inalação de gás lançado pela polícia, no Rio de Janeiro.

9. O senhor que foi atropelado por um ônibus, ao tentar fugir da polícia, na mesma manifestação em que o cinegrafista Santiago foi atingido — sobre esta outra vítima, nenhuma linha na imprensa.”


Helicóptero sobrevoa ocupação da Alerj em Julho de 2013

Em Memória ao Camelô e Jornaleiro falecido dia 6
de fevereiro

por Rodrigo Bertame para Linhas de Fuga

Ele era vascaíno, casado, tinha uma filha já adulta, trabalhador, muito trabalhador, morador do subúrbio, Tasman Amaral Accioly se não nos enganamos, pois todos os conheciam por suas diversas alcunhas, vascaíno, meu coroa, meu velho. Esse é o retrato de um suado dono de uma banca de jornal na Tijuca, situada ali na São Francisco Xavier com Moraes e Silva, banca esta que comprou com o que recebeu de sua aposentadoria e lugar onde fazia seu complemento de renda. Quando não estava nas bancas, nos fins de semana trabalhava à noite, era camelô na Lapa, a luta necessária de trabalho para um aposentado viver com dignidade neste país.

O Velho era um Senhor de 72 anos que ralava sol a sol, madrugada a madrugada, era conhecedor assíduo do bairro de Vista Alegre, um bairro querido e pequeno do subúrbio carioca, próximo a irajá, quase ninguém conhece, pois é um destes bairros que não tem trem. Atualmente era morava eo Vila Isabel quase Andaraí, não sabemos dizer muito mais a respeito deste Senhor para além do que temos, só o que sabemos é que era uma figura doce, arrumava troco pra os amigos e sempre tinha uma história pra contar. Sexta-feira não dispensava o chopinho à frente da banca, afinal ninguém é de ferro.

O Velho vascaíno nos deixou, no dia 6 de fevereiro de 2014, atropelado na Avenida Presidente Vargas, fugindo da inconsequente chuva de bomba de gás lançada em cima dos manifestantes. O velho faleceu no dia em que Santiago foi atingido, pelo rojão inconsequente de um manifestante, hoje dia 10 de fevereiro de 2014, também partiu Santiago, a segunda vítima de uma manifestação repleta de conflitos inconsequentes e falta de diálogo do estado com o povo.

O velho era trabalhador, camelô e curiosamente o elo final do mesmo sistema a qual pertencia Santiago, A Imprensa, Santiago era a primeira etapa da produção, filmar, fotografar, estar no local, Tasman era uma das últimas etapas da produção, vender este jornal ao leitor. Tão próximos e tão distantes.

Hoje conhecemos muito a respeito de quem foi Santiago, grande cinegrafista, repórter e trabalhador, pai de família, através da imprensa tradicional, baseado nisso traçamos esta linha de fuga para conhecer um pouco de Tasman Vascaíno, aposentado, jornaleiro e camelô, um amigo suburbano gente boa que nos deixou.

Dedicamos este pequeno texto aos familiares do velho, e ao amigo Rafael Alex Monteiro, uma voz que vimos chorar pelo seu amigo jornaleiro, camarada com quem dividia boas histórias e o amor pelo vasco.

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